O feminismo e suas ondas

O feminismo e suas ondas Mineradora da Vale ocupada pelo Movimento de Trabalhadoras Sem Terra (MST), em Minas Gerais (Reprodução)

 

 

Por que se fala em ondas dos feminismos? Se estes não se referem apenas a direitos iguais para mulheres e homens, qual seria o seu alcance? Sobre o que versa o seu conceito como um movimento plural e não unitário? Segundo Sally Scholz no livro FeminismA beginner’s guide, de 2010, “feminismo é um projeto crítico” que se volta para aspectos que parecem opressivos às mulheres, oferecendo sugestões alternativas em termos de análises, práticas e discursos.

A preferência atual pelo uso do termo no plural tem em vista a desconstrução dos papéis sociais e binários entre sexos e gêneros que alimentam o patriarcado. Nesse sentido, ao se tentar entender as bases sobre as quais se assentam os feminismos, deve-se levar em consideração a vida das mulheres como ponto de partida para teorias e práticas, ressaltando os caminhos dos quais as mulheres foram excluídas e problematizando as supostas características que reproduzem o sentido de serem mulheres.

Todas essas questões nos remetem claramente às chamadas ondas feministas, ou seja, as gerações dos projetos feministas, muitas vezes controversas em nível teórico e prático. O termo ondas (the waves terminology) é elucidativo enquanto um projeto que ainda não se completou, em dois sentidos.

O primeiro corresponde a um parâmetro cronológico ou de gerações. O segundo liga-se às sucessivas construções teórico-temáticas. Ambas as interpretações pressupõem que, tal como ondas no oceano, com marés (ebbs) e fluxos (flows), com marés altas e baixas, o reconhecimento das ondas pretende mapear a “intensidade variável da atividade feminista em diferentes períodos de tempo”, acrescenta Scholz.

Na esfera da filosofia política, o termo ondas (kymata) é usado por Platão, em A República, para nomear as dificuldades a serem enfrentadas para se constituir uma cidade justa. Pode-se dizer que, com todas as diferenças entre o que projeta o filósofo e os feminismos, nos dois casos o que se põe em relevo são as enormes dificuldades que devem ser vencidas para a efetivação de um projeto, dificuldades que não se apresentam como simples, mas como necessárias à consecução da finalidade maior: a construção de uma sociedade justa.

A cada onda dos feminismos, assim como a cada onda da kallípolis (da bela e boa cidade de Platão), um a um os obstáculos se apresentam, são reconhecidos e vivenciados, seja em moldes dialéticos, seja enquanto controvérsias, e uma nova etapa, uma nova onda se apresenta como algo necessário de ser reconhecido e apreendido.

Se, para Platão, as três ondas se referem à educação paritária entre mulheres e homens na classe dos guardiões, à comunidade de mulheres e filhos em uma nova ordem sexual e política, e à prevalência do rei filósofo – o qual não poderia ser uma mulher –, para os feminismos as ondas não visam conduzir a um “rei filósofo”, mas apontam os equívocos da sociedade falogocêntrica e patriarcal.

Primeira onda

Conforme Chiara Severgnini no jornal La Stampa, em 2016, cada onda (ogni ondata) traz consigo novas prioridades, novos métodos e novas protagonistas. Explicitam-se, assim, na primeira onda feminista, as pretensões pontuais do século 18, chegando até o início das reivindicações das sufragistas, no século 20.

Nesta primeira onda, cujos movimentos já se revelavam mesmo antes da era iluminista, como na literatura e poesia de mulheres renascentistas, alguns nomes se destacam. Olympe de Gouges redige, em 1791, a conhecida Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, escrevendo no preâmbulo que “a mulher” tanto é “o sexo superior em beleza quanto em coragem, nos sofrimentos da maternidade”, além do que, nos dezessete artigos do documento, inscreve os princípios que deveriam reger em direitos e obrigações a vida da “mulher” e do “homem”, correlacionando liberdade, justiça e resistência à opressão.

De modo semelhante, Mary Wollstonecraft, em Vindication of rights of woman, de 1792, entendia que o simples ato de “nascer mulher” já comporta em si inferioridade, opressão e desvantagem. Todavia, o cenário revolucionário se apresenta e isto ocorre justamente porque as mulheres “reformam a si mesmas no propósito de reformar o mundo”.

