As distopias de George Orwell

As distopias de George Orwell
O escritor inglês George Orwell, autor de '1984' (Foto: Reprodução)

 

Vivemos num mundo estranho. Mundo em que o editor da importante Harper’s Magazine aparece na CNN afirmando que a imprensa americana conspirou com o governo Bush, na construção de uma farsa – a farsa da ameaça iminente das armas de destruição em massa do Iraque, justificativa para a tomada de poder naquele país. Um mundo em que precisamos de alguém como Michael Moo­re e seu jornalismo humorístico para derrubar a linguagem ofi­cialesca da imprensa e das salas dos relações públicas e expor o grotesco por trás das decisões políticas e corporativas (agora mais do que nunca, com o acúmulo dos meios de comunicação nas mãos de poucos). Mundo em que o assento do poder parece ditar a política do Estado, e não as ideologias ou os votos do eleitorado. Estranho mundo em que há uma guerra eterna contra um inimigo invisível.

“Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”, escreveu George Orwell em 1948, no que chamou de “dupli­ pensar” – um dos aspectos centrais do seu romance 1984 –, expressão de suas angústias diante das novas estruturas de poder no pós-guerra, com o mundo dividido em grandes blocos de pensamento ideológico.

Um dos autores de maior impacto no século 20, Orwell também se tornaria um dos nomes mais reconhecidos da ficção científica (FC), graças, principalmente, às suas distopias A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949). As obras anteriores a essa última fase são romances como Dias na Birmânia (1934), que aproveita sua experiência no serviço da Polícia Imperial Indiana (1922-27), ou A filha do reverendo (1935) e O vil metal (1936), já assinalando a sua tendência para a crítica social e para o socialismo.

O primeiro golpe contra a sua convicção socialista se deu na Espanha, quando ele enfrentou os comunistas que tentavam esmagar seus oponentes políticos dentro da aliança republicana. O relato Lutando na Es­pa­nha (1938) é resultado dessa experiência, que também o pressionou a escrever A revolução dos bichos e 1984 como denúncias aos descaminhos da Revolução Russa, sob a forma de distopia – a descrição de um lugar fora da história, em que tensões sociais e de classe estão aplacadas por meio da violência ou do controle social.

A FC distópica se tornou, durante todo o século 20, uma forma popular, respeitada e bastante internacional. Seu gérmen já existia no século anterior, como se vê em A máquina do tempo (1895), de H.G. Wells: um Viajante do Tempo encontra no futuro distante as classes subalterna e superior transformadas em duas espécies diferentes, uma predadora da outra.

Um marco no século 20 foi o romance do russo Ievguêni Zamiátin, no clássico A muralha verde (tradução de We, que depois também seria traduzido como Nós), escrito em 1920 e que provavelmente originou tanto Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley, quanto 1984 de Orwell. De fato, Za­miátin pode ser visto como pai da distopia moderna, além de antecipar no romance o clima do stalinismo que se abateria sobre a União Soviética em 1924. Ele, porém, já tivera contato com a FC na tradição do “romance científico”, pois havia produzido prefácios para edições russas de obras de Wells.

Talvez emprestando de A muralha verde a noção de uma pessoa requisitando outra para o sexo, Robert Silverberg publicou em 1971 o impressionante Mundos fechados: a superpo­pulação e o constrangimento ambiental do futuro gera uma intensa promiscuidade como válvula de escape, a ponto de não existir o direito à recusa. O escritor inglês L.P. Hartley também se aventurou no subgênero com Justiça facial (1960), em que a identificação individual é destruída pela imposição de um único rosto a todas as pessoas. A distopia sueca Kalocaína (1940), de Karin Boyle, radi­caliza a busca do estado totalitário pelo controle dos corações e mentes das pessoas, com a invenção do soro-da-verdade perfeito. Em Farenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, os bombeiros existem como uma polícia política, encarregada de queimar livros, em uma sociedade onde eles foram abolidos e as pessoas são controladas com doses maciças de televisão e drogas. Ler é um ato criminoso.

Eventualmente a distopia che­gou à literatura brasileira. A variante nacional mais caracterís­tica talvez seja aquela cen­trada num mundo futuro de sexo livre, como na série de narrativas interligadas de André Carneiro – o conto “Diário da nave perdida” (1963) e as novelas Piscina livre (1980) e Amorquia (1991). A melhor realização dessa tendência, porém, é O outro lado do protocolo (1985), de Paulo de Sousa Ramos. Nessa novela elíptica, o narrador viaja ao futuro por meio da máquina cons­truída por um colega, que o hospeda e guia por uma sociedade aparentemente utópica. Essa obra, assim como a série de Carneiro, empresta elementos de Huxley, mas provavelmente também é influenciada por Za­miátin e Orwell.

