Das grades à cidade, da uniformidade à singularidade
Edição do mês
Um dos dormitórios do Hospital Psiquiátrico do Juquery em 1974 (M. Guaranha/Arquivo Público do Estado de São Paulo)
“Os loucos são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão.”
Arthur Bispo do Rosário
Ao cruzar o portão do hospital psiquiátrico, o confinamento não se anunciava apenas pelas grades ou pelos corredores vigiados. Ele se consumava na troca ritualística: as roupas pessoais – testemunhas da história íntima, das afeições cotidianas, dos vestígios da vida fora – eram confiscadas. No seu lugar, uniformes idênticos marcavam os novos moradores com a tinta indelével da exclusão. Espaços entre grades, pátios de sol para alguns momentos, comida em bandejões. Tudo operava como um dispositivo de anulação meticulosa.
Ali não havia mais história individual, apenas uma categoria coletiva: os “loucos”, os “perigosos”, aqueles com os quais a sociedade já não podia e não queria conviver. O manicômio não era mero abrigo, mas máquina de apagamento identitário, onde o corpo perdia nome e passado. A lógica desvelada pelos estudos da psiquiatria crítica: a roupa não apenas veste, ela disciplina e classifica.
Mas esse funcionamento, em ambientes superlotados, insalubres, muitas vezes sem camas, que se perpetuou por décadas, encontrou resistências que primeiro sussurraram, depois irromperam. Enquanto eletrochoques e contenções violentas marcavam corpos nos manicômios, figuras pioneiras como Nise da Silveira acreditavam que a argila e a tinta podiam reconstituir realidades psíquicas habitáveis. Seus pacientes não eram “casos clínicos”, mas criadores. Nise se tornou conhecida, suas exposições circularam pelo Brasil e
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