L. K. Nogueira: “Obras distópicas, ao falarem do futuro, querem muitas vezes falar mesmo é do presente.”

L. K. Nogueira: “Obras distópicas, ao falarem do futuro, querem muitas vezes falar mesmo é do presente.”

O romance Relatório máquina-máquina, do escritor e diplomata L. K. Nogueira, publicado pela editora Cachalote – foi um dos livros resenhados na Cult de fevereiro. A equipe da Cult conversou com o autor sobre o livro.

 

No romance distópico Relatório máquina-máquina, a única cidade que sobrevive a um apocalipse global é Brasília. Como foi o processo de reconstruir a cidade – no imaginário futuro destruído? Quem são os personagens que habitam esse território?

Obras distópicas, ao falarem do futuro, querem muitas vezes falar mesmo é do presente. Em Relatório máquina-máquina, uma catástrofe reforça uma tendência já presente no urbanismo de Brasília: a segregação espacial com base principalmente na classe e na renda, mas também em posições políticas, religião, raça, sexualidade. A obra radicaliza ideias que formam meu imaginário da cidade, falho e enviesado como o de qualquer outra pessoa. A Asa Norte, que hoje já me parece um pouco o território dos estudantes, profissionais liberais e servidores públicos progressistas, torna-se um Estado utópico de esquerda, por exemplo. É ali que vive Jafé, o protagonista do livro. Ele é um jovem funcionário público nascido no interior de Minas Gerais, que passou por coisas difíceis na vida e se tornou cínico e fechado. A relação do Jafé com o/a estudante de história Nil, que muda para o prédio dele, leva-o a refletir sobre seu passado e retomar uma busca por amor e significado que tinha sido interrompida. A terceira das personagens com mais destaque é Mônica, mulher em situação de vulnerabilidade que pede ajuda de Jafé e Nil para enfrentar uma situação envolvendo possíveis crimes graves.

Qual é a proposta das intervenções tipográficas no livro, representando paisagens de Brasília?

O livro é escrito no formato de um relatório feito por uma inteligência artificial, que reconstrói a história de pessoas que já morreram por meio de uma arqueologia das mídias deixadas por elas (diários, mensagens de texto, transcrição de vídeos etc.). O relatório inclui desenhos feitos com caracteres (“arte ASCII”) de lugares de Brasília, como o Palácio Itamaraty e o Museu Nacional. Essas figuras de certa forma humanizam a máquina e quebram o realismo do relatório. Elas também integram uma característica mais ampla do livro, que é a mistura de estilos e formas. Admiro obras de autores como James Joyce e Roberto Bolaño, que mesclam a linguagem da prosa, da poesia, do teatro, do jornalismo e de documentos burocráticos, e procurei aprender com suas experiências e levá-las para outros campos, como o das mensagens de texto que trocamos pelos celulares, tão presentes no nosso cotidiano.

Há alguns anos, durante uma live no Cultura Inglesa Festival, Caetano Veloso afirmou: “O Brasil deve salvar o mundo.” Fora da distopia, no mundo de hoje (que sofre, por exemplo, com a crise climática e com diversos conflitos simultâneos), você enxerga em Brasília alguma potência para que um eventual apocalipse seja evitado? O Brasil tem essa missão de salvar o mundo, como defendeu Caetano?

Admito que minha paixão pela cultura brasileira torna parcial minha opinião sobre esse tema. Para reduzir ao máximo a chance de uma catástrofe – como a do livro – e “salvar o mundo” nas próximas décadas, precisamos lidar melhor com a alteridade, isso é, com pessoas diferentes de nós, outros povos, a fauna e a flora. Precisamos conhecer mais sobre as muitas formas de existência possíveis, suas perspectivas sobre a vida e seus desafios e aprender a nos relacionar com elas de forma mais empática e ética. Nesse sentido, a arte brasileira, que reflexe nossa sociedade multiétnica e multicultural, já faz muito bem para o mundo. O disco “Transa”, do Caetano, por exemplo (e as produções de tantos outros artistas, como Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Bispo do Rosário, Nelson Cavaquinho, companhia de dança Cena 11, Adriana Varejão, Nuno Ramos, Leonilson, entre os que me vêm a cabeça) mostra que do diálogo entre culturas podem surgir obras das mais bonitas e significativas. Talvez, mais do que salvar o mundo atual, precisemos pensar em construir um mundo melhor. Discordo de leituras que consideram a violência e a disputa por poder como realidade dada, imutável, das relações entre os povos, e naturalizam certos fatos internacionais recentes. São muito diversas as formas possíveis de relações sociais e familiares, de cultura, de arte, de religião, de gênero e sexualidade. A vida sob a ameaça de guerras, de catástrofes ambientais e nucleares e de medidas autoritárias de todo tipo não é a única possível, e nos convencer do contrário só interessa àqueles que se impõem pela força. Nesse sentido, o Brasil tem, sim, muito a contribuir. Além do poder da nossa arte, temos uma tradição diplomática de atuação em favor da paz, do desarmamento, dos direitos humanos e do meio ambiente. Na COP30, por exemplo, fizemos o que estava a nosso alcance para reforçar o multilateralismo. Não é ufanista dizer que o mundo estaria muito mais seguro contra catástrofes e violências se outros dos maiores países do mundo tivessem o apreço e o respeito pelo direito internacional que o Brasil tem.

* As opiniões expressas na entrevista são de inteira responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a posição oficial do governo brasileiro.

Confira a resenha de Relatório máquina-máquina, escrita por Cristhiano Aguiar, na Cult de fevereiro.

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