Graphic novel ‘Angola Janga’ é retrato de Palmares sem idealização

Graphic novel ‘Angola Janga’ é retrato de Palmares sem idealização
Cena do quadrinho 'Angola Janga', de Marcelo D'Salete (Reprodução)

Fumaça, pedaços de cercas, corpos. Após a derrubada do mocambo de Macaco, um dos principais núcleos do quilombo dos Palmares, os bandeirantes preparavam-se para ir embora e comemorar a vitória – todos menos Domingos Jorge Velho, conhecido por sua crueldade. A um padre que acompanhava a expedição, ele afirmou que os quilombolas fugidos tinham de ser capturados, sem exceção. “Você ainda não entendeu, padre. Cada um deles é muito mais que apenas um”, rosna o bandeirante.

A cena, que teria acontecido no Brasil colonial do século 17, pode não ter se dado exatamente assim, mas a sua essência é verdadeira: são historicamente verificáveis não só a frieza dos bandeirantes e sua violência na tomada dos Palmares como também sua percepção de que os mocambos eram mais do que simples esconderijos – eram espaços de resistência.

É o que mostra a graphic novel Angola Janga (Veneta), do quadrinista e professor Marcelo D’Salete, de onde a cena foi retirada. Recém-publicada, a história em quadrinhos retrata de forma épica a resistência dos homens e mulheres fugidos da escravidão e narra os eventos que levaram à invasão do mocambo de Macaco, em 1694, um ataque que destruiria o assentamento, mas não os quilombolas.

Mais do que uma simples narrativa, Angola Janga é uma forma de subverter a história embranquecida e suavizada da escravidão no Brasil. Isso porque D’Salete partiu de uma longa pesquisa em documentos de época e obras historiográficas para compreender o período – e utilizou todo o material encontrado de forma crítica na reconstrução da história de Palmares.

“Grande parte dos registros sobre Palmares são de pessoas que queriam destruí-lo. Não há documentos do ponto de vista dos palmaristas. Por isso, é preciso ter cuidado: a gente precisa rever estes documentos, colocá-los em dúvida e tentar ir além do que tem ali”, diz o autor.

Com essa estratégia, D’Salete passa longe de idealizar a história que narra. Além de desconstruir a imagem do “bandeirante herói” (que até hoje circula na historiografia nacional), ele usa como motor da narrativa as dissidências entre as lideranças do próprio quilombo. A principal delas é a causada pelo Acordo de Cucaú (1678), que prometia um pedaço de terra aos quilombolas que se rendessem à Coroa – mas, como só os nascidos em Palmares teriam sua liberdade garantida pelo acordo, o resultado foi um rompimento dentro dos mocambos.

“Depois da ditadura militar no Brasil, Palmares se tornou uma imagem de resistência, de autonomia e liberdade onde tudo é possível. É uma interpretação interessante até para a construção da identidade dos movimentos negros, mas hoje temos que procurar ver Palmares de outros modos. Só assim entenderemos a complexidade da nossa história”, afirma o quadrinista.

Por isso, além das dissidências políticas, D’Salete apresenta outras contradições: personagens negros e indígenas que trabalham para a Coroa Portuguesa no encalço dos palmaristas; negros de pele clara que viviam como feitores e capitães do mato; homens brancos e pobres que viviam nos Palmares; colonos que ajudavam a defender os mocambos, com os quais travavam comércio. “São coisas que a gente desconhece porque não há interesse em perpetuar essa história”, diz.

Por outro lado, os costumes, os dialetos e toda a cultura ancestral que eram a base de Palmares – e que, por vezes, também são temas ignorados pela historiografia – são bem representados pelos traços de D’Salete: Angola Janga retrata vestimentas, comidas, rituais, formas de organização militar e até crenças afro-indígenas. “Os palmaristas eram pessoas que buscavam por autonomia na forma de organizar-se politicamente, de dividir os frutos do trabalho, de se relacionar com a terra e até mesmo com o tempo”, completa o autor.

No final do livro, há um anexo com um material precioso sobre a história dos Palmares e da cultura afro-brasileira criada nos mocambos: mapas mostrando a extensão do quilombo, uma linha do tempo com os principais acontecimentos da guerra contra os palmaristas, estimativas do número de pessoas sequestradas da África durante a escravidão e, por fim, um glossário com alguns termos apresentados por D’Salete ao longo da obra.

Mestre em História da Arte pela USP e autor de outras HQs com temas semelhantes, como Cumbe (2014), D’Salete acredita que recuperar a história renegada de Palmares em um formato como os quadrinhos pode ser uma boa arma contra o racismo e a desigualdade social que deriva em grande parte da escravidão.

“Desde aquela época, não superamos muitos dos problemas que acometem as populações negras, indígenas e pobres, grupos que são historicamente marginalizados. Hoje, com mais informação circulando, essas pessoas podem conhecer a própria história e levantar-se como sujeitos. É o que gostaria de passar com Angola Janga”, conclui.

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