Para De Gouges e Wollstonecraft, era necessário que, ao lado do homem, a mulher pudesse ser uma individualidade autônoma, reconhecida em sua dimensão racional e moral. Apesar do viés ontológico e iluminista, já nessa primeira onda se manifesta uma crítica a certa neutralidade universal, modelada a partir do masculino, com discursos regulados pela lógica do mesmo e do próprio.

A segunda onda feminista insere-se no cenário dos anos 1960, com impacto nas duas décadas seguintes. Criado por Carol Hanisch em 1969, o lema “o pessoal é político” propõe que as mulheres se “livrem da própria culpa” e tentem enfrentar as situações da vida por meio de uma “terapia política” que possibilite a todas pensarem por si mesmas.

Destaca-se aqui uma fase em que problemas culturais e políticos se mesclam, devendo as mulheres encorajarem-se para combater as estruturas sexistas do poder. Mas já em 1949, Simone de Beauvoir publica, na França, O segundo sexo, elaborando uma teoria crítico-filosófica da relação entre o paradigma masculino, indicado como o mesmo, e o desvio feminino, assumido como o outro.

Segunda onda

Suas teorias podem ser tomadas como passagens da primeira para a segunda onda, ao assumir a categoria existencial da diferença, indicando, seja “a mulher”, sejam “as mulheres”, como constringidas ao protótipo da alteridade, enquanto o outro do homem, e, pois, da cultura.

Para recuperar a sua diferença, como uma alteridade autônoma, “a mulher” ou as “mulheres” (termo usado ora no singular, ora no plural em O segundo sexo e outros escritos) devem recorrer aos desejos, tomando a si mesmas como referência, reativando seus projetos existenciais por meio da narrativa, reescrevendo sua história de uma perspectiva individual e comum, tal como ela faz em suas obras de memória, como La force de l’âge, de 1960 e Tout compte fait, de 1972.

A prática de contar histórias – na forma da escrita autobiográfica – é um tema constitutivo dos feminismos. No ato da escritura, cada mulher-escritora se descobre em suas características e também como outro de si, por meio de um processo de autoeducação.

O segundo sexo teve um forte impacto no sentido de perturbar a ordem dos sexos estabelecida com base em uma diferença desvelada e contestada ao longo dos anos 1970 e 1980. Como interlocutoras de Beauvoir, feministas norte-americanas como Betty Friedan, Kate Millet e a australiana Germaine Greer, entre outras, lançam-se a movimentos pela emancipação das mulheres, provocando novas iniciativas práticas e teóricas para que a violência sobre os corpos femininos pudesse ser freada.

Para Friedan (1963), as mulheres deveriam reivindicar o poder, destituírem-se da “mística feminina”, abrindo novos espaços para o questionamento do eixo central da sexualidade fundado no patriarcado. Segundo Ute Gerhard (1993), trata-se então de pensar as mulheres não só como submissas, oprimidas, mas de reconhecer e reconsiderar orientações e “valores femininos”.

Surge certa ambivalência na avaliação do que é o feminino na cultura. Teóricas como Luce Irigaray, na França, e as italianas do grupo Diotima, como Carla Lonzi e Adriana Cavarero, postulam a política de uma diferença originária anterior à história, na inegável realidade de que existem dois sexos, já que o “indivíduo é dois”, criticando o tradicional léxico político, no qual o conceito universal de indivíduo apenas convalida um discurso masculino que se emprega como absoluto e visa representar todo o gênero humano.

Essas interpretações abrem-se às leituras e vivências pós-modernas, próprias da denominada terceira onda feminista. Apoiando-se na revisão filosófica dos conceitos de identidade e diferença, novas fronteiras são cruzadas na afirmação da diversidade das mulheres. Desconstroem-se os discursos neutros e assexuados, envoltos nos paradigmas falogocêntricos, desdobrando-se novos espaços relacionais.

