Freud entre duas mulheres: implosão do Édipo e conflito de classes

Freud entre duas mulheres: implosão do Édipo e conflito de classes
Freud e sua mãe Amália em 1926 (Foto: Reprodução)

 

Em maio comemora-se mais um aniversário de Freud, o de 165 anos. É imensurável o que pode ser celebrado com seu nascimento. Perto da extensão de seus feitos, parece vã a tentativa de expressar a importância de sua passagem pelo planeta. De todo modo, se o legado de Freud se mantém vivo hoje é porque suas reflexões ainda nos colocam a pensar com ele e contra ele. Do lado da antítese, talvez seja a noção de complexo de Édipo, um dos mais inegociáveis xiboletes da psicanálise freudiana, o que menos tenha se mantido intacto nas últimas décadas. Couro imperial: raça, gênero e sexualidade no embate colonial, de Anne McClintock, estremece esse clássico conceito psicanalítico de maneira extremamente perturbadora.

Nessa obra original e de fôlego, a autora mira a vida íntima da família burguesa em sua estreita vinculação com o projeto europeu imperialista colonial, iniciado no século XV da era moderna. O núcleo de sua análise gira em torno da figura da babá e de outras trabalhadoras do lar. É preciso admitir que dificilmente a família-nuclear burguesa existiria sem a babá ou uma trabalhadora responsável pelo zelo da vida privada. Essa quarta ponta repuxa o triângulo edípico estrutural e o desconfigura por completo. O quarto vértice desaba a reiterada forma geométrica ao indicar que a constituição da subjetividade moderna não se reduz aos três ângulos mãe, pai e filho. Como exibe João Moreira Salles (2017), num dos quadros sobrepostos em No intenso agora, embora imprescindível, a babá assume um lugar fantasmagórico, torna-se coadjuvante nas composições das cenas familiares privadas. Ela seria, em determinada narrativa, uma simples substituta dos pais. Freud não deixou de reiterar essa perspectiva. Pelo contrário, não só a repetiu como reforçou-a de diferentes modos, sobretudo pelo viés edípico de suas elaborações.

A leitura da obra de McClintock expõe, porém, a insuficiência tanto do modelo triangular quanto do apelo ao velho clichê de funções maternas ou paternas para a compreensão da dinâmica conflitiva amorosa imanente à sexualidade infantil. A babá não é um corpo intercambiável ao da mãe, tampouco mera extensão dela.

Em sua troca epistolar com Fliess, Freud oscila entre reconhecer a importância do lugar estrutural da babá e o de escondê-lo, estabelecendo uma diferença entre sua “experiência pessoal” e a conformação de sua teoria do complexo de Édipo. Ao colocar o Édipo no campo filogenético hereditário automaticamente converte a babá em uma figura mecânica operacional que faz as vezes da mãe:  a “babá passa a desempenhar o papel da mãe ou […] as duas se fundem”, diz nas suas infindáveis explanações psicanalíticas dirigidas a Fliess.

Todavia, aquilo que se supõe necessário à função materna, tal como descrita na literatura psicanalítica, exige tanto o trabalho desempenhado por outra mulher como a experiência da ambivalência amor-ódio em relação a ela. O lugar ocupado pela personagem da babá inscreve uma dimensão simbólica paradoxal na subjetividade: seus cuidados são profundamente engastados como marcas psíquicas e, por outro lado, tal amor carrega junto de si uma interdição de seu reconhecimento explícito. O sujeito arma defesas para que a elisão de tal espaço cavado amorosamente não venha à lume.

Talvez essa quarta ponta se esconda por trás do alarde que se faz sobre a mãe e o pai na estrutura burguesa familial e na constituição subjetiva da criança. Nos lares burgueses, os rebentos têm as inscrições psíquicas e sociais dos afetos, dos cuidados e da linguagem de suas babás. Muitos filhos e filhas de babás, por sua vez, carregam impressões da ausência. Foram deixados pelas suas mães que precisavam ganhar a vida economicamente, cuidando dos filhos de suas patroas.

É possível que, à época de Freud, caso não houvesse uma babá no âmbito doméstico, os conflitos de muitas mulheres burguesas não tivessem tido uma saída histérica. E, se assim fosse, não haveria a própria psicanálise. As babás eram consolo compensatório que faziam essas donas de casa aceitarem a distância de seus maridos e o acúmulo de responsabilidade relacionada às crianças e à vida doméstica. Ao invés da culpa pela insatisfação e do consequente gozo convertido em algum membro do corpo, algumas mulheres talvez tivessem reivindicado uma divisão mais justa e igualitária das funções relativas ao espaço privado. Como provedores e representantes simbólicos de poder em espaços públicos, os homens saíam rumo a suas incumbências e ganhavam o sustento econômico de um lar burguês. Isso lhes conferia o lugar da Lei até mesmo no âmbito doméstico, já que mantinham na microestrutura familial as condições de possibilidade da superestrutura patriarcal do Estado. A Lei, porém, é o retrato da ausência. Trata-se de uma abstração que prescinde do corpo efetivo. Lei simbólica significa, assim, o privilégio da transmissão de certas heranças da linguagem e de um nome próprio, sem que isso implique o ônus da responsabilidade nos cuidados concretos para a sobrevivência física e psíquica de uma criança. De uma perspectiva econômica e política, porém, tudo poderia parecer bastante justificável.

