A harpa fantasma

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A harpa fantasma

 

Através da bruma de teu delírio de ópio, tu escutas o discurso do Profeta que flutua no rio. A fanfarra embriagada dos clarins soprados por jovens gendarmes enche de alegria o toque dos tambores que anuncia a independência. Ao fundo, quase extinto pela distância, ecoa o som atemporal de uma kora dedilhada por mãos habilidosas, a música ancestral de um griô vinda de séculos muito anteriores a ti, de uma época em que estas águas barrentas eram singradas pelo movimento incessante de barcos abarrotados de ouro, noz de kola, cacau e escravos. Quantos poetas como este tu não terás traficado sem saber? Quantos dos que sobreviveram à travessia nas catacumbas pestilentas de fezes e vômitos não terão inutilizado seus dedos maravilhosos cortando cana, abrindo cicatrizes na terra, carregando paquidermes nas costas? Gerações abortadas por tua ganância no fogaréu dos canaviais.

As cordas metálicas da kora se aceleram em sua síncope cadenciada. Antes das nascentes poluídas, das placas enormes entre mocambos anunciando bebidas engarrafadas de nome estrangeiro, dos totens que cospem um óleo espesso nas máquinas de lata, neste lugar onde agora vês o Profeta dançar com espíritos na pulsação das ampulhetas, havia aqui um opulento império que fortaleceu os vínculos firmados entre o mar e o Sahel. Esse vilarejo de ruas ingênuas oculta antigas encruzilhadas que, num passado menos turbulento, se espalhavam muito além de seus arbustos ressecados, através de caminhos hoje esquecidos que um dia levaram até o centro de outros impérios.

Atraídos pela exuberância das filigranas desse povoado, comerciantes Mandinkas, herdeiros de uma dinastia que também agonizava, assentavam acampamento nos arrabaldes e, na feira onde vendiam sal, seda e especiarias, perpetuavam através de trovas as fábulas de seus antepassados, de reis que mandavam banhar em ouro as estradas pelas quais viajavam, do marfim tão branco quanto algodão, das bibliotecas de Timbuktu que encerravam conhecimentos infinitos, dos banhos de leite nos caravançarás para Agadez, das cidades de adobe tornadas invisíveis pelas tempestades de areia.

Nascido durante a Grande Vergonha, será o Profeta, sangue de teu sangue, quem resgatará dos escombros a dignidade de seu povo, lembrando-lhe sua capacidade de produzir grandes feitos. Ele será tua antítese, orgulhoso da carapinha que arrenegaste em vida. Engendrado pelas fronteiras artificiais desenhadas bem longe dali, costurará a muito custo o frágil tecido que manterá unidos velhos inimigos irmanados por uma língua estranha. O Profeta proporá uma utopia, um mundo que, além de insustentável, será indesejado pelos descendentes de teus clientes, culminando em seu assassinato no estacionamento duma embaixada estrangeira, as veias femorais rasgadas pela faca que um dia terá cortado escalpos na mesma terra em que se colheram as papoulas do anfião que fuma agora. Diferente de ti, o Profeta, reduzido a um solitário dente corroído guardado como troféu de guerra, viverá na eternidade.

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