Ascensão e queda de Decotelli, o breve

Ascensão e queda de Decotelli, o breve
Entre fraudes e plágios, desmoronou o edifício de títulos de Carlos Alberto Decotelli (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

 

Depois de duas desastradas escolhas de ministros da Educação, parecia que desta vez Bolsonaro havia caprichado na seleção. Decidiu-se por um ministro conservador e bolsonarista, como lhe era de direito, mas pelo menos foi procurá-lo fora do cesto dos olavistas, seita do bolsonarismo que defende ser a missão básica de ministros a promoção de uma reforma moral de mentalidades e valores, expurgando tudo o que tiver gosto e pinta de progressista, esquerda e liberal, colocando em seu lugar o que for conservador, reacionário ou de direita.  

Olavistas, como se sabe, sentem-se profetas de uma guerra santa contra o Mal, que consiste nos valores provenientes do Iluminismo, do Humanismo cristão, da Democracia e do Liberalismo político. Naturalmente, com rótulos modificados, posto que seria desmoralizante assumir como um obscurantismo, um anti-humanismo e um movimento autoritário. Então, camufla-se com nomes novos: ao humanismo se chama esquerdismo, ao iluminismo de comunismo, à democracia de ditadura, ao liberalismo de pedofilia, gayzismo e feminazi e por aí vai. 

O ministério da Educação, sempre entendido como um imprescindível aparelho ideológico para se conseguir acesso às mentes e aos corações das criancinhas e dos jovens, parece, portanto, uma plataforma natural para o proselitismo bolsolavista, razão pela qual o presidente foi por duas vezes recrutar na seita olavista os pastores responsáveis pela conversão cultural dos brasileiros, os ministros titulares da pasta. 

Contudo, ante a assombrosa incompetência de Vélez e os problemas com o STF causados pelos excessos de fervor ideológico de Weintraub, Bolsonaro, que está nas cordas há pelo menos três semanas, resolveu usar o ministério para sinalizar uma nova fórmula de escolha de integrantes do primeiro escalão. 

Achou um sujeito risonho, com jeito de quem não quer briga com ninguém e falando que implementaria uma gestão técnica. Isso soava como música depois da histeria fanática de Weintraub. Além disso, o moço de cara bonachona era negro, ou pelo menos não branco. E o governo precisa estrategicamente de uma cota de negros que possa ser usada para defender-se do argumento de que é racista. Afinal, é para isso que servem o deputado Hélio Negão, o seu mais constante background de fotos e vídeos, o presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e, agora, enfim, no primeiro escalão, para que serviria “aquele moreno do FNDE”, como a ele se referiu o presidente, segundo O Antagonista.

Por fim, é sabido que Bolsonaro e a extrema-direita, apesar de um discurso de fachada de desprezo pelas instituições universitárias e de um autêntico anti-intelectualismo e anticientificismo, têm uma inegável volúpia por títulos acadêmicos de pós-graduação, principalmente o doutorado, principalmente se forem obtidos em universidades gringas. E assim, foi com pompa e desejo de impressionar, que no dia 25 de junho Bolsonaro anunciou o novo titular da Educação: Mestre pela FGV, Doutor pela Universidade de Rosário, Argentina, e pós-doutor pela Universidade de Wuppertal, na Alemanha. Que maravilha! Quanta qualificação. 

Pois não é que a farsa dos títulos de Decotelli não parou em pé uma semana sequer? Primeiro, foi o reitor da universidade argentina de Rosário, que replicou o tweet em que Bolsonaro proclamava o doutorado do seu eleito para dizer que aquela universidade nunca havia concedido um título de doutorado a Decotelli. Nos dias seguintes, descobrimos que o título sequer existia porque a tese havia sido reprovada e não foi reapresentada. Definitivamente, Decotelli não era nem nunca foi doutor. 

O passo ulterior foi a declaração da Bergische Universität Wuppertal, onde alegadamente Decotelli teria feito um pós-doc, de que isso nunca aconteceu. O “pós-doutorado” declarado por Bolsonaro e constante do Lattes do ministro, nunca se deu. Em seguida, a própria dissertação de mestrado de Decotelli começou a desmoronar. O prof. Thomas Conti, do Insper, foi a primeiro a denunciar que pelo menos 10% do documento era produto de plágio. Dias depois, o prof. Enrico Resende, da Universidade Católica do Chile, disse ao Jornal Nacional que havia encontrado plágio em 70% plágio na tese. Uau!

E assim, entre fraudes e plágios, desmoronou o edifício de títulos do ministro de maior mérito acadêmico do governo Bolsonaro, e, com o castelo de cartas dos títulos, desabou a própria indicação. Caiu Decotelli, o mais titulado, o mais breve e, provavelmente, o melhor ministro da Educação do governo Bolsonaro. 

Alguém chegou a alegar que era uma bobagem, que no Brasil se dava importância demais a títulos acadêmicos e que isso não provava competência. Bem, títulos provam ao menos mais anos de estudos, mais pesquisa e mais especialização em um determinado assunto ou objeto. E quanto à excepcionalidade brasileira, acho que não é bem assim. Lembro que em março de 2011, caiu, por questões de títulos e acusações de fraude em tese doutoral, o então ministro alemão da Defesa Karl-Theodor zu Guttenberg, que era nada menos que o provável sucessor de Angela Merkel. Caiu depois que a Universidade de Bayreuth cassou-lhe o título de doutor em Direito, por causa de plágio. E plágio, creiam todos, é uma das infrações mais hediondas do mundo científico, pois basicamente significar roubar o trabalho e a criatividade dos outros para benefício próprio. 

O curriculum Lattes, que Decotelli, falseou, é coisa séria para a ciência brasileira. É, aliás, uma das grandes inovações da gestão de ciência e tecnologia no sistema nacional de pesquisa científica. Trata-se de um banco público de currículos acadêmicos, de acesso universal e baseado em um compromisso de fé pública, assinado ao final do preenchimento ou da atualização do currículo, de que o que ali se consigna é mais completa verdade. É um sistema baseado em confiança e integridade, mesmo porque em ciência e na vida universitária a mentira e a fraude têm pernas curtíssimas e a punição a quem frauda é o desprezo da comunidade científica, o cancelamento de títulos e dos empregos deles decorrentes, a perda de prestígio e respeito. Violar um sistema de confiança e integridade é desrespeitar toda a comunidade científica e acadêmica e isso não pode passar impunemente. Decotelli não cometeu um erro tolo e sem consequências, ele violou o pacto de integridade que sustenta o sistema de autodeclarações da plataforma Lattes. Gravíssimo.

O pós-doc era falso, o PhD era falso, a dissertação de mestrado tinha plágio. Problema? Decidam vocês. Se descobrisse que o novo presidente do Banco Central falsificou dinheiro, o manteria no cargo? Poderia o “ministro da Justiça” ser sabidamente um sonegador ou assassino? 

Há falhas e falhas no currículo e na imagem de pessoas públicas, mas algumas dessas são certamente incompatíveis com as funções que as pessoas se credenciam a exercer. A fraude de Decotelli o desqualificava para o ofício para o qual tinha sido nomeado. O ministro cuja função é zelar por títulos e diplomas acadêmicos no Brasil não pode ter falsificado os próprios títulos. Não reunia mais condições morais para ocupar o cargo mais importante da educação brasileira. “Fraude em título acadêmico” e “plágio” nem deveriam aparecer na mesma frase com “ministro da Educação”. Triste pasta. O ministro caiu e, como sempre no governo, preparem-se para um pior.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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