Em ‘Me chame pelo seu nome’, autor quis fugir de personagens estereotipados

Em ‘Me chame pelo seu nome’, autor quis fugir de personagens estereotipados Cena de 'Me chame pelo seu nome', de Luca Guadagnino, baseado no romance de André Aciman (Reprodução)

 

Uma casa de veraneio em uma cidadezinha do sul da Itália. Calor. Corpos à mostra. Frutas maduras. Me chame pelo seu nome, do escritor ítalo-americano-egípcio André Aciman, é um romance curto sobre um amor de verão entre dois rapazes, mas com um enfoque um pouco diferente daquele que, em geral, é adotado nos livros do gênero: a narrativa é romântica e delicada – sem traços de violência ou discriminação. 

Publicado pela primeira vez em 2007, Me chame pelo seu nome conta a história de Elio, um rapaz de 17 anos que, enquanto passa as férias com a família em sua casa de verão, acaba se apaixonando por Oliver, um hóspede alguns anos mais velho. Em pouco tempo, o livro conquistou uma horda de fãs nas redes sociais e se tornou um dos mais lidos dentro do nicho da literatura gay, vencendo o Lambda Literary Award, a maior premiação de ficção LGBT do mundo. O livro chega ao país em janeiro pela editora Intrínseca, e o filme do italiano Luca Guadagnino estreia nesta quinta (18) nos cinemas brasileiros.

Ensaísta, romancista e pesquisador da literatura do século 17, Aciman é doutor em literatura comparada pela Universidade Harvard, foi professor na Universidade de Princeton e atualmente leciona no The Graduate Center em Nova York, nos Estados Unidos. Autor de outros sete livros (três deles romances), ele defende que esperar que histórias sobre LGBTs sejam contadas apenas por autores LGBTs “é mais ou menos como pedir a Dostoiévski para não escrever sob o ponto de vista de um assassino porque ele nunca matou ninguém”. Em entrevista à CULT, Aciman explica por que quis blindar a narrativa das “típicas situações que sempre aparecem em livros sobre gays”. 

André Aciman Foto: Sigrid Estrada/ Divulgação)
O escritor André Aciman, autor de ‘Me chame pelo seu nome’ (Sigrid Estrada/ Divulgação)

CULT – De onde veio a inspiração para Me chame pelo seu nome?

André Aciman – Escrevi o livro em quatro meses, no máximo, e tudo veio de uma vontade enorme de estar na Itália. Normalmente nós alugamos uma casa no sul e passamos o verão com os garotos, mas naquele ano não poderíamos ir, então me senti frustrado. Em uma manhã de abril, eu estava me sentindo muito nostálgico e comecei a descrever uma casa de veraneio na Itália que eu havia visto em uma foto. Escrevi três páginas e parei porque não havia nada mais a dizer. Mais tarde, decidir voltar a estas páginas, as reescrevi e continuei escrevendo de forma contagiante. Eu me sentia como se estivesse explorando o lugar, e continuava indo e indo e indo – até que, de repente, apareceu um desejo de colocar ali dentro um caso de amor, que não seria entre uma mulher e um homem, mas entre dois homens. A ideia simplesmente me surgiu e eu escrevi.

Me chame pelo seu nome é uma história de amor?

É muito difícil dizer, porque o amor nos força a examinar como negociamos quem somos com todos ao nosso redor, particularmente se há desejo no meio disso. O desejo nos leva a questionar o que queremos, quem somos e o que a outra pessoa representa. Ela me ama? Ela me odeia? É uma má pessoa? Esse tipo de pergunta deriva de algo que chamamos de amor. O interessante é que eu não usei a palavra “amor” no livro, mas esta é a única palavra que pode descrever o que acontece no romance, porque não há outra explicação. É um amor de uma vida inteira de uma pessoa para outra.

Mas não é apenas uma história de amor.

É uma história absolutamente interna. Tem foco na vida interior dos personagens, algo que eu sempre quis escrever. É sobre como examinamos a nós mesmos e a outras pessoas, e nós mesmos frente a outras pessoas. O livro inteiro é contado detalhadamente por Elio, um jovem que constantemente tenta entender quem é, o que quer e o que Oliver quer, pois ele não faz ideia. É sobre ser e descobrir-se.

O livro não é baseado em suas experiências pessoais, mas ainda assim você compartilha muitas características com Elio, como o multiculturalismo de sua família, o amor pelos livros e o judaísmo. O jovem André inspirou Elio?

