Em Arábia, não há salvamento que passe pelo mundo do trabalho

Em Arábia, não há salvamento que passe pelo mundo do trabalho
Aristides de Sousa como Cristiano em Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans (Embaúba Filmes/Divulgação)

 

André é um adolescente que vive com a tia e com o irmão mais novo em uma área industrial da cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais. O irmão tem a saúde frágil e os dois parecem muito ligados. A tia trabalha como enfermeira na Vila Operária e, quando Cristiano, um dos trabalhadores da indústria metalúrgica local, é levado para o hospital, pede a André que vá até a casa do moço para apanhar algumas peças de roupa. Lá, o garoto encontra também um caderno, uma espécie de diário em que Cristiano escreveu sobre sua vida. Somente quando se apossa do caderno e começa a ler suas páginas é que o título do filme, Arábia, ocupa a tela e marca a transição do prelúdio para a história central, deslocando o protagonismo de André para Cristiano.

A partir desse momento, escutamos a voz de Cristiano em off, recurso utilizado pelo cinema à exaustão. Aqui, a narração ajuda a transmitir a atmosfera poética do filme. Não se sabe se o que vemos é a história tal como ocorreu ou como André a imagina conforme lê as páginas do caderno, mas a dúvida não nos persegue, somos rapidamente transportados. A cenografia e as atuações são bastante realistas, embora o filme não seja, sob diversos aspectos, exatamente verossímil.

Os diálogos ora impressionam pela naturalidade, ora parecem teatrais. Poucas vezes um personagem é interrompido em cena. Cristiano e seus interlocutores falam como se estivessem em uma peça ou sozinhos no palco, declamando. Ninguém emenda por cima do outro como em uma conversa espontânea. O artifício pode ter algumas interpretações: a primeira e mais óbvia é a referência à dramaturgia, já que mais tarde descobrimos que Cristiano se juntou ao grupo de teatro da fábrica e daí veio a ideia de escrever o caderno.

Outra interpretação possível é de que a estranheza dessas conversas sinalize a solidão dos personagens e marque a dificuldade de estreitar vínculos. Subjetivamente, Cristiano está à margem de si, como se não tivesse sido autorizado sequer a habitar o seu próprio corpo, conhecer os seus desejos. É possível que um homem que esteja sempre à sombra seja capaz de construir e sustentar laços de afeto?

Como alguém poderia, em condições tão adversas, deixar de ser objeto e passar a ser sujeito de sua própria história? Cristiano muitas vezes se parece com um fantasma ou com um bicho, migrando conforme a necessidade.

Mas, ainda que Arábia seja um filme melancólico, um de seus acertos é não ser condescendente. Cristiano não é vitimizado, nem alçado ao posto de herói: é um homem comum, que foi marginalizado e que comete erros graves, mas que vê sua sensibilidade despertar conforme é tocado por experiências significativas, por encontros afetivos que o transformam, quer seja com os homens com quem faz amizade na prisão ou nos trabalhos por onde passa; quer seja com a mulher por quem se apaixona e com quem quase conhece o que é ter uma família.

A jornada de Cristiano tem qualquer coisa de mítica, de alegórica, sendo ele próprio um arquétipo. Obviamente a obra tem um viés ideológico, e se em alguns momentos esbarra no didatismo, em seguida faz a curva e escapa. Embora o enredo gire em torno do mundo do trabalho, não há salvamento possível por aí.

Arábia faz uma crítica ao discurso produtivista. Ao contrário da fábula, aqui temos uma apologia à cigarra. A música é um elemento essencial e rende algumas das passagens mais bonitas do filme. As canções escolhidas são metanarrativas que ajudam a reforçar o aspecto alegórico do enredo, como no caso de Três apitos, de Noel Rosa, em linda interpretação de Maria Bethânia, que conta uma história de amor vivida por um operário. Outra das melhores cenas é aquela em que Cristiano canta com os amigos uma versão de Cowboy fora da lei, de Raul Seixas. Mais do que a dignificação pelo trabalho, é o violão que marca as passagens em que o protagonista é subjetivado, seja nas cantorias, seja no primeiro encontro com Ana, quando vencem um dos jogos de azar no parque de diversões e escolhem um violão em miniatura como presente.

Perto do final do filme, um velho canta, desafinado e potente, uma versão de Marina, de Dorival Caymmi. Contra a frieza da indústria metalúrgica e a aridez do imenso canteiro de areia a que o título faz referência, a música se insurge como resistência. Quando os trabalhadores ousam se divertir, também se humanizam.

Em dois momentos-chave, ouvimos relatos de sonhos: um de Ana, quando sofre um aborto, e outro de Cristiano, sozinho na mata ao lado do fogo. Esses sonhos dão notícia da complexidade do mundo interno dos personagens e se opõem à aparente dificuldade de simbolização.

Se existe beleza em Arábia, e existe muita, não é a beleza que costumamos ver quando um cineasta tenta se aproximar da pobreza e das questões sociais, mas acaba por fetichizá-las como estrangeiro. Affonso Uchôa e João Dumans, diretores e roteiristas do filme, parceiros de outro bom trabalho (A vizinhança do tigre, 2016), conseguem retratar a beleza sincera da existência humana, com todos os seus contrastes. Ambos são de Contagem (cidade industrial próxima a Belo Horizonte), como Cristiano, e se colocam ao lado de seu protagonista. Como espectadores, temos a oportunidade de acompanhá-los nessa mesma posição. A fotografia de Leonardo Feliciano é um encanto: linda, sem forçar a mão. Coisa rara de ver. Dos campos de mexerica ao puteiro de dona Olga, Feliciano faz belos enquadramentos que equilibram lirismo e concretude — em algumas cenas, a gente quase pode sentir o cheiro do que vê. Cristiano parece viajar por todo o Brasil, mas nunca sai de Minas Gerais, um estado que é um país em si mesmo: extenso, com geografias, climas e contextos sociais tão diversos.

Arábia dialoga com um topos do cinema nacional, a precariedade das relações de trabalho, e também o atualiza. Assistir ao filme à luz da reforma trabalhista ressignifica a questão, tornando o debate mais urgente. Mas, para além do contexto sociopolítico, essa é uma história singela de um homem comum vivendo em um país atravessado por desigualdades abissais, que vai descobrindo beleza e indignação conforme resiste e se torna capaz de viver, e depois também de escrever, a sua própria história. Se algo salva Cristiano, ou ao menos se salva sua memória em André, é a cigarra, e não a formiga: a saída vem da música, do teatro e da escrita, das lembranças e das cartas de amor de Ana. O que nos torna humanos, e sujeitos singulares, é aquilo que nos desaliena e desautomatiza, não o que perpetua uma estrutura cruel que acentua desigualdades e aniquila diferenças.


FABIANE SECCHES é psicanalista e mestranda em Estudos Comparados (Literatura e Psicanálise) na Universidade de São Paulo

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