Há 10 anos, grupo Mães pela Diversidade conscientiza mães e pais sobre LGBTfobia

Há 10 anos, grupo Mães pela Diversidade conscientiza mães e pais sobre LGBTfobia
Integrantes da ONG Mães pela Diversidade na Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 2016 (Divulgação)

 

A cada ano, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo reúne cerca de 1 milhão de pessoas na Avenida Paulista, em defesa dos direitos da população LGBT. Entre bandeiras de arco-íris, lantejoulas e brilho, alguns cartazes chamam a atenção: neles, lê-se mensagens como “meu filho não será estatística”, “nossos filhos têm o direito de amar quem quiserem e constituir família” e “tire seu preconceito do caminho, queremos passar com nosso amor” – mensagens que, além de apoio político, inspiram afeto.

Presentes há mais de cinco anos na Parada LGBT, as faixas são das integrantes da Mães pela Diversidade, ONG de alcance nacional que se coloca como rede de apoio para jovens LGBTs. Formada por mães e pais de jovens homossexuais e transsexuais, a associação também trabalha para garantir  pressão popular em assembleias legislativas e em órgãos internacionais de direitos humanos, além de organização de eventos e mediação de grupos virtuais em que pais – e filhos – possam conversar sobre sexualidade.

“Somos um movimento orgânico sempre em reinvenção que tem como objetivo levar a aceitação a todo o Brasil”, define Majú Giorgi, coordenadora nacional da ONG, que também integra o Conselho Latinoamericano de Mães LGBT.

Além de participar de eventos como a Parada LGBT – e de já ter feito denúncias relacionadas à violação de direitos de LGBTs no Brasil à ONU -, a principal função do Mães pela Diversidade hoje é informar os pais sobre o mundo LGBT. “A ignorância é o que causa o ódio; queremos modificar a cultura para mudar a política”, explica Giorgi. Ela acredita que, assim como o jovem que se assume, a família também precisa de “apoio para fornecer apoio”.  Por isso, a ONG também participa de treinamentos em multinacionais e de eventos em universidades.

Embora não haja ainda uma contabilização do número total de membros, o Mães pela Diversidade está presente em 23 estados brasileiros, incluindo Paraná, Distrito Federal, Roraima, São Paulo e Rio de Janeiro – estes dois últimos juntos somam cerca de mil integrantes. São principalmente mães, mas também pais, de diferentes classes sociais, grupos étnicos, origens e, também, posições políticas, “porque a homofobia atravessa todas essas classificações, independe de direita e esquerda”, diz a presidente. Há mães advogadas, médicas, psicólogas, assistentes sociais e as artesãs – que, com a venda de produtos, sustentam a ONG.

“Focamos no que nos une. O que importa para nós é que o máximo possível de mães esteja, ao menos, consciente sobre as diferentes formas de preconceito contra os LGBTs”, afirma Giorgi. “Se nem todas são tão ativas nos grupos online ou mesmo nos eventos, que tomem ações nos bastidores, contradizendo o motorista homofóbico no táxi, por exemplo”.

Apoio para quem dá apoio

O grupo, que hoje funciona nas redes sociais mas também tem encontros periódicos em cada estado, surgiu em 2007, inicialmente unindo mães de São Paulo, Brasília, Paraná e Rio de Janeiro em torno da preocupação com filhos LGBTs. As primeiras bandeiras do grupo eram “estritamente políticas”: a legalização do casamento civil igualitário e criminalização da LGBTfobia – que, para a Mães pela Diversidade, deve ser  enquadrada na lei do racismo, que já engloba crimes de xenofobia e violência religiosa. “Já invadimos a Assembleia Legislativa, já apanhamos da polícia, sempre pressionando por mudanças na lei, que considerávamos o caminho mais importante”, lembra ela.

Aos poucos, as Mães pela Diversidade começaram a se dar conta de que só a pressão política não era suficiente: para mudar as estruturas que dão base à LGBTfobia, seria necessário trabalhar de dentro para fora na família, oferecendo apoio aos primeiros companheiros dos filhos: os pais. “Percebemos que as mães, principalmente, precisavam desse apoio. Em uma sociedade machista, quase sempre cai sobre elas todo o peso de entender e aceitar o filho LGBT. Como muitas não sabem lidar sem informação e ajuda, acabam se sentindo incapazes disso”.

O grupo ganhou status de ONG apenas em 2014, aí já voltado também para os pais. O nome “Mães pela Diversidade”, no entanto, permaneceu. “Vimos, nesses anos de luta, que o pai muito frequentemente tem medo do julgamento externo sobre os filhos. A mulher não. E é ela quem ‘põe a cara no sol’ e defende como puder o bem estar dos filhos. Há uma força muito grande nas mães que recebemos”, diz Giorgi.

Para ela, toda luta por liberdade e direitos tem “avanços e retrocessos”, mas os avanços levariam a um amadurecimento cultural da sociedade, o que tornaria difícil um “retrocesso à estaca zero”. Ela afirma ainda que um trabalho como o do Mães pela Diversidade, com suas bases culturais, é exatamente o que é preciso para combater a LGBTfobia porque “é isso que muda a mentalidade das pessoas de forma mais permanente que a lei”.

“As pessoas acham que os LGBTs, que representam 14% da população brasileira, são uma minoria. Tudo bem. Mas agora imagine se todas as mães se levantarem e lutarem ao lado de seus filhos”, afirma. “Imagine se os pais, os amigos, a família inteira apoiar essa população. Não vai ser minoria, vai ser uma maioria”.

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