Sim, eu lia muitos livros na idade dele, eu adorava música clássica, tinha pais muito parecidos, morei em uma casa. As similaridades eram muitas, e tudo isso me ajudou a construir Elio, mas quando se trata das ações que se passam no livro, tudo isso veio de muita criatividade e de outras experiências que eu tive ao longo da vida. Até porque muitas outras coisas eram diferentes. Eu não cresci na Itália, minha mãe era surda, eu nasci no Egito. Mas é isso, quando você escreve um romance você empresta elementos da sua vida, uma pessoa aqui, um caso acolá, uma coisa vira outra, e assim por diante.

O que acha da ideia de que apenas um autor LGBT poderia escrever com propriedade sobre um personagem LGBT?

Acho que isso não faz sentido. É mais ou menos como pedir a Dostoiévski para não escrever sob o ponto de vista de um assassino porque ele nunca matou ninguém. Seu personagem mais famoso é um assassino. E aí fica ridículo, por que as pessoas acreditariam nisso? É como dizer que apenas um ator gay pode interpretar uma pessoa gay. É um pouco bobo. Um ator é um ator, e um autor, especialmente um autor de ficção, é um autor, este é o trabalho dele; imaginar. Eu posso escrever do ponto de vista de uma mulher sem precisar ser uma mulher.

O que é necessário para colocar-se no lugar do outro desta maneira?

Muita imaginação. Você tem que ser capaz de deslocar a si mesmo emocionalmente e intelectualmente para se tornar outra pessoa – o que também significa adotar seu ponto de vista. É por isso que algumas pessoas são ótimos atores e outras são atores terríveis, percebe? É necessário que o ator saiba interpretar o papel do assassino e, também, o da vítima. Você tem de saber fazer qualquer coisa. Acontece o mesmo com um autor de ficção. É como Laurence Olivier, um ator que fez o papel de um judeu sendo perseguido pelos nazistas e também interpretou um nazista. Você precisa ser capaz de se colocar sob pontos de vista diversos.

Apesar de ser um romance gay, a homofobia não é um tema presente na obra. Por quê?

Eu não queria aquelas típicas situações que sempre aparecem em livros sobre gays. Você sabe, a polícia atacando um casal gay, pessoas cruéis nas ruas batendo neles, alguém infectado com HIV. Eu não queria nada disso no meu romance. Eu queria imaginar: como seria a vida se um casal gay não tivesse de passar por nenhuma dessas coisas violentas e sem sentido? Veja, eu não dou nome à cidade em que a ação se passa, não descrevo rostos. E também não uso a palavra “gay” no livro. Quando você lê um livro assim, em que não há o lado de fora – ou que ele não importa tanto -, você é inevitavelmente confrontado com o interior dos personagens. Em Me chame pelo seu nome, você precisa olhar para dentro desses dois indivíduos que calharam de ser homens e que estão atraídos um pelo outro, mas sem perigos externos. E aí, o que acontece? É isso que eu queria explorar, e não toda a política, a perseguição, a condenação e a violência ao redor de uma relação assim.

Há perigo em não abordar a homofobia em um livro como este?

Sinceramente, prefiro deixar outra pessoa tratar disso. Eu apenas não queria que fosse parte do meu mundo. A violência sempre está presente: mulheres são perseguidas, gays, minorias. Vemos isso hoje, em todo esse escândalo em Hollywood. Mas a violência não pode impossibilitar o amor. O medo ou a expectativa de que algo ruim aconteça não podem barrar o romance. Não se pode viver assim. Eu não estava sendo idealista. Eu só não acho que é importante falar sobre isso todo o tempo. Vou te dar um exemplo. Se você escreve sobre uma pessoa judia morando na Alemanha em 1935,é praticamente automático invocar o Holocausto. Mas você pode, sim, escrever sobre um casal de judeus normais, que simplesmente amam um ao outro, ignorando a tragédia que estava por vir ali. Isso pode ser feito se você quiser falar sobre amor, pois o amor é mais importante do que qualquer tragédia. Eu sei que a violência existe, e eu tenho certeza que ela está muito presente no Brasil, mas eu não queria que fizesse parte da história. Eu não queria que a perseguição alimentasse um par de personagens estereotipados. Isso precisa acabar.

O que você achou do filme?

Eu amei. Já conhecia o diretor e fiquei muito feliz ao descobrir que ele faria o filme. O roteiro é maravilhoso, uma ótima adaptação; os atores são fantásticos, Oliver, Elio e o pai são absolutamente maravilhosos. Até a fotografia é maravilhosa: faz você amar a Itália e quem esses dois caras são.

Embora o livro seja famoso pela forma aberta de tratar o sexo, o filme tem menos cenas eróticas. Acha que foi uma boa escolha?

