As boas-vindas
Edição do mês
Sobrevoam o leste da Península a uma altura de 300 metros. Abaixo do avião, o traçado urbano se transforma; o oceano, por sua vez, parece imóvel. Uma cortina de água branqueia o ar e agita a sombra azul-escura do Cessna sobre a costa azul-clara. Elevas a potência para ganhar altura e corriges imediatamente o equilíbrio lateral com uma precisão que é um gesto. Não tens que olhar para Gabriel para saber que aprova. Tem os cabelos oleosos e longos, presos num rabo de cavalo, e usa óculos redondos estilo John Lennon. Chupa pastilhas de menta que deixam suas mãos meladas, algo que não te incomodaria se não tivesse o costume de tocar nos teus ombros toda vez que fala contigo. Queixa-se da chuva pela terceira vez esta manhã; dizes-lhe que a tormenta é boa porque extingue os focos de incêndio no oeste.
Como estás obcecada com isso, diz. Há tantas coisas a se fazer com um avião.
Sim, como ser piloto florestal.
Checas o nível de combustível para te esquivar dos olhos, que sentes fixos na tua nuca. Dizes a Gabriel que é necessário, que é preciso ajudar como for possível, mas arrependes-te no ato; irrita-te o tom ingênuo que soa teu propósito, ao menos sob sua perspectiva sempre irônica, sempre derrotista, e fixas o olhar no painel para ignorar sua careta tola. Esta manhã está sorridente demais; prestas atenção e percebes que disfarça com pastilhas um bafo amargo de álcool. Há alguns dias o vês diferente, já não é o mesmo instrutor distante que admiravas por sua experiência em cartografia aeronáutica, tampouco o trintão que te narrava seus dramas com mulheres. Agora habita essa beirada difusa entre um conhecido de quem sabes muito e um amigo de quem sabes pouco.
Quando te aproximas do monte, a chuva fica mais forte, bate no teto como se fosse de lata. Trezentos metros abaixo de ti, avistas a fumarada de um fogo que se apaga a duras penas. Há barracas, há cabanas, há campings ocultos na densidade dos pinhais meio desfolhados na encosta do Cañadón.
Nasci mais ou menos por aqui, diz-te Gabriel.
Assentes, concentrada no altímetro.
Uma vez, meu velho caçou um cervo, e eu fui com meu irmão e o enterrei. Ele queria que disparássemos. Tínhamos 11 e nove anos. Aproximamo-nos correndo, e o bicho mexeu a cabeça e como que brilharam seus olhos, me deu uma pena, tu morres. O velho nunca nos perdoou.
Por quê?
Desde então lhe parecemos fracos.
A voz de Gabriel tem um timbre ansioso. Ouves como se altera o ritmo da sua respiração. Diz que por muito tempo quis deixar de ser isso, mas que é preciso aprender a se conhecer e aceitar o que se é, por seu próprio bem e pelo bem de todos. Também te diz que tu, ao contrário, nunca demonstras fraqueza. Dizes-lhe que é porque te entusiasmam as coisas que te custam, e o entusiasmo vence o medo. Gabriel passa um dedo pálido pelo trinco da portinhola de cima a baixo, fazendo-a estalar. Por fim, tu o miras nos olhos: vermelhos como se estivessem injetados. Com uma das mãos, num espasmo, oferece-te a última pastilha.
É muito lindo o que disseste. És boa, Clara. Creio que estás pronta. Vais poder aterrissar sozinha.
Então abre o trinco e salta.
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(tradução de victor kutz)
Milagros Porta estuda artes da escrita na Universidade Nacional das Artes (Argentina), é editora da revista Taipei e, em 2022, publicou o livro de contos Aguamala(Hexágono Editoras)




