Privado: CORDAS

Privado: CORDAS

Foi preciso comprar a corda na loja de ferragens da rua de trás, onde um homem gordo, de óculos e barba por fazer, suores mal lavados manchando a camiseta de algodão sem mangas, passa o dia na mira da televisão semelhante a um rádio, tendo sobre o balcão a sua frente um copo d’água que enche de pedras de gelo em intervalos curtos. É este homem, vertendo o líquido gelado e espalhando as pedras transparentes no pescoço vermelho de calor, que me venderá a corda, olhando-me através das lentes, através do copo, através da água. Não temos nada em comum que não seja o balcão, ele atrás, eu defronte, a venda e a compra. Ou será a contramão da história, ele indo, eu voltando, o tempo de quem fica e o tempo de quem vai? Ou será a sede, aquela que o umedece, a que me falta?

Não, não será a sede. A sede voltará minuto a minuto. Ele encherá a forma quadriculada com a água da torneira, abrirá o frigobar sob o balcão, depositará o recipiente plástico, voltará a fornir o copo com as pedras semivisíveis e não terá passado mais de um minuto.  Erguendo-as no bojo das mãos ásperas em torno do grosso pescoço revestido de gordura e pelos, como quem delicadamente se perfuma, ele não desviará o olhar da televisão, a não ser para retirar das prateleiras os materiais pedidos, quando outro como eu, alguém, ninguém, entrará na loja esperando atenção.

Os olhos escondidos atrás das lentes não dizem a hesitação que deixa o copo de lado. Não adivinho seu cálculo, se cobrará o da tabela ou acrescentará um pouco mais. Não haverá desconto, não pedirei. Procura a corda, não pergunta o que vou fazer com ela, diz-me sério em sua atividade plástica, sempre de olho na televisão, que a espessura boa para varais é bem menor, que há ainda mais finas, as usadas por crianças para colocar bandeirinhas na escola, que ninguém mais compra cordas grossas como estas, deste material ultrapassado, isso era do tempo em que se andava a cavalo, em que se transportavam pianos. Sequer toca-se piano hoje em dia, sabe que é um instrumento de cordas como o violão, nem pensar, instrumento de corda é coisa para gente fina, afirma no resmungo meio gutural, que cessa apenas quando gira a roldana, onde o fio bem cardado está preso. Com um sinal da cabeça, segurando uma potente tesoura de jardinagem, finalmente me olha sinalizando o tamanho, aqui, ou maior, pergunta-me ainda sem falar, não é preciso, olha-me como quem afirma algo que preciso saber, como se tivesse descoberto o próprio medo. Surpreende-me dizendo de uma vez, com os olhos fixos nos meus, coisa de assustar, que a corda é do tamanho do meu medo. Cresce em mim o medo que o mantém vivo, o mesmo que me mata.

De que vive a senhorita, se eu que vivo de vender prego, martelo, arame e alicate, torquês e pé-de-cabra, lâmpada, roldana, cabo de vassoura e ganchos de todo tamanho, como a senhorita pode ver? A que mundo pertencerá, se precisa de uma corda tão volumosa, é artista? Se fosse artista iria à loja da outra rua, onde vendem cordas de violão – ou trabalha no circo? Vá me desculpar, não se ofenda, diz oferecendo-me a água, as pedras de gelo e um resto de finitude incontida nestas tantas perguntas sem sentido. Digo-lhe que estou com pressa, preciso só de dois metros, é para a oficina de meu pai, que há de amarrar umas tábuas com firmeza. Quanto custa, menos de dez o metro, me responde, a mais fininha é mais cara, é encerada, hoje inventam de tudo para ter o que vender. Eu não reclamo, ele me diz. Peço o comprimento básico. Não reclamo, ele retoma, vivo disso, de que vou reclamar? Também eu não reclamo, pago a mais do que me cobra, não tenho tempo de pensar nas notas de papel que trago na carteira, se o valor corresponde ao objeto, peço-lhe que não embrulhe, levo na bolsa. Melhor guardar bem, são as palavras que me reserva, como quem acorda de repente para o que vim fazer ali. Olha, moça, ele ainda insiste, mesmo sendo uma coisa qualquer, merecia ser bem embrulhada, vai que seu pai não use agora, se for preciso guardar, é melhor conservar direito. Pense um pouco, diz-me, enquanto os dedos gordos e pequenos enrolam o papel pardo. Não precisa se preocupar com algo tão grosseiro, aviso, que meu pai não se importa, o senhor tem que ver a oficina, um desgosto, não entendo porque conto estes detalhes, pregos enferrujados, nada destes pregos limpinhos que o senhor tem aí, nada destes arames virgens, só coisas que matam, fazem sangrar os dedos, aqueles pregos enferrujados, tetânicos, só uma corda pra pôr ordem no que não tem, não sei porque falo tanto, na oficina do meu pai morre um pedaço, morre outro, sobram alguns que unirei com as cordas agradecendo a ajuda do vizinho.

