Repatriar a poesia: sobre um poema de Francesca Cricelli

Repatriar a poesia: sobre um poema de Francesca Cricelli
A poeta, tradutora e pesquisadora Francesca Cricelli (Foto: Jade Gadotti)

 

“é uma longa estrada repatriar a alma”. Ao longo do último mês, este verso acompanhou-me quase diariamente e o considero dos mais belos que li nos últimos anos pelo que ele carrega: o peso do tempo alargado e da memória; pelo que, aqui entre réstias de sol sobre a escrivaninha, repropõe de modo abrangente. Ouço a voz da cidade que me chega da janela, repetindo-o, meditando também ela sobre o non-sense que o isolamento nos impõe e o necessário retorno ao que virá depois deste duradouro e inevitável período de luto, que torna o antes tão longínquo quanto incerto é o devir.

De seu lugar no corpo do poema, braço acenando, o verso é um convite à travessia e consolo, atenta-me para o liame sutil entre o desejo e a impotência de desejar diante da vida, dos fatos, dos imprescindíveis passos de volta à origem, lugar de rasuras e delicadeza em que a linguagem engaja senão o mundo, a nós mesmos em nossas mais primitivas formas. Como o Bentinho de Dom Casmurro, a certa altura o que se quer é unir as duas pontas da vida, quando o que nos falta somos nós mesmos e é por isso que é longa a estrada que leva à alma ao repatriamento.

Esse verso pulsa por todos os caminhos pelos quais as palavras, em diferentes línguas, percorrem em Repátria (2015), de Francesca Cricelli.  O livro, dividido em cinco partes, apresentado em bonito e competente trabalho editorial do Selo Demônio Negro, mereceria – merecerá ainda – da crítica de poesia um olhar e uma escuta que transcriem as imagens, as metáforas e as paronomásias, habitantes de idiomas que rebabelizam a experiência: a do livro em si, e antes dele a da poeta; a da leitura e a da alma repatriada unida ao repatriamento do poema, este lugar de aprendizado e espelhamento a nos dizer de nós a nós mesmos. A poesia é, afinal, como propõe Jean-Luc Nancy, um acesso que se faz no difícil, não é o sentido é a jornada, a larga estrada que Repátria oferece.

As três primeiras partes apresentam poemas em italiano e português; a quarta traz o que a autora denomina “intraduções” e a quinta chega-nos como um convite à aventura tradutória em que poemas de vários poetas, aparentemente distantes em suas temáticas, dicções e épocas de produção, em movimento de criação de precursores, aproximam-se pelas traduções de Francesca Cricelli, marcando-se das idiossincrasias e do cosmopolitismo da poeta. Arrisco a viagem que esta poesia propõe, não apenas para os versos a seguir, mas para o livro como um todo e a partir deles para a alma, no que mais profundamente a tocam.

O título parte de uma constatação (o repatriamento da alma) que será explorada pelo eu-poético nos 18 versos brancos e livres seguintes. A partir dele, a percepção sensível da distância entre o verbo e o vivido vai se compondo, gradativamente, pela memória desde a concretude de uma estação ferroviária aos olhos no espelho. Leio o poema “em quatro estações”: o primeiro trecho do percurso nos versos de um a três. Em seguida, a segunda etapa de viagem vai do verso quatro ao verso sete. No verso onze, outra parada, a terceira.  O quarto e último trecho do percurso vai do verso 12 ao 18.

 

é uma longa estrada repatriar a alma

Há que se fazer o silêncio
para ouvir os dedos
sobre o velho piano da ferrovia
é uma longa estrada repatriar a alma
a rota é na medula
descida íngreme
ou subida sem estanque —

demolir para construir
e não fugir do terror sem nome
de não ser contido
apanhado, compreendido
é preciso seguir adiante
no fogo e sem ar
e se a dor perdurar
é preciso ser destemido
para espelhar o rosto
em outros olhos
distantes como num espelho.