Sim, eu achei incrível. O livro é extremamente gráfico, conta exatamente o que acontece entre duas pessoas fazendo sexo. No filme é mais sutil, mas eu achei ótimo. Não gosto mais de cenas de sexo no cinema, seja entre homem e mulher, entre dois homens ou entre duas mulheres. Acho que mostrar isso na tela foi muito importante nos anos 60 e 70 para a libertação sexual de uma geração, mas hoje perdeu o sentido. Então deixar o sexo no não dito no filme me deixou muito feliz. Foram escolhas muito inteligentes de câmera. Por exemplo, há um momento em que Elio e Oliver brincam com os pés um do outro – e isso já foi perfeitamente erótico. Ou então, da primeira vez em que Elio e Oliver vão fazer sexo, a câmera deixa os dois no quarto e apenas filma uma árvore, achei perfeito. Eu não precisaria ver mais do que aquilo.

Muitas pessoas comparam seu livro a Moonlight, o grande filme LGBT de 2017. O que acha desta comparação?

Eu não gosto muito, não a compreendo. Quero dizer, claro, são filmes com temática gay, mas será que deveríamos colocar os dois no mesmo saco? É o mesmo que dizer que todas as histórias de amor são iguais simplesmente por serem histórias de amor. Elas não são iguais; cada uma tem sua característica.

O livro Me chame pelo seu nome foi publicado pela primeira vez em 2007. De lá para cá, a reação das pessoas mudou?

Acho que não. Acho que mais pessoas estão lendo ou relendo o livro por causa do filme. Mas a reação tem sido mais ou menos a mesma: as pessoas amam o livro, é algo que lhes dá esperança, e elas sentem que se encontram entre os personagens da história. Acho que pouco mudou em dez anos.   

Mesmo com Trump no poder e seus seguidores se multiplicando pelas redes sociais?

Sabe, eu nem penso nisso. Trump não teve nenhum efeito sobre a forma como as pessoas de relacionam com Me chame pelo seu nome. Quem assistiu ao filme e se conectou com os personagens não liga para Trump e suas bobagens. É claro que o fato de Trump estar no governo é muito triste, mas não acho que o livro e o filme ganharam força ou novas leituras por causa dele. Temos coisas melhores a fazer.

(5) Comentários

  1. Bem, o livro e o filme são ótimos, porém o autor talvez não entenda muito bem a atual situação das “minorias” que ele cita. É importante sim falar sobre violência e homofobia o tempo todo enquanto não vermos nenhum avanço nesse aspecto, principalmente no Brasil. Cenas de nudez, eróticas ou não, em se tratando principalmente de personagens lgbt’s, são sim importantes quando isso ainda hoje é um tabu. Quem conhece bem o Brasil sabe o alvoroço por causa de um beijo gay em qualquer novela/propaganda. Então são temas que devem ter uma grande visibilidade.
    Gostei bastante do livro e do filme, mas essa entrevista mostra o abismo entre imaginação e empatia. Acho digno um autor que não é gay escrever um livro de tal teor, bem escrito, envolvente e tudo mais. Mas como gay, preciso dizer que, por mais que essa seja uma opinião dele e deva ser respeitada, esse tipo de argumento não ajuda muito a comunidade. Só mostra até onde o autor pode ir ao tentar, de certa forma falha, ser empático.

    Mais uma vez: ótimos livro e filme, fogem do convencional e dos esteriótipos. Mas fiquei decepcionado com o ponto de vista do autor.

  2. Há grandes diferenças entre o livro e o filme, e não só pela diferença de linguagem (inevitável). O livro é melhor que o filme ao ser menos melodramático. O filme optou pelo amor convencional: Elio está confuso, tenta fugir de sua condição gay com Marzia, mas ao fim se rende e se entrega completamente a Oliver, que ao fim parte (duas vezes, uma física e a outra emocionalmente, ao se casar) e deixa o jovem completamente arrasado. Romance clichê de Hollywood (apesar de não ser um filme dos EUA).
    Aciman, com toda a heterossexualidade dele, faz algo bem mais inovador e… gay. O Elio do livro é menos romântico (na idealização feminina do termo, hoje imperante), faz sexo com Marzia depois de dormir com Oliver (no filme ele assume a fidelidade romântica vulgar) e na viagem final se excita com a ideia de fazer sexo com outras mulheres ou a 3 ou 4 com Oliver… Essa viagem, aliás, marca a diferença entre livro e filme. No filme, é uma viagem romântica de casal à Gramado, só falta andar de charrete de bode abraçadinhos e se beijar diante da lareira tomando chocolate quente. No livro, os dois vão para Roma e curtem a vida adoidado, enchendo a cara todas as noites e vivendo mil aventuras adultas (e Elio imaginando orgias com ou sem o amado). A viagem à Roma completa a iniciação de Elio à vida adulta, não é romântica no sentido de “casal em lua-de-mel”. Tampouco, no livro, Elio se desespera com a partida do amado. Ele guarda a dor da perda com ele para sempre, mas sem o melodrama do filme. Na verdade, até esquece a perde, mas descobre que ela pode renascer, como renasce, em encontros posteriores. Com toda a idealização do livro (fuga da homofobia etc.), a obra de Aciman é bem mais realista e menos romântica-conservadora que o filme.

