Karina Buhr: Enquanto houver Brasil, vai ter alegria e arte viva nessa terra

Karina Buhr: Enquanto houver Brasil, vai ter alegria e arte viva nessa terra
Karina Burh lança neste sábado (3), no Sesc Pinheiros, seu quarto disco de estúdio, 'Desmanche' (Foto: Helia Scheppa/Divulgação)

 

Cantora, compositora, poeta, ilustradora, atriz. Nascida baiana, crescida em Recife, radicada em São Paulo. Feminista e ativista, Karina Buhr lança, agora, seu quarto álbum de estúdio. “Desmanche é sobre o que está se desmanchando e também do verbo no imperativo, como uma ordem para desmanchar. Tem nele muita raiva, desejo de revoluções particulares e sociais”, explica à CULT.

Depois do manifesto feminista que foi Selvática, terceiro disco, Karina diz que nos últimos quatro anos “ficamos todos mais ansiosos e amargos”, e essa raiva dá um dos tons da próxima obra, que será apresentada pela primeira vez em um show no Sesc Pinheiros, neste sábado (3). Leia abaixo a entrevista completa.

Desmanche chega depois de quatro anos do lançamento de Selvática – que além de obra musical e poética é manifesto feminista. O que permeia o novo disco? Quais sensações, impressões? O que mudou, para você, nos últimos quatro anos?

Karina Buhr – Nos últimos quatro anos acho que ficamos todos mais ansiosos, mais amargos, e minha intenção na vida nesse momento é isso se transformar em força, não em estagnação. Desmanche é sobre o que está se desmanchando e também do verbo no imperativo, como uma ordem para desmanchar. Tem nele muita raiva, desejo de revoluções particulares e sociais; tem nele movimentos de ocupação, a lama de Brumadinho, a transposição de um coração para dentro de um rio e esse rio correndo no leito em que ele nasceu, vivo e com peixes vivos. Fala de guerra, esse tema é recorrente no que escrevo, seja poesia no papel ou para virar música. São muitas guerras diferentes, muitos motivos para guerrear e muita coisa para ressignificar. Tem leveza irresponsável também, como em “Vida boa é a do atrasado” e até romance também tem, mas devidamente irônicos, como acho que romances merecem ser.

A pauta feminista sempre foi uma causa sua. Nos seus textos, suas músicas, suas falas, seus desenhos. Quais são suas autoras preferidas? Quem te inspira?

São tantas que me inspiram… A primeiríssima, desde sempre, minha mãe, Ingrid Buhr. Por causa dela nasci feminista. Comprava briga com todo mundo. Me lembro de coisas de antes dos dez anos de idade, ficava puta com a vizinhança, com primos e primas, com os absurdos que ouvia em todos lugares e que nos enfiavam goela abaixo. A obrigação do rosa, da boneca, brincar de faxinar a casinha, a proibição do futebol, skate, sexo e gritava numa luta solitária, enchia o saco de colegas da escola, parentes, travava batalhas loucas com meu pai, era uma pirralha bomba.

E ao mesmo tempo muita coisa ficou entupida, muita, mas muita coisa deixei de fazer porque o esforço era tanto que chegava uma hora que não dava mais, tinha que só seguir. São muitas inspirações, sei nem por onde começar. Priscilla Buhr, minha irmã.

Luli e Lucina foram das primeiras que amei profundamente e que me dava uma força absurda pensar que aquelas músicas que saíam de Ney Matogrosso como um rio vinham de duas mulheres e um tambor. E Lia de Itamaracá, Rita Lee, Elba Ramalho, Amelinha, Selma do Côco, Aurinha do Côco, Nina Hagen, Tina Turner, Donna Summer, mestra Virgínia, Eliane Rainha do Forró, As Frenéticas, Patti Smith, MIA, PJ Harvey, Lauryn Hill, Beth Gibbons, Denise Assunção, Elke Maravilha, Grada Kilomba, Chimamanda Ngozi Adichie, Regina Navarro Lins, Noemi Jaffe , Gal, Bethânia, Grace Jones, Mocinha de Passira, Camila Mota, Sylvia Prado, Luiza Erundina.

As percussionistas Neide Alves, Cristina e Virgínia Barbosa, musas absolutas, elas faziam o que eu queria fazer (tocar tambor) e não encontrava mulheres que também estivessem nessa guerra de conseguir realizar isso, tudo em volta proibia e limitava. Tocávamos juntas no maracatu Estrela Brilhante, lá por 1994 e região, quando mulher não podia tocar em maracatu (Walter França, mestre do baque do Estrela possibilitou isso acontecer).

Você é ativista, participa de manifestações populares, imprime no seu trabalho seus desconfortos, indignações e questionamentos. Acredita que a arte pode salvar? Acredita que ainda é possível acreditar no poder transformador da cultura, no Brasil de hoje?

Enquanto houver Brasil, enquanto houver gente viva em cima dessa terra vai ter alegria e arte viva, de todos os tipos, vindas de todos os lados. E vai ter o martelo escravocrata e colonial para ser contrário a isso também, como vemos com a criminalização do funk, do maracatu de baque solto… Aquele filme que já vimos e que teima em reprisar. E aí mistura tudo com política de novo e acabo não conseguindo separar essas coisas.

Na poesia isso pode aparecer claramente, como um grito de protesto (como em “Sangue frio”, “A casa caiu” e “Temperos destruidores”), e também simplesmente podemos ser fortes politicamente e fazer poesia sobre um bichinho tomando sol sem que isso anule nossa força, pelo contrário, mas porque precisamos também de calma e algum grau de irresponsabilidade com nós mesmo para sobreviver em qualquer tempo.

Estou viva, com 45 anos, no Brasil de 2019 e acho que estamos todos intimamente ligados por essa tragédia política que vivemos ao mesmo tempo que pulsamos através das artes todas, de tantas formas, feitas por tanta gente tão diferentes umas das outras. Através da música, da poesia, das artes visuais, do teatro, do cinema, da dança… a gente se descobre, descobre os outros e nossas identidades particulares e coletivas. Falei demais para falar que sim, acredito nesse poder transformador.

Show de lançamento do disco Desmanche, no Sesc Pinheiros, rua Paes Leme, 195, das 21h às 23h. R$ 12 a R$ 40.

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