A revolução dos bichos é uma fábula sobre animais falantes em uma fazenda. Eles se revoltam contra a tirania dos homens, mas logo a revolução e sua promessa de liberdade se corrompem em um novo sistema opressor, agora com os porcos no topo da pirâmide da exploração.

Há algo de intrigante e talvez de irresistível nessa forma de alegoria. O livro foi imediatamente visto como crítica áspera ao stalinismo e, apesar do formato, costuma ser citado em listas dos melhores da FC. É visto como uma FC recursiva – que retorna a algumas das raízes do gênero (fábulas, lendas, contos de fadas). Como Cidade (1952), de Clifford D. Simak, em que a Terra abandonada pelos homens termina habitada por animais inteligentes que contam, ao redor de fogueiras, fábulas sobre os seres humanos.

A fábula de Orwell parece convidar respostas ou continuações semelhantes, que possam recorrer ao mesmo banco de tradições formadoras. Exemplos são Fazenda modelo (1975), de Chico Buarque, que usa o esquema alegórico contra o regime militar brasileiro, e mais recentemente Snowball’s chance (2002), de John Reed, que traz as situações e personagens do livro de Orwell para o contexto do fim da União Soviética: o por­co-líder Bola de Neve descobre sua vocação para o capitalismo redivivo.

1984 também é visto como uma feroz crítica ao stalinismo. Há um objeto de culto perso­na­lista, o Grande Irmão. Também há falta de privacidade, espiões dentro da própria família, atividades coletivizadas, desaparecimentos e execuções, e a combinação de propaganda maciça com a constante revisão artificial da história, exigindo das pessoas o “duplipensar”, o registro mental de idéias conflitantes. Mas o que permite à ditadura de 1984 existir “fora da história” não é apenas o controle da informação, mas o mundo dividido em blocos político-militares em guerra constante. O protagonista Winston Smith vive como um dissidente silencioso, num Estado totalitário total que não dá qualquer saída para o indivíduo. Os “atos subversivos” que Smith comete são escrever um diário, apaixonar-se pela jovem Julia e com ela tentar ingressar em uma suposta orga­nização revoltosa. O enredo propriamente é fraco. Dar a ele mais suspense e reviravoltas seria minar a intenção principal do autor, que é sublinhar a impotência do protagonista diante do poder implacável do Estado.

Orwell escreveu suas disto­pias a partir de suas ansiedades intelectuais, mas também, como Zamiátin, a partir de uma experiência pessoal. Mas e quanto a possíveis influências literárias?

1984 faz parte da tradição dos “contos cautelares”, que aler­tam o leitor para uma tendência presente que pode se tornar catastrófica no futuro. Um dos principais autores de contos caute­lares foi H.G. Wells. Vale compa­rar a cena em que Smith e Ju­lia ingenuamente conversam sobre a heróica resistência que pretendem impor contra o regime com aquela em A guerra dos mundos (1898), de Wells, em que o alter ego do autor discute com o personagem “artilheiro”, em termos não menos heróicos e não menos fúteis, a resistência futura contra os invasores marcianos que assolam a Terra.

A maior influência, contudo, é claramente o livro de Za­miátin. Em A muralha verde, o grande líder é chamado de “Ben­feitor”; em 1984, de “Gran­­de Irmão”. No primeiro livro, há selvagens vivendo por trás da muralha verde do título, fora do alcance do regime; no outro, o proletariado urbano, descrito com carinho por Or­well, cumpre esse papel de reserva de humanidade. Em um, a falta de privacidade é simbolizada por residências transparentes; no outro, pelo televisor que tudo registra. Em ambos, o protagonista apaixona-se por uma mulher escultural e rebelde, que é traída por ele. O primeiro é desenvolvido como o diário de D-503 (no futuro, não teremos nomes, mas números), enquanto o drama de Winston Smith começa quando ele abre o seu diário, embora o romance se desenvolva na terceira pessoa. As coincidências são tantas que se torna difícil não pensar em plágio. Uma alternativa é enxergar A muralha verde como um laço passado pela primeira vez em torno do horror do totalitarismo e 1984 como a obra que apertou esse laço de modo ainda mais sufocante. Tanto que o estilo poético de Zamiátin dá lugar às descrições naturalistas de Orwell, que enfatizam a situação materialmente difícil sob o regime, a dor e a tortura às quais Smith é submetido.

