Bataille, o pensador do corpo

Bataille, o pensador do corpo O pensador Georges Bataille (Reprodução)

 

Em seu seminário Mais, ainda, Lacan faz a seguinte advertência: “o corpo, ele devia deslumbrá-los mais”. A princípio endereçada aos frequentadores do seu seminário, tal censura é também endereçada a cada um de nós e, de certo modo, à civilização. Há uma exceção, porém: não estava endereçada a Georges Bataille, pois este, mais do que ninguém, poderia ser nomeado como o pensador do corpo. É provável que ninguém tenha levado a tal radicalidade a pergunta que coloca em questão tanto o homem como singularidade quanto o homem como categoria universal: o que fazer com este corpo que somos?

A parte maldita – precedido de “A noção de dispêndio” e O erotismo, relançados no Brasil pela Autêntica Editora, constituem provas irrefutáveis do deslumbramento da palavra batailliana com o corpo. Cada um a seu modo: o primeiro, de uma maneira mais tergiversada que o último, circulando em torno de reflexões acerca dos modos de organização político-econômica da sociedade, oferece recursos para pensar o corpo como algo sempre excessivo; o segundo indaga o corpo de uma maneira mais direta e, de tal interrogação, propõe um modo de pensar a totalidade (paradoxalmente, afirmada como incompleta) da experiência e do espírito humanos.

Se Lacan faz a sua advertência, Bataille também faz a sua, ressaltando que o movimento de sua obra não incorre no furor especialista da ciência. Ao contrário, adota perspectivas cambiantes, não se negando, inclusive, a abordar seus temas pelo lado de dentro: “Se meus leitores se interessavam pelo erotismo […] de um ponto de vista especializado, não tinham o que fazer com este livro”. Num aparente paradoxo, justo por recusar o ponto de vista do especialista, ele sabe que a parte não tem menos importância do que o todo, uma vez que “só o que há é universo inacabado”. Assim, interrogando o corpo erótico como excesso, como dispêndio improdutivo, pretende colocar em perspectiva a “unidade do espírito humano”.

Fusão mortal

Em O erotismo, o pensamento inclui as paixões e outras potências incendiárias da carne. Logo no princípio, o leitor compreenderá que o erotismo em questão engloba numa só bocada a dualidade pulsional freudiana: pulsão de vida (eros) e pulsão de morte (tânatos): “Do erotismo, é possível dizer que ele é a aprovação da vida até na morte”. Porém, o que Bataille quer dizer com isso?

Nos alinhaves de sua argumentação sobre o erotismo, o ser é convocado a deixar as puras esferas do conceito e pousar nas tramas do corpo. Assim como para os anjos de Wim Wenders, em Asas do desejo, do ser não se pode excluir a possibilidade de, numa manhã gelada, sentir-se no calor irradiado da boca sobre as mãos, ou no corpo de uma bela acrobata.

Do ser em queda, somos levados àquilo que, ao mesmo tempo que é ultrapassado pelo erotismo, é também a sua chave: a reprodução. A aposta na imanência é radical, o ser começa quando começa o corpo, entendido como instaurador do abismo que separa um homem de outro homem, o que nos condena a uma solidão absoluta cujo império cessa apenas com princípio de outro, o império da morte: “Cada ser é distinto de todos os outros. Seu nascimento, sua morte e os acontecimentos de sua vida podem ter para os outros algum interesse, mas ele é o único interessado diretamente. Ele só nasce. Ele só morre. Entre um ser e outro, há um abismo”. Esse abismo receberá o nome de descontinuidade – os termos descontinuidade e continuidade são as chaves para compreensão daquilo que o erotismo põe em jogo.

A fim de apresentar a oposição fundamental entre continuidade e descontinuidade do ser, Bataille incursiona àquilo que, na história da vida, precedeu a reprodução sexuada. Obviamente, trata-se da reprodução assexuada, na qual o ser simples, unicelular, divide-se formando dois núcleos: “de um só ser, resultam dois”. Esses dois seres são descontínuos com relação ao ser único que os originou (existem como causa da morte do ser originário), e são também descontínuos um com relação ao outro. Ao contrário dos seres sexuados, nos seres assexuados unicelulares, a morte do indivíduo coincide com a reprodução. Logo, o ser unicelular não se decompõe, mas se dissolve no nascimento de dois novos seres.

