A Manicure da Vez era Outra

A Manicure da Vez era Outra

Os sorrisos conhecidos nas horas marcadas por anos escondiam as paredes brancas contornando o espaço em um tempo de  assepsia pura. Mas a manicure dessa vez era outra.

A incomunicabilidade é um fato nos pequenos salões onde mulheres tocam as mãos umas das outras. Umas cuidam, outras se deixam cuidar. A confiança descostura o desconhecido, abre suas vísceras de boneco empalhado até o advento da palavra como uma criança recém parida sustentada na generosidade alheia. O trabalho da atenção e do cuidado quase não é um trabalho.

Eu sentei diante da Graça. Seu rosto auto-evidente lembrava algo familiar e estranho. Olhos de animal fugido, as densas e veludosas bolas esverdeadas e firmes ameaçavam cair sobre mim. Escondida nas pálpebras estava a novidade de um terceiro dia no novo trabalho.

 Era a primeira vez, talvez a última em que ela arrumaria minhas mãos como aconteceu com tantas outras mulheres que fazem este trabalho. Talvez eu não soubesse o que dizer além de perguntar “você é nova aqui?” e ela não pudesse mais que consolar a minha pressa: “pelo menos quando você tem certeza da cor do esmalte já tem futuro.”

 – Os meus filhos cresceram eu eu resolvi trabalhar.

– É mesmo? Mas e antes, quem pagava as suas contas? Você tem marido?

Não. Ela respondeu quase evitando ser pega de surpresa. – Ninguém acredita lá onde eu moro que eu mudei do dia para a noite. Agora que eles me veem chegando tarde… ninguém acredita.

– Não precisa lixar muito não, dá só um jeitinho, faz favor.

– Você escapa do alicate, mas da massagem não. Dá a mão aqui.

 Enquanto ela cuidava delicadamente do contorno das minhas unhas, eu atendia o telefone com a mão que sobrava, revezando com a xícara de café, contava as quinhentas coisas feitas e por fazer evitando o vazio que se estabelece nessas conversas sem propósito que não o de ocupar um lugar no tempo-espaço de um momento em que se está longe da própria experiência. Enquanto eu pensava no fato estranho de que nós duas estávamos debruçadas sobre algo que sempre me pareceu insignificante, lembrei do lado angustiado da vida emaranhado nessas horas de pressa, nesses momentos sem razão. Então ela cortou meu pensamento com uma tesoura fina.

 – Passei 10 anos em casa depois de um acidente, quase dois no hospital. Só sair de casa tem sido uma revolução para mim.

– Nossa, mas você ficou com sequelas?

– Fiquei. Eu manco de uma perna. Ela respondeu devolvendo a confiança com juros infinitos. 

– Eu só vejo os seus olhos cheios de vida. Eu não via outra coisa.

– Eu sou diferente hoje porque eu saí de casa e trabalho aqui e já sei como posso fazer a sua unha do jeito que você gosta. É muito bom fazer uma coisa que deixa alguém feliz. E você deve ser muito feliz porque até no seu jeito de falar a gente vê que você é feliz. Deve ser muito bom fazer o que você faz.

Contei a ela que eu sou professora. Mas não continuei. Queria fotografar pra mim  aquele rosto extasiado, cheio de bondade com a insignificância da cor do meu esmalte, cuidando de não me ferir.

 Hoje é dia das mulheres. Tem quem ache esse dia uma bobagem. Só quem não tem senso histórico ou não descobriu que a vida é feita de símbolos, fantasias, imaginação é que não compreende o alcance desse dia político demais e que tantos tentam tornar meramente econômico. Hoje a Graça foi uma parte dos pequenos e delicados afetos que tornam a vida aviltada e danificada de nossos dias em algo mais fácil de suportar.

Não sei o que aconteceu com ela, mas parecia a magia da felicidade superando a inação do medo. A Graça deu-me de presente a sensação de que o nonsense da vida não era tão interessante quanto a mínima chance de vivê-la. Certa de que a vida desta vez é outra, eu agradeço à delicadeza da Graça.

Nesse dia de todas as mulheres do mundo, eu seguro a sua mão com todo o silêncio que nos une.

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