O que dizer da importância do romance, agora que nem há mais uma União Soviética?

Orwell não endereçava a sua crítica apenas à URSS, mas também ao partido trabalhista inglês e à polarização Ocidente/Oriente. Ao descrever os mecanismos do totalitarismo, ele deu a 1984 a qualidade protéica que lhe permite superar o contexto histórico que o inspirou. Há usos pa­ra todas as ocasiões – como o da edição popular da Signet americana, de 1950, que en­fatiza, pela ilustração de capa de Alan Hass, o aspecto sexualmente repressivo do regime de 1984, mais em sintonia com as preocupações dos americanos que viviam um momento conservador nessa área.

A oscilação da narrativa entre extremos pessoais (os gestos do próprio Smith, enquanto criança, de exploração da sua irmã menor) e ideológicos, entre ficção e não-ficção (pela colagem da cartilha do pseudomovimen­to de resistência), entre o amor sexual e o amor pelo regime, flexibiliza o relacionamento do romance com suas fontes ins­piradoras e sinaliza a tendência para o autoritarismo em todas as sociedades – mesmo nas democracias ocidentais.

No plano literário, o romance projeta uma profunda desconfiança quanto à linguagem. Orwell compreendeu e explorou o seu aspecto ontológico, capaz de criar a realidade, ou delimitá-la: o objetivo final do re­gime é controlar o pensamento, por meio da “novilíngua”, artefato linguístico que oblitera a língua anterior e suas ferramentas de racionalidade e lógica. Nesse sentido, Orwell antecipa preocupações pós-modernistas que se tornariam dominantes na segunda metade do sé­culo 20, especialmente as expressas como “metaficção”, definida por Patricia Waugh (Me­tafiction: The theory and practice of self-conscious fiction, 1984) como “escritos [que] não só examinam as estruturas fundamentais da narrativa de ficção, [mas que] também exploram a possível ficcionalidade do mundo exterior ao texto fic­cional literário”.

O que Orwell não faz, em comparação com os atuais escritores de metaficção, é incorporar essa desconfiança no seu próprio texto. Ao contrário, ela é projetada para fora – para o uso político de uma linguagem que ele já via rascunhada no pre­sente. Orwell enfraqueceria a eficácia do seu conto cautelar se minasse a força da objetividade do seu próprio texto. Mais do que isso, há nele uma urgência pelo uso da palavra e pela expressão do seu descontentamento. Afinal, o primeiro gesto subversivo de Winston Smith é escrever em um diário.

Contudo, um componente estrutural da narrativa distópica que ele incorpora ao romance, em uma chave que poderíamos chamar de metaficcional, é o papel do dissidente.

Nenhuma das obras citadas existiria se não houvesse a figura de um dissidente que observa, com um olhar próximo do nosso, o mundo totalitário. De outra forma não haveria conflito, pois a própria ideia de um regime totalitário absoluto pressupõe a ausência do choque de opiniões e de posturas. O dissidente ou é estranho à dis­topia, levado a ela como em Admirável mundo novo ou O outro lado do protocolo, ou ele de algum modo emerge no seio do regime. Assim, embora seja uma forma pessimista, a distopia apresenta em sua própria estrutura um alento de esperança: sempre haverá alguém que não se submete.

Orwell, que estava morrendo de tuberculose enquanto escrevia 1984, não queria essa saída. Para que o seu conto cautelar tivesse eficácia máxima, seria preciso fechar todas as portas possíveis e afirmar apenas o desespero. O seu pesadelo literário é construído em torno da destruição da personalidade do seu dissidente, Winston Smith, após uma chocante sessão de tortura física e mental.

A tendência para o auto­ri­ta­rismo (de esquerda ou de direita) persiste em nosso mundo or­welliano de latifúndios mi­diá­­­ti­cos e de pressão para novos alinhamentos, agora em torno da guerra eterna contra o inimigo invisível do terrorismo. O grito de George Orwell para que nos acautelemos continua válido.

ROBERTO DE SOUSA CAUSO é escritor, autor do livro Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950 (Editora UFMG)

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