  3. Confesso que estou confuso quanto ao livro. O estilo de Aciman é para mim surpreendente (não sou um grande leitor de literatura contemporânea, outra confissão).

    Primeiro, toda a trama baseia-se no relato de um narrador subjetivo, Elio. Aciman fala que a trama concentra-se no interior dos dois, mas não é verdade. Oliver é um coprotagonista apenas porque Elio assim o constrói. Tudo o que sabemos é pelos olhos (e a memória) de Elio.

    Há uma passagem em que Elio narra os eventos de uma noite muito especial. Páginas depois, conversando com Oliver, Elio toma consciência de que esquecera vários eventos dessa noite, os quais apenas agora são revelados. Não há narrador onisciente, nunca estamos certo de conhecer oque se passou de fato.

    A essa postura se junta o que chamo de “minimalismo aleatório”. Aciman não tem nenhum compromisso (e escrevo isso sem querer repreendê-lo) em informar o leitor (pelas mãos de Elio) dos eventos do livro.

    As informações jorram como que aleatoriamente, sem ordem nem maior nexo, e os leitores vamos juntando os cacos. É uma liberdade de narrativa incrível.

    Passam-se 8 páginas no livro até que saibamos que o hóspede sedutor (sobre o qual tratam as tais 8 primeiras páginas) se chama Oliver. E, veja bem, este é o primeiro nome que surge no livro. O próprio narrador ainda não se apresentou. Só vamos saber que se chama Elio páginas à frente. Não é só da cidade que não sabemos qual é, pouquíssimos personagens são nomeados (os próprios pais de Elio, penso, só ganham nome no filme, no livro são “meus pais”).

    Essas opções resultam em uma narrativa que parece ser propositadamente lacunar. Seja em coisas secundárias (o que se mostra divertido, quase sempre), seja (e isso me incomoda) em aspectos centrais.

    Central é não sabermos por que Oliver rejeita Elio e casa-se apressadamente. Terminamos o livro sem sabê-lo.

    Não sabemos nada, de fato, sobre Oliver, a não ser que deu demonstrações inequívocas de paixão e desejo por Elio (ao menos é o que Elio conta).

    Seria Oliver (sedutor profissional e muito bem-sucedido) um bissexual praticante ou teria sido Elio que despertou este seu lado?

    Mais. Seria mesmo possível (depois do pêssego, depois de Roma, depois de tudo) Oliver ‘decidir’ ser um marido heterossexual fiel e viver assim o resto da vida? [estaria aqui a evidência do problema de um heterossexual, Aciman, tratar de um tema gay?]

    Aciman claramente opta por prender-se até o fim à versão de Elio (lacunar por natureza, e incapaz de penetrar na mente de Oliver, por certo) daquela paixão de sonho, que acaba abruptamente (sem que Elio entenda por que – e nós com ele) e fica latente no italiano até 20 anos depois (quando o livro termina).

    Ou seja, Aciman leva a subjetividade narrativa ao seu limite. Lemos, lemos, lemos, mas só damos conta de conhecer uma nesga, cacos, fragmentos do que ocorreu.

    Como se o autor nos convidasse a não querer encontrar respostas objetivas, a não racionalizar, mas apenas nos entregarmos à emoção da paixão vivida por Elio e à melancolia de fundo que marca sua alma desde aquele verão à beira-mar.

    Sou um iluminista convicto, esse convite à irracionalidade me incomoda… Mas já ouvi muitas, muitas críticas à minha postura de excessiva racionalização de tudo.
    Aciman me desafia.

  4. Acabo de ver que meus dois comentários anteriores (os quais eu julgava perdidos por tê-los enviado em um momento de pane na página) foram de fato postados. Eles marcam momentos diversos da minha reflexão sobre a obra de André Aciman.

    Primeiro a feliz descoberta de que o livro é menos… “fofo” que o filme. E, depois, a percepção menos feliz de que o livro sonega informações ao extremo, deixando questões essenciais sem resposta, notadamente as motivações de Oliver antes, durante e depois do romance com Elio.