O que se torna evidente é a rejeição de grandes teorias, das categorias e conceitos abstratos da racionalidade usados até então. Visa-se superar o discurso racional e propor algo novo, opositivo, espontâneo, particular e válido para contextos e horizontes específicos, como nas teorias de Teresa di Lauretis e Dona Haraway, entre várias outras. Recusam-se as generalizações em torno de uma moral universal.

De outra perspectiva, põe-se também em questão se, na multiplicidade das diferenças, a particularidade contrastiva entre os sexos não perde significado e, portanto, o sujeito político-jurídico “a mulher” não mais se configura como suporte e estímulo da luta por direitos e reconhecimento. As controvérsias se voltam ainda contra o modelo pós-moderno e se questiona a validade da renúncia à autodeterminação das mulheres, no momento em que elas se descobrem a si mesmas como pertencentes a um sexo e não apenas como pessoas isoladas, conforme problematizam Linda Nicholson e Nacy Fraser (1992).

Terceira onda

A terceira onda é constituída, de fato, por uma multiplicidade de feminismos que não visam à hegemonia de uma tese sobre a outra. Nesse complexo processo teórico, a figura de destaque é Judith Butler, especialmente por seus interesses políticos, que dialogam de forma específica com as questões de gênero e de sexualidade e podem ser compreendidos de certas perspectivas teóricas.

A primeira é a revisão da linguagem performativa, a partir do que se questionam os efeitos da linguagem em relação às exigências de reconhecimento e legitimação social e política, indicando como jogos linguísticos de autonomeação enfrentam certa instabilidade anti-identitária.

A segunda, correspondente a sua produção dos anos 1990, responde à violência de certas políticas norte-americanas e propõe uma prática de resistência ao neoconservadorismo e ao neoliberalismo, visando a uma proposta não violenta de democracia radical, que escaparia de um projeto identitário e nacionalista, com a defesa da liberdade e dos direitos civis, numa espécie de revisão das políticas feministas dos anos 1970.

Em terceiro lugar, destacam-se suas teorias de antinaturalização da crítica às presumidas inscrições genéticas no destino de cada indivíduo e de seus desejos e volições, justificadas em supostos fundamentos éticos. Sua proposta consiste numa revisão de níveis de inteligibilidade e de legitimação de ligações “não naturais”, sempre em debate com os feminismos radicais, como se apreende em Gender trouble, de 1990, e em Bodies that matter, de 1993, e em Frames of war: When is life grievable?, de 2009.

Enfim, não se pode desconsiderar os feminismos descoloniais e a possibilidade de uma quarta onda, destinada a rever pressupostos de um pós-feminismo, assim como as leituras sul-americanas dos feminismos, especialmente a da argentina María Luisa Femenías em sua luta contínua contra a violência e em prol da democratização das Américas. Também no Brasil a produção textual e as marchas feministas se destacam ao longo de nossa própria história.

Voltando ao sentido das ondas, tanto nos feminismos quanto em Platão, as dificuldades podem ser lidas como a inserção de realidade numa cidade/sociedade ideal. Monique Canto (1994) entende tal inserção em A República como um ponto de lucidez. Se a sociedade política é o espaço no qual circulam mulheres e homens, em suas funções, elas podem ser tomadas como corpos políticos que tornam possível a vida política, e a procriação se apresenta como o primeiro ato político por excelência. Platão estaria escolhendo as mulheres como referencial de diferença e, segundo sua diferença e alteridade, a cidade lograria ver como bem “a gravidez, a parturição e a povoação”, sem recair na pleonexía, em um desejo desenfreado ou excessivo.

É preciso que a experiência das mulheres invada as leis da cidade e as reelabore sob normas próprias, sendo enquanto força de alteridade que as mulheres provocam “o riso, a crítica e a refutação na Antiguidade grega”. Entretanto, essa é também a condição humana plena de desejos, de medo, de temporalidade e da procura do outro.

As mulheres representam, assim, a necessidade de contínuas mudanças que toda sociedade deve encontrar, apesar do riso e dos riscos envolvidos. As ondas da cidade platônica redefinem o lugar também das mulheres, pois é pela alteridade que se constituirá o sentido profundo e possível da política que se quer justa, mesmo que na pluralidade de vozes para além das simetrias utópicas.

 

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