 

Nos três primeiros versos, ao silêncio evocado, corresponderá a lembrança dos dedos no velho piano da ferrovia, cuja voz acompanhou tantas chegadas e partidas, passos, malas, despedidas e abraços – é isso, afinal, que a imagem cinematográfica da estação ferroviária associada ao piano pode reiterar pela leitura. Até então, o leitor está diante de uma cena conhecida, tantas vezes representada senão em sua própria vida, nas letras de canções, nos poemas, nos filmes.

No quarto verso, “é uma longa estrada repatriar a alma”, por meio de um importante giro de sentido, o discurso irá fixar-se não mais na dicotomia chegada/partida, mas transcendendo sua acepção primeira, transforma a ferrovia na difusa e longa estrada de repatriamento da alma. Impossível não estranhar o verso que de um lado rompe com a viagem (é a alma que vai ser repatriada) e de outro amalgama o repatriamento ao percurso pelo corpo do sujeito, do poema. Na segunda estação, já distante dos trilhos, o incansável trabalho de Sísifo se apresenta: “descida íngreme/subida sem estanque. Portanto, do plano real dos dedos no velho piano mergulha-se no Real, território em que o dizer é impossível e que o simbólico não alcança, mesmo que tão entranhado no corpo, ou por isso mesmo.

O percurso interior acentua-se na terceira estação, lembremos de que “a rota é na medula”. Será preciso demolir o que ali há de estrutura, fixidez e movimento, aceitando o risco da demolição se se quiser repatriar a alma, mesmo sabendo que o terror não tem nome (ou rosto?) – o terror é da ordem do imponderável, do Real. É na e pela ruína que o sujeito poderá reencontrar sua jornada, talvez num caminho às cegas em que a vivido se refaça: o caminho do repatriamento é aquele que enlaça o que foi como relampeja na memória do sujeito, como diria Benjamin, à agoridade. É como se o Anjo de Klee abandonasse as asas e passasse construir(se) pelas ruínas que até então só observava. O repatriamento é algo da ordem do fazer, mais do que do estar. É uma modalidade da ação que só pode se efetivar quando se ultrapassa o terror, ou seja, o repatriamento é, em alguma medida, testemunhal.

O trajeto é longo porque longa é a aprendizagem da dor e dos desvios da alma que exilada busca os meios de retornar a si, sua história, sua pátria, àquilo que sobreviveu às íngremes descidas e às subidas sem estanque, ao ostracismo do eu em si-mesmo. É dessa dor, das chamas e da asfixia de uma alma que se sabe (ex)cêntrica mesmo que percorra a medula, é de lá da coluna, do esteio, que os escolhos revisitarão as escolhas, que os espelhos os olhos (des)encontrarão. Mas eis que os olhos já não estão distantes como no espelho, como nos versos, ao contrário, olham-se de bem perto e se reconhecem. São os olhos do poema e do leitor, que sem se dar conta também repatriou, pela leitura, em cada uma das estações, o sentido poético da existência.

Neste momento em que cada um de nós, em nossas casas, percorremos as rotas da medula, o roto cotidiano esfacelado pelas notícias, o sentido poético nos devolve a alguma pátria distante, perdida nos projetos, nas esperanças destecidas. É também longa e urgente a estrada para repatriar a poesia. Sem ela, sem esse acesso de que falei logo acima, não se poderá repatriar alma alguma, nem a democracia, nem mesmo o céu que agora escurece. É urgente percorrer as ferrovias que nos levam aos poemas. E se a dor perdurar, se houver fogo, ou essa falta de ar que tanto ameaça a humanidade, não devemos perder os silêncios, as palavras e este blues que os dedos arriscam no velho piano da estação, de uma certa estação, que entre os apitos dos trens, me vem à lembrança agora.

DIANA JUNKES é poeta, crítica literária e professora da UFSCar. Escreve mensalmente a coluna “Musa militante”.


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