A urgência da filosofia: sobre a necessidade de mudar o mundo

A urgência da filosofia: sobre a necessidade de mudar o mundo
Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo, 1943, Salvador Dali (Reprodução)

 

Embora falar de filosofia tenha sido para mim sempre uma alegria – e das maiores alegrias -, confesso que considero um pouco triste ter que, mais uma vez, falar da sua urgência depois de ter passado a vida clamando por essa urgência, de ter ensinado e aprendido filosofia por mais de 25 anos, depois de ter lido tantos pensadores e pensadoras que em seus contextos sempre defenderam a filosofia como uma forma de mudar o mundo e perceber que, agora, mais uma ver, vamos ter que começar do zero.

Comecemos do zero. Talvez essa seja a maior virtude do que chamamos de filosofia, a paciência de recomeçar. Recomeçar o árduo trabalho do conceito, o árduo trabalho do entendimento, da razão e de sua crítica, da compreensão das coisas que mudam a nossa sensibilidade.

Que a filosofia possa mudar o mundo não é um exagero retórico. A urgência da filosofia tem a ver com essa possibilidade contra a qual tantos lutam hoje. Quando o presidente do Brasil, conhecido pela expressividade do caráter precário de sua condição cognitiva, ameaça a filosofia, ele está sobretudo manifestando o grande medo dos autoritários, a saber, que o povo humilhado e enganado aprenda a pensar.

Infelizmente, não estou espantada com o que vem acontecendo com o Brasil e com os recentes ataques do governo à filosofia e à sua companheira escolar que é a sociologia. Estou triste com o presente e o futuro de nosso país sobre tais ataques. Estou triste como ficam as pessoas que não são perversas diante de tanta destruição. Triste de uma tristeza moral, não psicológica, embora esses planos estejam muito próximos e às vezes sejam confundidos. Há muito tempo venho usando a expressão “depressão cívica” para falar dessa tristeza moral que sentimos pelo estado de coisas autoritário e irracional que vivemos hoje.

Gostaria, no entanto, e em termos bem básicos, de colocar em que sentido e como a filosofia pode mudar o mundo. Mas antes preciso elaborar a questão, o que só posso fazer usando meu próprio e mais cuidadoso ponto de vista que exige explicar alguns aspectos que me levam a pensar nisso tudo.

Eu que sempre fui uma pessoa muito otimista na prática, como são as pessoas que vêm das classes desfavorecidas e que lutam muito pelo que precisam econômica e emocionalmente para sobreviver, ando meditando sobre o pessimismo teórico, sobre o peso das análises inevitáveis sobre a destruição em curso em nosso país desde o golpe de 2016 e que se exacerbam sobre o governo autoritário do momento. Apesar do otimismo prático, que me levou ao feminismo e à política partidária – a política organizada para além da política viva que fazemos todos os dias nos nossos campos de ação –, hoje eu creio que é ainda mais importante prestar atenção no pessimismo de certas análises que somos obrigados a fazer.

Vivemos o efeito de muitas coisas que não fomos capazes de avaliar no passado porque talvez tenhamos sido otimistas demais na teoria. “Não vai ter golpe” foi uma expressão mágica, e o golpe veio. Quero dizer com isso que precisamos ir além do pensamento mágico em todas as áreas de nossas vidas, sem perder a relação com algo de mágico que há na vida.

Não sou exatamente uma pessimista na teoria. Meu pessimismo diz respeito aos aspectos sobre os quais todos temos que concordar: há muita destruição, há muita violência de todo tipo e em tal quantidade que tendemos a pensar que, de fato há, no que concerne ao Brasil, um projeto de destruição e não apenas incompetência para governar. Em outro sentido, podemos dizer que o pessimismo chega para qualquer um que perceba a importância da reflexão e que, ao mesmo tempo, perceba a sua falta.

Ao mesmo tempo, há um outro lado dessa moeda. Justamente por perceber o caráter raro da reflexão, no meu caso eu sempre tentei encontrar saídas teóricas, pensando que o pessimismo inevitável nesse campo deveria ser superado por propostas éticas que surgiriam das próprias reflexões e que viriam a modificar a prática. Ou seja, seria o próprio pessimismo teórico que garantiria o otimismo da prática. Nesse sentido, esse pessimismo tem tudo a ver com a crítica. Ele não é mais do que um forma de crítica. E se ele é crítica, não é exatamente um pessimismo. Certo grau de pessimismo é bom para diagnósticos realistas. Guardemos essa ideia e sigamos em frente.

Há muito tempo eu penso que é evidente que as teorias reflexivas – as que questionam e chegam a conclusões razoáveis – devem preparar para prognósticos e não apenas para diagnósticos. Que as teorias que surgem de reflexões potentes devem ser um forma de prática e que elas podem realmente mudar o mundo, porque tudo o que pensamos afeta o modo como organizamos nossas vidas em nível pessoal e também coletivo. Sabemos da importância do diálogo nessas horas, na construção de perspectivas de mudança que favoreçam a sobrevivência da sociedade. É evidente que é preciso dialogar na direção de construir garantias a direitos que sustentaram nossa evolução como sociedade. Sabemos disso. Para construir uma sociedade capaz de entender a importância de direitos, precisamos de pensamento crítico e lúcido, ou seja, de filosofia.

