Derivas do tempo

Derivas do tempo
(Arte Revista CULT)
Vivemos num tempo que produz arquivo em ritmo incessante e exagerado. A quantidade de informações, fotografias e textos que a cada dia entra por nossos olhos, ouvidos e memória talvez nunca tenha sido tão grande. A tal ponto que já não é surpresa nossa incapacidade de os processar: a hipertrofia da memória vai hoje de par com a incapacidade de amalgamar qualquer experiência dela ou mesmo de ter uma relação efetiva com essas informações. Isso é visível no mais habitual dos gestos, que denuncia talvez que ninguém mais precisa se lembrar de nada: basta, com a leveza de quem põe a mão no bolso, transferir a memória para a máquina e perguntar ao Google. O curioso aí é que a hipertrofia se inverte e o peso que poderia significar havermos nos tornado o repositório desse passado e dessas informações se suspende na leveza com que nos separamos dele, mesmo que seja somente para o manter próximo. O arquivo certamente não desaparece, e esse deslocamento que lhe imprimimos talvez não faça mais do que abrir um vão, pelo qual respiramos e podemos ter ainda alguma relação com ele. A começar por um poema do livro Aceno (2014), de Tatiana Pequeno, que parte de uma fotografia, gostaria de ver retornar também em outros contemporâneos uma transfiguração radical desse gesto: à deriva com mar ao fundo há uma imagem muito preciosa de nós. por meses ela acompanhava o abrir in voluntário da caixa de mensagens e o dia outonal da tua presença chegava mais veloz para a reserva dos voos de ir ao encontro da tua larga omoplata de receber. a fotografia ar

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