*

Mulher, a moça era feia como um espelho trincado, o cabelo azulado, a roupa era uns trapos de chão, disse que tinha pai operário na oficina, eu duvido que tenha pai, me enganava com olhos dirigidos pros meus ombros, pro meu pescoço, parecia uma vampira, como se quisesse saber o que estava atrás de mim, perguntei o que queria com uma corda, disfarcei, não foi assim direto, claro que eu disfarcei, eu que não ia me meter com a vida dessa gente estranha e desconfiada, vai que esteja doente e precise morrer, que seja daquelas que acham que precisam da morte antes da morte, não é a primeira vez que vendo essa corda, vai que precise da antecipação do fim, que tenha essa bobagem dos apressados, uma prepotência, uma burrice, uma falta de percepção, do que fazer, de laço com a família, de função na vida, mas vai que precise, mais do que queira, é o que eu nunca entendi, que precise morrer antes da morte, é a coisa que mais me impressiona, a falta de lógica deste povo, quem não sabe que a morte tem sua hora? Eu tenho a minha, você a sua, cada um dura o quanto convém à hora de cada um, quem não respeitaria esse jogo, o jogo da vida, tem a vez da morte, se a borboleta precisa ser lagarta e a cigarra precisa ser besouro, é que antes vem a vida e depois vem a morte, não adianta evitar, mas tem é que haver mais respeito, é um acerto da natureza, é uma organização das coisas, podia ser diferente, mas não é, e não sendo, é assim mesmo, a vida não é linha e fim de linha, é mais o conjunto dos nós, e não é o que se ata e desata a hora que bem se entende, a vida não é linha de costura, quase que eu disse, é mais parecida com agulha, é o que eu ia dizer para ela, que não merece a vida aquele que não sabe conviver com os nós, mas eu não quis me meter, mas vai que se fizesse de tonta, eu também não quero julgar, se bem que com aquele cabelo era louca mesmo, e não convém brincar com gente louca, tem quem se faz de tonto, nem todo mundo se faz, uns são, e vai que ela fosse, e vai que estivesse fingindo, e vai que fosse doente, fosse desse tipo de gente que fica triste porque nasceu e vai morrer, falta de realidade, falta de ver televisão, de pensar nas contas do final do mês, esses que ficam pensando em morrer me dão muita canseira, como se tivesse que ser diferente, são uns atazanados que não percebem que a vida tem lógica, quem não aceita a lógica é burro, ou está fingindo, vontade de dizer a ela que a falta de lógica é que estraga tudo. Queriam ter três olhos, duas bocas, cinco braços? A ordem das coisas é a ordem das coisas, cada um que nasce assina um papel a ser desempenhado, cada um que nasce decide, mesmo quando esquece o que decidiu, viver é um milagre atrás do outro, ah, se eu fosse pastor de igreja, o mundo não estaria assim, neste jogo sujo, sujo, comigo ia ser sem perdão, quem quer decidir acha que uma cordinha frouxa mesmo parecendo forte vai resolver o problema, depois fica este monte de alma penada trafegando pelas ruas sem ter para onde ir, acreditando que ainda tem futuro, esperando salvação, vindo conversar com a gente com aqueles olhos esbugalhados, eu vi que aquela ainda estava viva, quando vi olhei bem dentro dos olhos pra ver se ela reconhecia que tinha sido pega em flagrante, mas duraria pouco, vendi a corda, que eu não sabia bem que atitude tomava, depois me deu uma pena, uma pena, que eu saí pra rua e chamei, moça, moça, volta aqui que a senhorita esqueceu o troco, mas ela já tinha dobrado a esquina.

O conto acima foi publicado na linda Revista Coyote que está nas bancas. Agradeço à minha amiga Aurora da Graça Almeida de São Luís do Maranhão que o digitou inteiro já que eu não o tinha mais no meu computador.

(TIBURI, Marcia. Cordas. Coyote, Revista de literatura e arte, Londrina, n. 23, 2011)

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