“A vida é o tempo que levei para chegar até aqui”: uma leitura da poesia de Marcos Siscar

“A vida é o tempo que levei para chegar até aqui”: uma leitura da poesia de Marcos Siscar
O poeta Marcos Siscar, autor de 'Isto não é um documentário' (Foto: Divulgação)

 

Isto não é um documentário, de Marcos Siscar (7 Letras, 2019), coloca o leitor diante de uma denegação. Afinal, talvez tudo não passe de um documentário, a começar pela vida recolhida nas páginas-lentes, “desertos que se abrem”. Nesse livro, que se acompanha do lindo e sensível texto de orelha assinado por Joana Matos Frias, é o próprio gesto da escritura que é documentado, aquilo que se inscreveu no eu-poético, sobretudo a partir do olhar (“minha vida é o que vi”), e que historiciza a poesia do autor recuperando “cenas” de Metade da arte (2003), O roubo do silêncio (2006), Interior via satélite (2010), Manual de flutuação para amadores (2015).

Trata-se, definitivamente, de um documentário, digo a mim mesma depois de concluir a leitura de Pietá: “Se nem um colo garante a escultura/ a im-piedade é a regra” e  à vida restam os interstícios, os ensaios de enjambement; a vida é o que se vive até o presente e à poesia cabe enlaçar o passado e o futuro, feito um nó borromeu, para impedir o esgarçamento do sujeito em meio a tantos escombros. Dentro ou fora do corpo, do ser, “a palavra é o vórtice de onde tudo”. Pietá é o último poema do livro, impenitente conversa com Michel Deguy, acerto de contas com as reminiscências que se foram espalhando página a página, no que ao fim deixou de ser deserto e voltou a ser o “Rio que devolve seus barcos” (Metade da arte), recuperando, ainda, a Pietá com que se abre Manual de flutuação para amadores.  Não há como ler Isto não é um documentário sem aceitar o movimento espiralar a que convida.

A crítica, então, torna-se personagem, ficcionaliza-se, pois é incapaz de separar “forma e fluxo; texto e leitura; opinião e poesia”, deixa-se “interpelar antes de interpretar”, rouba o silêncio dos versos para fundir a eles sua voz, quando o “vento bate na roupa e os pneus esmagam as pedras”, pedras-carrapicho, resto perpetuado pela “íris num pote de vidro sobre a cômoda”. Para falar do livro, torna-se urgente falar com o livro; escolho dizer dos escolhos dos poemas, junto com o poeta. A crítica é também impenitente; luciferina, não se enquadra na distância que lhe tentam impor, persiste na busca errante do difícil acesso aos sentidos; tenta em vão apropriar-se da poesia sendo, simultaneamente, a poesia em si, o fazer poesia de que fala Jean Luc-Nancy, pois essa é a trajetória possível para alcançar o que a poética siscariana endereça ao leitor, interrogações, flashes, a defesa da poesia quando “a hora do tambor” (O roubo do silêncio) se aproxima pelo ar de um mundo que pouco depois do lançamento de Isto não é um documentário mergulhou na crise pandêmica.

No livro, a poesia rasura a experiência, destitui-lhe a origem, fragmentando-a em cenas ora contíguas ora sobrepostas, catalogadas como as múltiplas partes de um caleidoscópio, entre tomadas, closes e a mobilidade da câmera, que distorce algumas imagens e (re)sigifnica outras. O discurso poético testemunhal diz de algo que um dia se fixou na “memória fiel dos começos” enquanto aguardava sua contraparte, “o sabido atrativo dos fins”.  De um a outro ponto, a “travessia é longa mas não importa”, pois se a poesia é limiar, passagem, ao mesmo tempo é passante, “o erotismo da linguagem atravessa o poema como a mulher bonita que atravessa a rua”, é um modo de estar no “concebível”, “imaginável”, em que a autorreferencialidade também abarca a erótica da palavra, seu corpo.

