Aprendendo a (não) morrer

Aprendendo a (não) morrer
Hotel Room, Edward Hopper, 1931 (Reprodução/Wikiarte)

 

É diante das grandes calamidades que a morte se torna concreta para nós, como grupo. Nenhuma novidade nisso. Atenas sentiu o baque da peste a partir de 430 a.C., durante a Guerra do Peloponeso, e a viveu sob assédio espartano, num surto de febre tifoide que levou alguns milhares de habitantes e que virou assunto para o romano Lucrécio quase quatrocentos anos depois (vale a pena ver a leitura de Rodrigo Gonçalves para o poema). A guerra, somada à praga, dava o sentido da vida: viver. É bem pouco diverso o aprendizado que muitos séculos depois os europeus tiraram da Peste Negra entre 1331 e 1350, período em que provavelmente apareceram as primeiras obras com o tema da Dança Macabra, onde vemos um grupo bailando alegremente com a Morte personificada. Elas são curiosamente diferentes da varíola, que vem nos matando por mais de três mil anos, incessantemente, de modo que já tinha se tornado uma velha companheira; a bexiga, cujos sintomas eram similares aos da sífilis e faziam as duas serem confundidas até pelo menos o Renascimento. Já a tuberculose fez-se um mal do século, tinha toda uma história e, por vezes, seu glamour um tanto tolo: bons remédios seriam Manuel Bandeira ou Thomas Mann.

O que pouco se aprende como grupo, embora algumas figuras pareçam carregar bem a sua marca melancólica (o que é a Anatomia da melancolia de Burton, senão também um tratado após a peste de Londres, entre 1592-3?), o que tendemos a marcar nas pandemias passadas é a produção: Isaac Newton formulou a teoria da gravidade durante a Morte Negra de 1655, quando as universidades fecharam; Shakespeare teria escrito Rei Lear durante a quarentena da peste bubônica meio século antes, entre 1605-6 (tese discutida, mas aqui nos interessa como mito) etc. A todo instante, durante esta quarentena de coronavírus, se fala sobre produzir, continuar, mostrar que somos capazes de sobreviver. Mas é mesmo de sobrevivência que falamos quando tratamos dessa produção? Tenho cá visto amigos e distantes exauridos pela reclusão, permanecem trabalhando num regime de home office, cuidando de crianças, atentos aos pais idosos, seguindo todos os inúmeros preceitos da ciência e, como se não bastasse, torturados pela impossibilidade de uma grande obra que não virá ou, se vier, virá para apenas uma ou duas criaturas no planeta, que levarão o mito adiante.

O drama maior da morte à nossa frente não é necessariamente sempre o de continuar, mas o de morrer. Aprender a morrer. Que é, misterioso que seja, aprender a viver. Aprender um viver possível, e que para os nossos tempos parece o limite do impossível. Solapados pelo dever de aproveitar o tempo escasso da clausura entre séries, cursos, vídeos e livros todos que esperávamos ler; pelas obras todas, artísticas ou minúsculas, que aguardávamos cumprir, como desígnios deste estar na Terra. E aprender a morrer, que é o deixar de lado o imperativo glorioso quando este nos assola mais que a louça logo ao lado, é aprender a restar, a repousar diante do que nos impede. Seja isso a morte, o medo da morte, o enfrentamento mesmo da morte; porque é diante dela, na dança com ela, que ressurgem temas como o da Vanitas vanitatum (vaidade das vaidades, vazio dos vazios, névoa-nada), que floresceu nos pestilentos séculos 16 e 17 — espiem o Autorretrato do pintor holandês Davi Bailly, contemporâneo de Burton, obra que considero um primor, com a figura de Bailly cercada pelos símbolos da Vanitas: caveiras, natureza-morta, livros, retratos, bolhas de sabão. O saber ali dado é o da morte.  Mais precisamente o saber ali é pretendido, como um saber morrer.

O que não quer dizer, de modo algum, querer morrer. Nem simplesmente aceitar morrer diante das calamidades, como uma entrega. Esse aprendizado da morte é, pelo avesso de si, o aprendizado da não morte, porque preza pela vida imediatamente à nossa frente, sem maiores expectativas (uma versão delicada do adágio nec spe, nec metu, “sem esperança e sem medo”): a vida precária, inacabada, frágil que nos cabe. Aproveito este instante para fazer o mais do mesmo, produzir o mais do mesmo? A persona de J. Alfred Prufrock, criada por T. S. Eliot, responde (na tradução mais-que-vivíssima de Caetano Galindo): “Tempo haverá, tempo haverá”; diz mais “E tempo de fato haverá / De imaginar, ‘Eu ousaria?’ e ‘Ousaria?’ / Tempo de voltar, e de descer a escadaria, / Mostrando no crânio essa pele vazia — / (Dirão: ‘Mas seu cabelo está minguando!’) / Minha casaca, o colarinho rijo se empinando, / Gravata fina e sóbria, que com simples alfinete abrando — / (Dirão: ‘Seus braços, suas pernas vão minguando!’) / E eu ousaria / Perturbar o universo? / Num minuto cabe o tempo / De decisões e revisões que num minuto são o inverso.”

E enquanto seguimos perturbados, perturbando o universo, caberia uma pergunta avessa: eu ousaria não perturbar o universo? Ousaria pousar aqui a minha mão e conviver com pensamentos? Ousaria enfrentar o silêncio que me confronta com a mesma marca de um corpo que acaba a cada instante, a calvície, o cansaço, o puído, os membros envergados pelo tempo? Pior, ousaria escutar meu pensamento diante dessa chance incessante de me dar ao ruído? A louça ao lado espera, a interminável série dos dias de clausura. Aprender a morrer é, ao seu modo, o cerne do carpe diem. Quem pode colher o dia?

Sim, dirão, como eu mesmo digo, que a clausura agora não é para todos. Não é. Em parte, pelo horror de empregadores que empregam seu dinheiro para fazer um tanto mais de dinheiro, a custa do labor humano, que eles consomem tanto quanto podem. Não é também porque uma série de pessoas, felizmente, lutam na saúde (pessoas que desconheço ou que amo), não para perturbar o universo, mas para garantir um cadinho de mundo aos vivos. No entanto, a quem é dado estar neste resguardo há também uma colheita; estranha colheita, de frutos amargos certamente, e o silêncio — ainda que certamente não o maior — é um deles.

Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor na UFPR. Autor de carvão : : capim e História de Joia, entre outros. Tradutor de Robert Burton, Propércio, Safo, Whitman e Rabelais. Coeditor da revista-blog escamandro e membro do grupo Pecora Loca.


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