Dizer o que não se deixa dizer

Dizer o que não se deixa dizer
Exposição "Trouxeste a chave?" - Desenhos de Branca de Oliveira. Galeria Mônica Filgueiras, dezembro de 2013.

Inaugurar tem a mesma etimologia de augúrio. Augúrio vem de “augere” que significa fazer com que algo se desenvolva. Na antiguidade clássica verificavam-se augúrios, por exemplo, no voo dos pássaros e nas tripas dos animais. Movimentos que enviam para fora e entranhas que são o de dentro, eram sinais que ajudavam a compreender o que estaria por vir. O futuro, o depois. O augúrio era a expectativa, mais ainda: a preparação. A partir do augúrio as pessoas se preparavam para um destino, fosse ele agradável ou não. Talvez quisessem encarar a vida de frente sem deixar-se cair naquele papel de bobo que o destino tantas vezes nos reserva. Talvez quisessem fugir do sentimento negativo da traição por um desejo ingênuo de que tudo poderia ter sido diferente. Poderia? Só podemos chamar de destino justamente aquilo que nos aconteceu e apenas porque já aconteceu. O futuro é mais como um invento. Aquilo que se quer ter antes da hora por meio do augúrio.

Há um augúrio interno a toda inauguração. O augúrio é a promessa de felicidade presente naquilo que se inventa. O que se espera com aquilo que se começa. O afeto próprio da invenção é a alegria, sinal augural em tudo aquilo que, afinal, se in/augura. O que se inaugura merece assim um brinde, uma festa. Nas inaugurações, eu gosto do abraço.Um abraço inaugura bem qualquer coisa.

A vida, se pensamos bem, é in/auguração diária, é projeto de atenção aos sinais do dia de hoje que anunciam o dia de amanhã. O amanhã que existe apenas na fantasia presente. Às vezes não há sinais, a vida parece pobre de semiose. É que fomos anestesiados para a nossa faculdade de fantasiar. Fantasias lembram ficções, ficções lembram livros que são objetos fantásticos, cofre onde se guarda o tesouro da imaginação. Pra ver um augúrio é preciso imaginar com força. O futuro não é óbvio. Ele requer leitura.

O que, afinal, serão hoje e amanhã senão páginas do grande livro do mundo a cuja escrita precisamos estar atentos como à senha daquele cofre onde guardamos as nossas verdadeiras riquezas?

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Esse blogue – que nome tonto para uma coisa tão delicada – deseja ser só uma pequena página no interminável livro de areia do mundo. Vou escreve-la como augure e dedicá-la ao gesto inaugural da simples vida que a escrita guarda tão bem. Não é a escrita que pertence ao blogue, mas o blogue pertence à vida da escrita. Espero nele guardar aquela lembrança da vida que justamente nele não cabe. A vida que passa pelos livros e que é atravessada pelos livros. Toda página, também a do blogue, é promessa de voo – para ver mais longe, ver melhor – que vai além do ciberfúndio digital onde fincamos nossas bandeiras, onde estabelecemos nossos cercados. Também a internet pode ser espaço – menos cova – menos medido e mais poético: voo de pássaro que não se comporta segundo territórios e limites. Ver mais longe, compreender o signo de um voo que, por mais incompleto que seja, é o único caminho.

Desaprendemos a ler o livro do mundo. Espero que por meio do voo não seja impossível fazer o caminho inverso.

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Livros dentro do livro do mundo. Livros, metonímia da vida. Livros como metáfora para asas. É de livros que irei falar praticando a crônica-crítica no ato da leitura. Condensando a expressão, chamarei de cronocrítica à minha leitura afetiva. Sei que o limite de todo discurso é o afeto sincero ou insincero que o anima. O endereço dos textos publicados aqui no blogue é a casa do meu leitor que, por qualquer motivo, ame os livros como eu.

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Ando lendo Hilda Hilst. Sua obra tem sido companhia tanto em dias ensolarados quanto nublados. Casei-me com ela: durmo e acordo carregando o seu mundo em códice. Companheira de todo cansaço, de todo estupor diante do caos vivido, ela não me interrompe, não me pede nada, só ri comigo. Procuro-a, personagem da vida real, na luz e na sombra de suas páginas. Penso em como se divertia, vejo-a rindo ao escrever aquela parte de sua obra (a adorável parte pornoliterográfica) e de quem se vingava: o mercado editorial. Ninguém mais do que ela percebeu o esquecimento da arte na obra literária, a sua transformação naquilo que se chamava antigamente de gosto burguês  – que sempre finge não ser gosto algum, mas a pura natureza verdadeira das coisas. Ninguém melhor do que ela percebeu o rebaixamento da obra literária à mercadoria. Hilda como muito bom escritor, se “fodeu”… para usar um termo caro à sua alta epistemologia…

Nesses tempos sombrios, os livros de Hilda Hilst tem sido água no meu deserto. Quem, no deserto da vida urbana em que vivemos, encontrar Hilda terá a melhor companhia para a melhor solidão, a que se encontra num livro. A minha sorte anímica, bálsamo de ferida, essas coisas, é isso o que os livros de Hilda Hilst fazem comigo: me põem a dormir e acordar pensando que a vida também pode ser um deboche. Que há como se divertir com isso que é viver.

Dedico a ela esta minha inauguração, porque escrever tem muitos sentidos, mas sobretudo, o melhor deles, diz respeito à simples alegria da alma que Hilda tem me dado. Essa alegria que não cabe na estante, que nasce das páginas de um livro aberto. Essa alegria que, sonho, o povo também há de descobrir (a militância da leitura é a militância pela alma).

Convido o meu leitor, que me acompanhe nesse voo para ler mais longe, ler mais, ler demais. Ler o que não se deixa ler em um mundo em que há que se dizer o que não se deixa dizer.

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