Como mostra McClintock, elidir a babá é uma estratégia psíquica que visa à manutenção de um modelo burguês de sociedade. Desse ponto de vista, não se pode negar que a psicanálise preserve um ranço conservador. Mergulhado em sua autoanálise, Freud escreve a Wilhelm Fliess, no dia 3 de outubro de 1897, que sua própria experiência não confirmava suas teorias. Vislumbra que os pais não pareciam ser os verdadeiros causadores de sua neurose, tal como ele formulara em suas especulações metapsicológicas. Seu próprio pai não parecia ativamente em seu caso. Aliás, seu “primeiro originador” não havia sido nem pai e nem mãe, mas sua babá tcheco-eslovaca e católica, Monika Zajic.

“Minha primeira originadora”, escreve Freud, “era uma mulher feia, idosa, mas esperta, que me contou bastante sobre Deus todo-poderoso e o inferno e que instilou em mim uma alta opinião sobre minha própria capacidade”. Jones Swann (apud McClintock) acentua a conotação sexual do termo “originadora (Urbeberin)”: a babá de Freud foi “a primeira a levantá-lo”, isto é, a excitá-lo até uma ereção. Além da limpeza diária de seus órgãos genitais feita pela babá, Freud revela ao amigo que havia um apelo explícito da parte dela às zonas sexuais do garoto.

Ainda em suas cartas dirigidas a Fliess, Freud anota no dia 4 de outubro de 1897: “O sonho de hoje produziu o seguinte: ela foi minha professora em matéria sexual”. Zajic despertou a vida erótica de Freud e, com ela, também sua primeira humilhação sexual: “(ela) se queixou de que eu era desajeitado e incapaz de fazer qualquer coisa. A impotência neurótica sempre chega dessa maneira”. Seja como for, em suas elaborações teóricas, a importância do papel de sua Kinderfrau é apagada. Como mencionei antes, esse local ofuscado, destinado às trabalhadoras domésticas, é necessário para conformação do ideal da família burguesa. Entretanto, Freud admite em suas cartas a Fliess que, mais que seu pai e sua mãe, sua babá imprimira sua identidade sexual, psicológica e econômica, transmitindo a ele “os meios de viver e continuar a viver”.

Ao cotejar a memória de Freud com a teoria por ele elaborada a partir de sua autoanálise, McClintock nota uma discrepância entre seu edifício edípico e os registros de suas lembranças de infância, nos quais a babá assume uma parte estruturante na constituição de sua subjetividade. Dias depois de redigir a carta a Fliess em que aborda seu reconhecimento da “primeira originadora”, Freud não só bane esse vestígio de memória da teoria, como substitui a impotência sexual (falta de capacidade sexual com a babá) pela versão da agressão sexual (excesso de capacidade sexual com a mãe). O mecanismo em jogo é, esclarece McClintock, “um deslocamento através da classe (‘mais tarde […] surgiu a libido pela matrem’)” que produz “uma inversão de gênero (da babá para Freud)”.

Na carta de 1897 para Fliess, Freud escreve ainda sobre a babá: “Ela foi minha professora em matéria sexual”. Destoa do que escreve pouco depois em “Feminilidade”: “A sedutora é geralmente a mãe […] que por sua atividade sobre a higiene corporal da criança inevitavelmente estimulou e até provocou pela primeira vez sensações prazenteiras em seus órgãos genitais”. Surpreendentemente, Freud relata, mais uma vez, a Fliess que essa articulação não correspondia a seu próprio caso. Como uma figura distante, sua mãe preservava a imagem idealizada de perfeição: “Para mim, ela era a mãe perfeita. Eu não teria gostado que ela me medicasse, me banhasse, me confortasse ou segurasse minha cabeça quando eu estava doente. Essas funções íntimas corriam por conta da babá ou de Annie, nossa criada”.