Dividido em quatro partes com tamanhos distintos, “Jardim das simplicidades”, “Cinema”, “Endereços”, “Traduções impenintentes”, closes, telas em cinemascope, decupagens, enfim, articulam-se não como algo pronto, mas pelo avesso dão a ver seu modo de existir e de habitar a página que é a tela do poema, em que o prazer e a dor fundem-se a partir dos acervos e o lastro com a realidade vivida pelo poeta não importa (“Quis continuar desaparecendo pessoalmente”;  “Não estou no poema. Eu é o poema. Digo e repito”).

Tudo é encenação. Mesmo o que se coloca à guisa de prefácio, faz parte do roteiro: a linguagem, seus cortes, a reflexão metalinguística, o Eu; aquilo que um dia o menino guardou para os olhos do homem, sua indecisão e sua ousadia, o inevitável pulo do trampolim,  “de dentro da piscina o mundo parece azul” já dizia o poeta em “Afogando um Nerval”, de Manual flutuação para amadores. O menino de sempre, na ponta do trampolim, questiona-se sobre a necessidade de escrever, pergunta que, aliás, insistentemente se apresenta na obra de Marcos Siscar e que é retomada e revisitada em Isto não é um documentário em diversos momentos, ainda que o dizer resista a rastreamentos (“não me procure que já fui embora”); imperativo que ecoa, em “Tome seu café e saia” (Metade da arte, 2003) e no antigo Road movie, “o amor retirou-se o céu está limpo” (Metade da arte, 2003).

Se em O roubo do silêncio a epígrafe drummondiana ( “toda história é remorso”) dava o tom, no livro de 2019 são as vozes de Ana Cristina Cesar e outras em epígrafes (Santiago de Moreira Salles, Sege Daney, Maria Gabriela Llansol), que emolduram cada etapa de filmagem; além delas, retornam o usualmente lembrado Baudelaire, o mesmo Drummond, algum Montale, algum Bandeira. O leitor habituado à poesia de Marcos Siscar encontrará novamente em Isto não é um documentário a busca da simplicidade, aquela que em “Provisão poética para dias difíceis” (O roubo do silêncio) anunciava o  atual jardim (das simplicidades, dos vestígios), em cujo solo, entre raízes, cresce o carrapicho que o gesto tradutório, usurpador, para falar com Haroldo de Campos, não redime, ao contrário, amplifica, daí as “traduções serem impenitentes”.

Mas e se a crítica acreditasse no título do livro, se aceitasse o pacto que ele propõe? Parte do que se disse se perderia, e o regresso ao início do que não é um documentário, sob este prisma recém-pactuado, seria inevitável. Aqui talvez esteja uma das muitas entradas para a obra de Siscar: seu caráter de eterna viagem de volta, de sinal de menos, em que a negativa reitera a assertividade da existência da poesia, sua insistência, sua persistência. “Quis escrever o retorno, o retorno era o que eu queria”, “e de novo a porta aberta e a revira-/volta” (Manual de flutuação para amadores). Na poesia de Marcos Siscar, a partida é permanente tanto quanto o regresso, mesmo que doloroso, “voltar à casa é como tirar a casca e reabrir a ferida”, “voltar é como sair”, ou é também “A alegria de partir” de Interior via satélite: “partir é uma arte/de fato e de solidão./salvar-se/ querer dividir a arte/da voz”.

Retornarei, pois, aos poemas pela leitura, desfazendo o bordado que até aqui teci. Não há documentários, onde a poesia. Ou haverá? Ao fim e ao cabo, a Odisseia é inescapável, como em Homero, como na tela de De Chirico, como em Cinema Paradiso. “Ulisses envelhece, portando sua própria degradação”, “o que dói dói sempre agora”. Retornarei à casa, pela leitura. Cada um cumpre a Odisseia que lhe cumpre.  Quanto à luta de “Eu, Daniel Blake”, ou à vida monotônica de Paterson, quanto às várias referências que transitam pelo livro, não apenas em “Cinema”, que pelas lentes do câmera-eye se aproximaram, quanto a esta página em que arrisco documentar o que resiste à documentação, documentando, há pouco a dizer, a não ser que  esta poesia é viagem ao interior quando os satélites se distraem e “a solidão é um dos casos de convivência”.

DIANA JUNKES é poeta, crítica literária e professora da UFSCar. Escreve mensalmente a coluna “Musa militante”.


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