Marjorie Perloff: ‘O multiculturalismo exerceu um efeito terrível sobre nossa poética’

Marjorie Perloff: ‘O multiculturalismo exerceu um efeito terrível sobre nossa poética’
Marjorie Perloff (Divulgação)

 

A ensaísta norte-americana Marjorie Perloff critica a hegemonia dos estudos culturais e afirma que, nos EUA, o multiculturalismo reduziu o interesse do público pela poesia de outros países.  Perloff, um dos nomes mais importantes da crítica norte-americana contemporânea, é uma voz discordante dentro da atual voga dos estudos culturais. Autora de O momento futurista (publicado no Brasil pela Edusp) e do recente Wittgenstein’s ladder, esteve no Brasil para o congresso da Abralic e concedeu a seguinte entrevista ao poeta e tradutor Régis Bonvicino.

CULT – Você poderia falar um pouco sobre estudos culturais e poesia, no cenário atual?

Marjorie Perloff – A área de “estudos culturais” anda em baixa nos Estados Unidos. Um centro que trabalhou seriamente com esse assunto foi a Stuart Hall School, em Birmingham, na Inglaterra. São marxistas e estudaram em detalhes o fenômeno da cultura popular. Na Grã-Bretanha, o trabalho deles ganhou ares revolucionários, porque os departamentos de inglês das universidades estudam apenas as obras do cânone, e os estudos culturais ofereciam uma alter­nativa interessante. Nos Estados Unidos, as coisas não avançaram justamente por falta de uma base marxista. Os estudos culturais pressupõem, mesmo que não explicitamente, que um dado poema ou romance é sintoma de uma formação econômica, social e cultural específica, e os pesquisadores se atêm a características gerais em detrimento do trabalho individual. Nesse caso, como já afirmou John Guillory, os estudos culturais podem prescindir da literatura e concentrar sua atenção em Madonna, revistas em quadrinhos e shopping centers. A literatura fica para trás. A maioria dos acadêmicos americanos enxergou isso e tenta, agora, um retorno à literatura. Quem é que quer estudar apenas sociologia?

Existem vínculos, para você, entre arte e política?

Toda forma de afirmação artística tem algo de político. Acredito haver uma relação próxima entre arte e política, mas isso não significa que essa relação deva pautar a arte. O multiculturalismo exerceu um efeito terrível sobre nossa poética. Se não se pode criticar um poeta afro-americano ou latino, tampouco se pode criticar um poeta branco, e isso elimina a possibilidade de um debate consistente. A idéia de que se deve sempre ter um representante de cada extrato racial e/ou social – um latino, um índio (ou americano nativo), uma afro-americana, uma lésbica sino-americana – foi por demais destrutiva. Não que não haja excelentes poetas nessas minorias. Mas não se pode forçar o interesse. Além disso, o multiculturalismo teve um efeito ruim também sobre o multinacionalismo – ou seja, nos Estados Unidos, o interesse pela poesia de outro país é muito reduzido. Não se falam outras línguas e o termo “poesia estrangeira” é algo dúbio. Espero poder corrigir isso de alguma maneira!

 A poesia tem futuro num mundo mercantilizado?

Mas é claro! A crítica prevê a morte da poesia há cem anos, mas ela nunca morre, apenas se altera. A poesia como arte da linguagem é fundamental, porque serve de instrumento para se avaliar a ordem social. A linguagem que ouvimos a nossa volta está adulterada, recheada de clichês. A poesia é necessária para podermos reavivar nossa capacidade de pensar e de produzir sentidos! E há muita coisa interessante acontecendo em poesia. Andei folheando algumas novas publicações como a Boxkite, australiana, e a Chain, editada por Juliana Spahr e Jena Osman, e fiquei impressionada com a quantidade de trabalhos instigantes – de natureza verbal/visual – que se pode encontrar pelo mundo afora. Nos Estados Unidos, os poetas são prati­camente desconhecidos do “público”. Por outro lado, há vários círculos de poesia nas universidades e o número de pu­blicações a respeito é considerável. É claro que é frustrante saber que apenas uma parte redu­zidíssima dessa produção acabe resenhada no New York Times Book Review ou no New York Review of Books, mas a longo prazo isso não será tão importante.

Nesses círculos poéticos, quais são as diferenças entre poesia conservadora e experimental?

Isso nos leva a uma outra questão. A poesia “conservadora” nos Estados Unidos é escrita em versos livres, com divisões de estrofe aparentemente arbitrárias e representa em geral uma observação pessoal de uma experiência particular. Em grande parte, é uma poesia de importância menor. Refiro-me a poetas “estabelecidos”, como John Hollander, Robert Pinsky, Edward Hirsh e Louise Gluck e as versões mais jovens destes. Sua poesia não chega a ser ruim. Simplesmente não é poesia. “Comentários”, disse Gertrude Stein, “não são literatura”. E esses poemas não passam de comentários. Não quero dizer com isso que toda poesia “experimental” seja boa. Poems for the third millenium, volume 2, traz muitos poemas de terceira categoria, a exemplo de From the other side of the century, de Douglas Messerli; The Norton anthology of postmodern poetry, de Paul Hoover e a nova – e extensa – antologia de “Poesia inovadora feita por mulheres”, organizada por Margy Sloan. São todos livros enormes. Pensando bem, o grande pro­blema da cena poética atual é sua própria megalomania. Para que produzir volumes tão grandes? Quantos ótimos poetas pode haver? Ou mesmo apenas “bons”? Fico com a antologia britânica Out of everywhere, preparada por Maggie O’Sullivan. Trata-se de um pequeno volume que reúne poetisas experimentais no qual que quase todos os trabalhos são bons! O que realmente precisamos agora, no que diz respeito à poesia experimental ou de vanguarda, é de uma crítica melhor e mais presente. De nada adianta dizer que “vale tudo”, que se fulano diz ser um “poeta da linguagem”, então que seja! É preciso haver mais seleção e, em um estágio posterior, melhor acompa­nhamento dos selecionados.

Tradução Jayme Alberto da Costa Pinto Jr.

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