‘Laerte-se’, o documentário

‘Laerte-se’, o documentário
Laerte durante as gravações do documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum (Foto: Adrian Teijido)

O documentário de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum sugere ligações riquíssimas, e nos dá dicas para pensar a analogia possível entre a obra desenhada de Laerte e sua vida

 

Ontem assisti ao documentário Laerte-se, de Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum. Fiquei feliz de saber que vai passar na Netflix em 190 países. Sorte do mundo!

O documentário é lindo e me deu um orgulho da Lygia, que eu nem conheço pessoalmente, e da Eliane, que eu adoro muito. No Brasil, e fora dele, tudo é sempre tão difícil para os brasileiros que já podemos comemorar o sucesso que há de vir. Mas podemos, sobretudo, agradecer por essa realização das diretoras (e de todo mundo que trabalhou em Laerte-se), pois elas foram poeticamente fundo em um documentário que, além de esteticamente valioso – até por sair do âmbito da estética conservadora dos falsos cenários arrumadinhos e dos corpos ideologizados pelo esteticamente correto -, é ética e politicamente essencial para nosso Brasil atual, e também para o mundo. Em tempos de tanta humilhação, de tanta cafonice e maldade, senti um orgulho poético incomum por essa realização brasileira. Nesse sentido, eu vou fazer um pequeno comentário sobre Laerte-se e sobre Laerte, mas não posso dizer mais anda sem antes dizer que eu sou fã de Laerte.

No meu compromisso em questionar o mundo, eu sempre questionei o que era ser fã e nunca achei que eu mesma fosse fã de ninguém. Hoje eu já estou mais relaxada com o termo e até uso sem muita preocupação. Ora, ser fã implica sempre identificação e há vários níveis de identificação e toda identificação tem parentesco com projeções. Quem se coloca no lugar de fã se sente convocado por algo de muito importante que ele vê no outro, mas que, de algum modo, já está nele, como um desejo. O ídolo para um fã é alguém que expressa algo que de algum modo o fã já conhece em si mesmo. Diz-me de quem és fã e te direi quem és, mais ou menos isso.

Laerte e as diretoras Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum durante as gravações do documentário 'Laerte-se' (Foto: Tru3Lab/Reprodução)
Laerte e as diretoras Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum durante as gravações do documentário ‘Laerte-se’ (Foto: Tru3Lab/Reprodução)

Mesmo no meu compromisso de questionar a posição do fã, eu já era fã de Laerte. Aquelas tiras em que o desenho e a reflexão – a imagem e a palavra – se casavam tão perfeitamente sempre me espantaram. Elas pareciam desenhadas contra o moralismo, contra toda forma de caretice.

No documentário, Laerte fala desse desejo de fazer tiras que não ditassem regras. Claro que não ditariam, pois suas tiras sempre foram filosóficas, no melhor sentido de serem aberturas para um olhar mais crítico. Filosofia com a melhor qualidade poética, aquela que ajuda a abrir os olhos. Quem ensina a olhar, ensina a pensar, a gente sabe.

Não sei o que Laerte diria dessa minha interpretação, talvez dissesse que eu exagero. Mas é um fato que sua obra tem um peso filosófico incrível. Quem não é conservador e gosta de filosofia (porque há um tanto de filosofia conservadora no mundo, é bom lembrar…) já deve ter se questionado sobre as formas da filosofia – do pensamento que pensa e autocrítica a si mesmo – e deve ter se dado conta de que, se a filosofia depende da linguagem com que se elabora e se expressa, ela pode se dar também como tiras. Nada demais, só temos que colocar em jogo que podemos chamar de filosofia a um bom encontro entre arte e reflexão crítica.

Mas o documentário nos dá dicas para pensar a analogia possível entre a obra desenhada de Laerte e sua vida. Sugere ligações riquíssimas. E, por isso, não é um exagero dizer que se a tira é uma forma filosófica em Laerte, sua atual performance de gênero, também.