No caso dos humanos (um dentre outros seres sexuados), apenas no nível das células reprodutivas, a morte coincide com o nascimento de um novo ser. O embrião é o resultado da fusão mortal (oposta à divisão mortal dos seres unicelulares) entre o óvulo e o espermatozóide, esses “dois pequenos seres descontínuos”. Desse modo, na origem da vida está a origem do abismo, a origem da solidão do ser descontínuo que somos: o embrião surge a partir dos cadáveres de dois outros seres descontínuos, o óvulo e o espermatozóide.

É preciso, no entanto, passarmos do espermatozóide ao homem, do óvulo à mulher, para entender que a radicalidade de nossa solidão coloca e é colocada em jogo pelo que Bataille chama de erotismo. Fazendo isso, entenderemos porque o homem é um animal-paradoxo, antônimo de si mesmo “e livre para se assemelhar a tudo que não é ele no universo”.

Encontro no abismo

Brinquemos de ficção. Há dois corpos. Um homem e uma mulher. Eles se encontram em um bar, eles se fotografam com os olhos, eles ainda estão vestidos. O homem é um corpo. A mulher é outro corpo. Eles se apaixonaram, eles viverão juntos até que a morte os separe. Corta.

Não, não é assim. A morte não irá separá-los. A morte irá colocar fim à descontinuidade entre esses dois seres que se sorriram no bar, sem instaurar qualquer tipo de continuidade ou de suspensão do abismo que os separa. Então…

Então que há o erotismo dos corpos, que é quando os humanos se “cansam de ser a cabeça e a razão do universo” e, transgredindo o interdito, o impossível, fazem do abismo uma possibilidade precária de encontro dos seres, precária porque tal encontro não destruirá a descontinuidade, seus corpos não serão dissolvidos um no outro. Do que Bataille está falando?

Esse homem e essa mulher são, cada um, estruturas fechadas, corpos fechados. Eles se apaixonam e, então, querem violar o corpo um do outro, abri-lo. Tiram a roupa, eis a primeira violação, a violência erótica se põe em jogo com a liberação das aberturas e aperturas dos corpos. O ato decisivo é o de tirar a roupa, ele promove o obsceno, a transgressão do impossível que promoverá o encontro – ainda que precário.

Neste ponto, pedimos licença para um pequeno desvio. Ana Vicentini, em seu livro A metáfora paterna na psicanálise e na literatura, nos ensina que no teatro grego antigo havia uma divisão espacial entre a skené, lugar onde os atores trocavam de roupa para representar outro personagem, e o proskénion (o proscênio), onde ocorria a encenação visível à plateia no theatron (lugar de onde se vê). Entretanto, há um terceiro lugar, ou um não-lugar, que Vicentini propõe chamar de opíso skénion, o atrás da cena, ou o ob-sceno: espaço das coisas impossíveis ou proibidas de serem encenadas (assassinatos, sacrifícios, suicídios, adultérios, incesto – aquilo que poderia ser de mau gosto, ou mesmo traumático), em oposição ao proskénion, lugar das ações não só possíveis mas que, necessariamente deveriam ser encenadas.

Retornando de nosso desvio, digamos que a roupa é o biombo móvel que se porta a fim de interditar a encenação visível das regiões secretas do corpo, seus buracos e aclives obscenos, impossíveis ou inaceitáveis no proskénion “das formas de vida social regulares, que fundam a ordem descontínua das individualidades definidas que somos”, isoladas umas das outras por um abismo. Suspenso o biombo das roupas, dois corpos se invadem, primeiro por intermédio dos olhos, depois utilizando o resto do corpo, ou melhor, o corpo inteiro: “A nudez se opõe ao estado fechado, ou seja, ao estado da existência descontínua”. A nudez é, portanto, a realização relativa da destruição dos contornos do ser, ou, dizendo de outro modo, a realização parcial da impossível continuidade entre um ser e outro, pois a total continuidade equivaleria à destruição dos seres envolvidos na cena erótica.

Assim, a nudez faz com que os corpos se abram “à continuidade através dos canais secretos que nos dão o sentimento de obscenidade”. A obscenidade equivale ao erotismo que perturba e desordena a “posse da individualidade duradoura e afirmada”. O império da descontinuidade, da solidão abismal que separa um indivíduo do outro, é abalado pelo movimento erótico. Chegamos, então, ao grande paradoxo do espírito humano.