Eliminando a babá das cenas, Freud também enfatiza o papel histórico do homem como propulsor da sexualidade constitutiva. Todavia, os resíduos psíquicos com a babá insistem e entram em choque com sua teoria do Édipo, que obnubila os conflitos de classe estruturantes de lares burgueses. Freud, como vimos, chega a afirmar que o complexo de Édipo é um esquema “herdado filogeneticamente”. Esse prisma extrai da articulação edípica toda a sua camada histórica e socialmente circunscrita. Com isso, dissolve o poder formador da babá, cujas marcas advêm de um de terminado estrato social – a classe trabalhadora. Ao encobrir essa materialidade efetiva do trabalho a um “precipitado da história da civilização” invariante e naturalmente herdado acaba por velar um conflito de classes existente nos seios das famílias nucleares burguesas do fim do século XIX e começo do XX. Entretanto, os lastros reaparecem de maneira persistente, contando-nos outra versão da história. Nas palavras de McClintock:

“Histéricos”, escreveu Freud, “sofrem principalmente de reminiscências”. Em seu próprio caso, admite, “Se […] consegui resolver minha própria histeria, então devo agradecer à velha mulher que me deu, em tão tenra idade, os meios de viver e continuar a viver”. A histeria a que Freud se refere aqui é seu medo de viajar e sua “neurose de Roma”, que parece surgir de sua incapacidade de reconhecer e resolver sua imagem materna dividida, divisão que surge não a partir de alguma divisão arquetípica na psique, mas da duplicação de classe do lar vitoriano. Quando Freud foi separado de sua mãe durante o confinamento dela, sua babá católica levou-o muitas vezes à missa, dando-lhe os meios para resistir à perda da mãe naquele período. A saudade sexual que Freud sentia de sua mãe e sua incompetência com a babá se misturam com as histórias católicas de “céu e inferno”, e, em sonhos recorrentes, a cidade católica de Roma – a mãe que não era sua mãe – tornou-se “a terra prometida vista de longe”.

McClintock é atenta à divisão de Freud entre duas religiões, duas mulheres e duas classes. Sua “fobia de viagens” e sua “neurose de Roma” parecem derivar desse veio conflitivo. Em 3 de outubro, Freud escreve a Fliess que, depois de excitado pela babá “a libido em relação a matrem foi despertada, a saber por ocasião de uma viagem de Leipzig a Viena, durante a qual devemos ter passado a noite juntos e deve ter havido uma oportunidade de vê-la nudam”. O uso de um termo em uma língua estrangeira, lembra-se o próprio Freud (apud McClintock) em outro lugar, é indício de recalque; o latim, antiga língua da igreja católica, religião adotada por sua babá, agora transfere-se para a excitação em relação à outra mulher, sua mãe. Esse jogo de mulheres duplicadas no desejo condensado entre babá-mãe e judaísmo-catolicismo aponta para a impossibilidade de penetrar a cidade de Roma, embora este fosse seu maior sonho. “Incapaz ‘de agradecer à memória da velha mulher’ em sua teoria”, pondera a autora, “Freud foi incapaz de resolver sua histeria”. De modo sucinto, o que parece estar em destaque na abordagem de Freud, feita por McClintock em Couro imperial, é algo que a própria teórica feminista condessa muito bem na seguinte passagem:

A elisão, por parte de Freud, da babá da teoria de Édipo também elide o fato de que as casas de família são, acima de tudo, estruturas econômicas historicamente variáveis. Admitir o poder e a atividade da babá é admitir que o poder da autoridade paterna é inventado e, portanto, está aberto à mudança. Ao esquecer a babá, Freud podia esquecer a estruturação da identidade infantil e social em torno dos desequilíbrios econômicos na família. O romance familiar é livrado da contaminação de classe e, o que é mais importante, do dinheiro. Através da teoria de Édipo, a multiplicidade das economias familiares é reduzida a uma economia única, naturalizada e privatizada como a unidade universal da família monogâmica do homem, um “esquema hereditário” que transcende a história e a cultura. A família é ostentada como além da política e, portanto, além da mudança social, precisamente no momento em que as mulheres vitorianas de classe média começam a desafiar os limites entre o privado e o público, entre o trabalho assalariado e o não assalariado.

Freud deixou um legado monumental. Cabe a nós não replicá-lo como papagaios. Rever alguns dos preceitos freudianos pode colocar questões embaraçosas para a psicanálise como um todo. Mas, se verdadeiramente somos herdeiros de Freud, a coragem deve perseguir a verdade dos sintomas psíquicos e sociais. É essa ousadia do olhar e da escuta o que deve preponderar em nossas investigações clínicas e teóricas. O livro de Anne McClintock certamente faz jus a esse caminho.

Alessandra Affortunati Martins é psicanalista e doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela USP. Autora de Sublimação e Unheimliche (Pearson, 2017), O sensível e a abstração: três ensaios sobre o Moisés de Freud (E-galáxia, 2020) e organizadora de Freud e o patriarcado (Hedra, 2020).


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