Cena do making-of das gravações de 'Laerte-se' (Foto: Tru3Lab/Reprodução)
Cena do making-of das gravações de ‘Laerte-se’ (Foto: Tru3Lab/Reprodução)

Não vou entrar em um conversa teórica sobre gênero, porque não é o caso. Queria contar uma coisa mais simples. Na minha condição de fã, antigamente, quando eu via Laerte em algum lugar, pois morei em São Paulo por dez anos e o encontrei algumas vezes, eu nunca tive coragem de chegar perto dele (na época em que não havia dúvida, ou pelo menos havia consenso social sobre ser “ele”) e dizer como eu admirava seus desenhos. No entanto, quando ele passou a se vestir diferente do que estávamos acostumados, vestir-se com roupas habitualmente usadas por mulheres, isso mudou. Tornei-me fã em outra potência. A identificação tinha se transformado em uma intimidade.

Eu sou feminista e não gosto de usar a heterodenominação mulher senão numa contramarcação política. Já escrevi algumas vezes sobre isso e quem quiser pesquisar sobre vai achar textos nesse mesmo blog. Mas quando Laerte resolveu usar essa performance de mulher, algo em mim estabilizou, digamos assim. Sabemos que ser mulher é uma hetero-denominação, uma definição que foi colocada por práticas e discursos ao longo de muitos séculos sobre corpos de seres que necessariamente não decidiram sobre si mesmos. Assumir aquela linguagem, como Laerte fez, me pareceu revolucionário, mais do que apenas ousado. Era mais que isso. Já faz tempo que há uma discussão forte sobre a “naturalização” das coisas e a tendência é que, com o tempo (talvez muito tempo) se torne mais perceptível o caráter de invenção cultural de questões tais como ser homem ou mulher. Quando se fala em gênero é sobre isso que se está a falar. Pois bem, quando Laerte virou mulher, digamos assim, eu me senti menos pressionada por ter sido marcada como mulher. Todas as pessoas sofrem com marcações em graus e intensidades e contextos diferentes, Laerte, por ter feito tudo como fez, trouxe paz a muitas pessoas em uma sociedade conservadora como a nossa que mata travestis e pessoas transgêneras. Laerte liberta nosso olhar mais uma vez em seu gesto generoso de ser livre com o qual vai ser bonito se a gente conseguir se identificar.

Gênero é uma imposição cultural para tanta gente, um peso que se carrega, um fardo muitas vezes cruel e hediondo. Laerte tornou essa coisa leve. Mas tão leve. Um dia, ouvi uma pessoa perguntar se era para chamá-lo de “o Laerte” ou “a Laerte” e Laerte, essa expressão tão boa, tão bela, tão verdadeira (Laerte é todo um anti-sistema antimetafísico, sem culpa e sem ressentimento), leve como uma fada em um sonho de sociedade, disse:

“Tanto faz”.

Esse “tanto faz” é tão decisivamente aberto que o verbo que dá nome ao documentário torna-se um convite. O convite a ser quem se é. Entendi que a dica é para que cada um Laerte-se como puder e seja feliz.

(6) Comentários

  1. Muito, muito obrigada Marcia! Adorei! Palavras como as suas dão mais força pro filme ir pro mundo! Me encheu de felicidade!

  2. Está criado o verbo. Conjugado reflexivamente, como única opção, já que não se pode laertizar o outro. Só a si mesmo. Apoderar-se de si, quebrar os próprios paradigmas, buscar-se a si mesmo. Trabalho para uma vida inteira, para os fortes, para os corajosos. Laerte é um gênio, e já ninguém duvida disso há muito tempo. Do filme, fica a sensibilidade de um roteiro criativo e o convite que não vai calar-se. Sobretudo para os que são fãs de Laerte: – Laerte-se! Belo título.

  3. Também assisti o documentário e me sensibilizei com visão do que é ser mulher: trata-se de uma percepção pessoal ou a genitália. Isso ficou muito claro quando a última cena aparece. Obviamente, não tenho toda esta visão profunda da Márcia Tiburi, mas acho que está dentro da minha zona proximal (rs, como diria Vygotsky). Comentei também no meu blog: http://www.eurbanidade.blog.br/2017/06/laerte-se-netflix-documentario-sobre.html. Parabéns, Márcia pelo texto. Aliás, penso que o documentário tenha um link com seu livro Uma Fuga Perfeita é Sem Volta que li esses dias, não acha?

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