    Ao constatar que os dois comentários foram postados, eu ia desistir de postar este terceiro, fruto de uma reflexão mais distanciada (no tempo) da leitura do livro. Mas acabei optando por escrever esta introdução e postar mesmo assim.

    É uma guinada um tanto radical de minha percepção inicial. A idealização de Aciman cheira a homofobia disfarçada. A opção por gays másculos (e bissexuais funcionais) como “padrão” (e o casal de “bichas” como contraponto patético, ou no mínimo menos glamouroso).

    Vamos lá. [a introdução explicativa termina aqui]

    Detesto patrulhamentos e não creio que a (declarada) heterossexualidade de Aciman seja um impedimento. para ele escrever sobre gays. MAS…

    Como os gays foram de fato representados no livro?

    Creio que para responder a essa questão, identificá-los e analisar o tratamento dado a eles seja essencial.

    Não sei as pessoas contaram, mas há a rigor sete personagens homossexuais no livro.

    De dois deles, pouco ou nada sabemos: o rapaz de bicicleta nas ruas de Roma e o penúltimo hóspede antes de Oliver (o que deu a Elio o cartão-postal). São citados ‘en passant’, atuando respectivamente 3 e 2 anos antes do “verão do Oliver”.

    Mas podemos induzir (tarefa que Aciman nos obriga o tempo todo) que ao menos o hóspede não era efeminado, caso contrário Elio teria notado (e citado).

    Dois outros gays têm um tratamento dúbio (como quase tudo no livro): é o casal de Chicago que vem para jantar, representado segundo o estereótipo da “bicha velha”.

    Elio guarda distância e demonstra um certo desprezo pelos dois gays maduros e efeminados. Como se o mundo homossexual fosse formado por “tribos”, e a tribo de Elio fosse outra, sem os tiques ridículos, afetados, do casal de Illinois.

    Apesar de compatriotas, Oliver nem tem contato com eles. Aciman não os junta.

    Os outros três homossexuais são, de fato, “machos que curtem machos”, no linguajar dos chats gays.

    Um deles é o próprio pai de Elio, que confessa não ter tido coragem de viver o que o filho se permitiu experimentar aos 17 anos. Casou-se e teve filhos (Elio tem ao menos um irmão… outra citação ‘en passant’ do livro) e mantém a imagem de um “respeitável” intelectual casado e pai de família. Pai que não dá pinta, é macho, e não fosse a conversa com o filho, este jamais suspeitaria.

    Os outros dois, óbvio, formam o par de protagonistas, Elio e Oliver, aquela dupla de gays que atraem a tudo, a todos e a todas, lindos, másculos, atléticos, esportistas e sedutores. E sem um pingo de efeminamento.

    Não bastasse serem dois machos alfa, Elio e Oliver ainda são incrivelmente cultos.

    E os superpoderes da dupla não acabam: Elio é também um talentoso músico, versado em violão, piano e história da música, capaz de reinterpretar obras de Bach como Liszt faria. Creio que nem com 30 anos alguém acumularia tanto virtuosismo e conhecimento, mas Aciman o concentra em um rapaz de 17 anos… Que ainda tem tempo (e psiquê) para praticar esportes!!

    Pensando nesse trio de homossexuais (os três, de longe, os principais da trama) fico pensando em como Aciman criou “gays hétero”.

    E “héteros” completos, dado que não apenas exibem todos os atributos do macho (força física, destreza, apego aos esportes e zero de feminilidade) como fazem sexo com mulheres com sofreguidão.

    O pai, casado com filhos; Oliver, o sedutor, idem; e Elio desempenhando com garbo e muito desejo o papel de macho de Marzia (e cobiçando outras mulheres, notadamente em Roma).

    Ou seja, os três homossexuais centrais fogem tanto do estereótipo gay, mas tanto, mas tanto, que de fato não são gays. São bissexuais. E bissexuais (muito) machos.

    Como fábula romântica estetizante (atores, locações, figurino, tudo lindíssimo) e escapista – seguindo o batido modelo de tantos filmes românticos de Hollywood – funciona muito bem. Mulheres adoram a fórmula, especialmente. O povão também.

    Públicos resistentes a um mundo cor-de-rosa vão se incomodar menos com esses ‘machos que se pegam’. Haverá quem defenda as concessões extremas como estratégia para tornar o filme mais universal.

    Mas será que a fuga do estereótipo “gay” não foi longe demais, caindo em outro estereótipo, muito (mas muito) mais falso que o primeiro?

    Sim, é uma pergunta retórica.

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