“A invenção nunca é pura”

“A invenção nunca é pura”

O livro de poemas Boris e Marina, de Alberto Martins, publicado pela editora Companhia das Letras, foi um dos livros resenhados na Cult de fevereiro. A equipe da Cult conversou com o autor sobre o livro.

Como surgiu a ideia para escrever Boris e Marina (que tem, como pano de fundo, um triângulo amoroso epistolar entre Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke)?

A primeira vez que ouvi falar da “correspondência amorosa” entre Marina Tsvetáieva, Boris Pasternak e Rainer Maria Rilke foi através de Boris Schnaiderman. Ele mencionou o livro quando já estava de saída, na porta da editora onde trabalho em São Paulo. Mais tarde, quando uma edição em espanhol me caiu nas mãos, fiquei assombrado. As cartas, que atingem o ápice no verão de 1926, passam rapidamente de conversas em torno da poesia para as declarações de amor mais exaltadas. Boris está em Moscou, Rilke na Suíça e Marina no exílio, numa cidadezinha na costa da França. Penso que, além da poesia, a impossibilidade de se encontrarem também turbinou a intensidade das paixões. O fato é que foi uma leitura inesperada para mim. Foi como entrar num rio de altíssima voltagem e logo me vi escrevendo através dessas vozes. Quero dizer: não tenho nenhuma pretensão de reproduzir as vozes verdadeiras (ou o que seja isso) de Tsvetáieva, Rilke ou Pasternak. São todos figuras inventadas – e uma nota de abertura deixa isso bem claro –, mas a intensidade do que eles dizem e vivem na sua correspondência abriu uma porta, um canal, para mim. Boris e Marina partiu daí.

Durante o processo de escrita, consolidando a proposta bastante ousada (ainda que sem a pretensão de reproduzir as vozes verdadeiras) de reimaginar e reelaborar as correspondências, como foi dar vozes novas – em língua portuguesa – e versos novos a esses poetas?

Na realidade, eu não me coloquei esse problema. Nunca tive a pretensão de reelaborar a obra ou a correspondência desses poetas. Quando dei por mim, sob o impacto da leitura das cartas, eu já estava escrevendo, ora na voz inventada de Boris, ora na de Marina – e assim por diante. Mas sempre tive claro que o que eu estava fazendo eram poemas de um autor brasileiro, escrevendo no século XXI. A vida e a correspondência desses três poetas agiram como uma faísca, um disparador de processos. O que tive foi a vontade de me colocar um desafio e experimentar: como seria escrever a partir desse rio de alta voltagem?

Nesse percurso, houve uma somatória de vozes. Muitas que eu não conhecia ou nunca tinha sido capaz de formular, e outras que fui pescando aqui e ali. Em dois ou três poemas há frases extraídas de cartas de Marina T. para Boris P., mas também há dois versos do poeta Guenadi Aigui (traduzidos por Boris Schnaiderman e Jerusa Pires Ferreira, uma discreta forma de homenagem), uma estrofe que é uma piscadela de olhos para o humor da Tatiana Belinky e, claro, há explicitamente versos do Chico Alvim, como a dizer, “olha, é a partir daqui que falamos”.

Em alguma medida, dentro dos eu-líricos apresentados no livro, mesclam-se experiências pessoais de Alberto Martins?

Sem dúvida, há muita coisa consciente e inconsciente filtrada nos poemas do livro. Mas o mais interessante para mim é pensar o contrário: ao me colocar em diálogo com esses eus-líricos inventados, quanta coisa que eu não esperava tomou forma e se apresentou. A dicção de Tomek, por exemplo, essa figura de um exilado humanista polonês (que é a quarta personagem imaginária do livro), e cujos poemas ocupam a Parte VIII do livro, essa dicção se afirmou de forma surpreendentemente fácil, quase “natural”. No fim das contas, o que sinto é que Boris e Marina abriu para mim a possibilidade de experimentar com – e agora vou citar o título de um livro de poemas de que gosto muito – Muitas vozes.

Até que ponto o conteúdo de Boris e Marina é extraído ou adaptado das cartas originais? Até que ponto é pura invenção?

Acho que ele é muito embebido da atmosfera das cartas, e há mesmo uma frase ou outra que aparece em poemas da Marina – coisas que ela realmente escreveu nas cartas –, mas o tutano da coisa, o grosso da coisa é invenção. Pura, eu não diria, porque a invenção nunca é pura; mas no sentido corrente do termo é, sim, invenção.

Confira a resenha de Boris e Marina, escrita por Aurora Fornoni Bernardini, na Cult de fevereiro.

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