Tal paradoxo consiste no seguinte: sofremos a solidão abismal da descontinuidade implicada no fato de sermos vivos, no entanto, ansiamos a imortalidade, equivalente da prorrogação infinita dessa mesma descontinuidade que nos angustia e nos abisma.

Neste ponto, somos obrigados a retroceder até A parte maldita – precedida de “A noção de dispêndio”, textos que, conforme Fernando Sheibe, tradutor e apresentador da nova edição de O erotismo, podem ser considerados como gêneses deste. E se estes textos são, de certo modo, a gênese de O erotismo, é porque consolidam o conceito de dispêndio improdutivo como caixa de força que move o Universo, o universo social e, claro, o corpo — que, afinal, é aquilo que deve nos deslumbrar mais.

Economia ao avesso

A parte maldita, escrito em 1949, é uma espécie não de continuação, mas de desdobramento e desenvolvimento do breve ensaio de 1933, “A noção de dispêndio”. Ou, inversamente, podemos dizer que o último é uma versão prévia e condensada do primeiro. Ambos conformam um conjunto que, à primeira vista, pode ser tomado como um livro de economia política. Mas não é. Expliquemos. Assim como Freud, pretendendo com Totem e tabu escrever uma obra relevante à antropologia, realizou um fato uma obra fundamental para a compreensão da função paterna na constituição do psiquismo, George Bataille, ao pretender escrever um livro de economia política, estabeleceu bases sólidas para pensar, em 1957, o conceito de erotismo (conforme vimos anteriormente) como chave compreensiva da totalidade (inacabada) do espírito humano.

Portanto, o leitor terá em mãos não um novo livro de economia política, mas um consistente e provocador volume em que Bataille instaura a noção de “dispêndio improdutivo” como fundamento do campo do humano. Tal noção de inutilidade, engendrada pelo gasto, pela perda (de energia, de dinheiro etc.), efetuada de modo ativo, e não por acidente, se confunde com a própria noção de erotismo desenvolvida oito anos depois em O erotismo.

Bataille divide a atividade humana em dois campos; o gasto improdutivo, mais tarde um equivalente do erotismo, localiza-se no segundo campo.

O primeiro, o do “uso do mínimo necessário”, destinado à “conservação da vida e ao prosseguimento da atividade produtiva”, é o campo que se confunde com a noção de utilidade clássica, segundo a qual a vida tem por finalidade o prazer, mas um prazer moderado: o prazer excessivo seria patológico, devendo se submeter, por um lado, à aquisição, produção e conservação dos bens e, por outro, à reprodução e conservação das vidas humanas – o que para Bataille seria a redução da vida humana à condição mais lamentável.

O segundo campo da atividade humana, oposto ao primeiro, é o dos gastos inúteis, das finalidades sem fins, ou daquilo que encontra um fim em si. O autor francês oferece uma lista de exemplos: “o luxo, os enterros, as guerras, os cultos, as construções de monumentos suntuários, os jogos, os espetáculos, as artes, a atividade sexual perversa (isto é, desviada da finalidade genital)”.

Por fim, ressaltamos que a parte maldita é constituída de uma parte teórica (que ocupa quase metade do livro) e de quatro partes constituídas da articulação entre teoria e “dados históricos”. Como esclarece o autor, o livro pretende abordar questões gerais de economia de modo sumário, pois haveria um segundo volume, que desenvolveria as questões sumariadas neste. Todavia, no lugar deste segundo volume, Bataille escreveu, justamente, O erotismo, confirmando a impressão de sua incursão por uma economia ao avesso, uma que aponta a produção e a acumulação como secundárias com relação ao desperdício. Retroagindo a partir da leitura de O erotismo, podemos afirmar que, mais do que qualquer outra coisa, Bataille visava encontrar um campo de articulação de todas as questões fundamentais da experiência e do espírito humanos. Esse campo é o do erotismo, o do corpo como dispêndio improdutivo, exuberância, soberania dos excessos sobre toda forma social de constituição de uma vida moderada, isto é, lamentável.

Definitivamente, a advertência de Lacan de que deveríamos nos deslumbrar mais com o corpo seria descabida se endereçada a Bataille, pois o nervo de sua obra não faz outra coisa se não nos advertir, ou melhor, senão nos deslumbrar com o corpo.

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