O monstro da inveja segundo a literatura

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O monstro da inveja segundo a literatura
O escritor estadunidense Herman Melville (Foto: Library of Congress)
. O verbo grego phthoneein (“invejar”) tem muitas ocorrências nos poemas homéricos – o que nos leva a constatar a longa tradição, na literatura do Ocidente, do sentimento de desgosto provocado pela felicidade ou pela prosperidade alheias. Na Odisseia, ao ser instada por Hermes a deixar Ulisses partir, a ninfa Calipso, perdida de amor pelo herói, reage: “Duros sois todos os deuses e mais invejosos que os homens, que vos zangais, quando, acaso, uma deusa se acolhe no leito de homem mortal e resolve esposar quem na terra lhe agrade” (trad. de Carlos Alberto Nunes para a edição da Nova Fronteira). Em outro episódio, o mortal Menelau é quem exprime a mesma noção de inveja divina, quando explica a Telêmaco o motivo pelo qual o “herói de mil ardis” não retornou à terra natal: “Isso, talvez fosse causa da inveja da mesma deidade que a ele somente, o infeliz, do regresso privou à sua pátria” (idem). Um pouco mais tarde, Ovídio irá fornecer, nas Metamorfoses (trad. de Domingos Lucas Dias para a edição da Editora 34), uma descrição tão detalhada quanto soturna do sentimento que, segundo o poeta latino, se alimenta da carne das víboras: “Assenta-lhe a lividez na face, a magreza em todo o corpo. Para nada olha a direito. Os dentes têm a cor da ferrugem. O seu íntimo destila fel verde. Tem a língua empapada em veneno. Não ri senão quando vê a dor afetar alguém. Não saboreia o sono, agitada por vigilantes preocupações; e vê com despeito os triunfos do homem e, ao vê-los, definha. Atormenta e atormenta-se. É o suplício de si

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