Quero dizer com isso que devemos sempre repropor a filosofia para que a sociedade se torne um lugar melhor para as pessoas. Não devemos nunca acabar com ela. Mesmo em uma sociedade perfeita, em que todos fossem muito felizes depois de todas as conquistas humanas realizadas, deveríamos sustentar a filosofia como uma espécie de monitoramento da reflexão e da análise, como uma forma de cuidado para com a verdade, o valor mais desconsiderado em nossa época em relação ao qual só a filosofia pode apresentar a fundamentação.

Durante muito tempo acreditei que todos nós que estudamos filosofia estávamos melhorando nosso país e que, apesar de muitos problemas experimentados em nível coletivo, tínhamos um futuro pela frente. Com a presença da filosofia como uma disciplina fundamental no ensino médio, tínhamos um passo importante na valorização pública da filosofia como disciplina escolar que prepara para o entendimento das complexidades da sociedade, da história, da natureza e da ciência, dos aspectos morais, éticos e políticos, estéticos e religiosos da vida humana.

Sei que meus colegas professores e estudantes também sabem disso, e eu que, por modo de ser ou acaso, assim como outras pessoas, me tornei uma pessoa bastante presente na esfera pública, sempre me preocupei em ser responsável com o pensamento crítico, sem me deixar enrijecer por pressões acadêmicas ou ideológicas. Sempre entendi que a filosofia implicava um altíssimo nível de liberdade de espírito e de expressão.

Defendi a crítica como uma forma de análise que não precisaria pedir desculpas para se colocar. Quem conhece a minha obra sabe que eu escrevi várias vezes sobre o sentido da crítica que nos importa sustentar, uma crítica interna, determinada, atenta aos objetos. Em termos filosóficos, aquela básica crítica que aprendemos estudando a filosofia de Hegel, quem nos alerta para o tipo de crítica abstrata, a crítica viciada que se baseia no desconhecimento do que se quer criticar.

Tomando esse cuidado eu sempre pensei na urgência da crítica e da autocrítica em uma mesma linha. E sempre pensei que a crítica que nos importa não precisa ser amorosa ou suave. Ela pode ser colocada de um modo bem direto e corre o risco de não ser polida. O problema é outro: o que qualquer crítica tem por trás. Às vezes a crítica esconde afetos tristes, tais como o ressentimento, o ódio, a inveja ou interesses específicos de destruição do objeto da crítica. É em geral esse tipo de crítica abstrata, que tem algo de niilista, que se dá desse modo. E quando ela se torna muito vazia, ela pode se tornar a porta para afetos tristes e destrutivos, seja de si, seja dos outros.

As práticas que conhecemos há tempos na imprensa e nas redes sociais atualmente, as velhas práticas sempre renovadas de mentir e manipular são práticas frias e calculadas a partir de interesses, mas elas tocam as pessoas emocionalmente e mudam suas vidas nas piores direções. Elas se disfarçam de crítica. Todas elas se parecem simplesmente efeito de críticas que escondem o quanto são abstratas. E as pessoas, tomadas de raiva e medo, ressentimento e ódio, ingratidão ou inveja, simplesmente se deixam levar.

A filosofia no sentido de ser questionamento e construção de teorias consistentes e consequentes nos leva a entender esse tipo de problema que nos aparece em um recorte epistemológico para o qual as massas não são acostumadas. Os grupos que controlam as massas não dão às pessoas que dela fazem parte a chance de que reflitam sobre o modo como pensam e falam para que possam, a partir de uma consciência acerca de sua própria condição, fazer escolhas sobre o sentido do que dizem e do que fazem.

A falta de pensamento reflexivo necessariamente constrói a vida das pessoas. Mas o que é a construção de uma vida? De que tipo de construção falamos? Em geral, essa falta sustenta a estagnação, ou a conservação do que está dado ou, em momentos críticos, produz também transformações, em geral, rumo ao pior. Muitas vidas são construídas como se fossem ruínas. Já a presença do pensamento reflexivo tende a mudar nossas vidas para a liberdade, para a invenção da vida. É isso o que podemos chamar de algo melhor. Aquela vida em que podemos evoluir como pessoas, como sociedade, como humanidade.

A filosofia pode mudar o mundo de um ponto de vista político e econômico, social e histórico. Mas essa mudança depende de outras, ou está a elas intimamente relacionada. A mudança institucional do mundo, a mudança das relações de força e de poder não acontecerá sem uma mudança no espírito, algo que parece abstrato e que devemos entender aqui em sentido dialético com o que é concreto. A mudança do mundo sobre a qual precisamos pensar é aquela que acontece na base mental de nossas vidas, ou seja, naquele universo em que vivemos no registro da mentalidade e da sensibilidade. Esse é o terreno da construção da subjetividade, o terreno da ética.

Essa base define o que é a vida em sua dimensão humana. Quando algumas pessoas de um modo muito simples dizem que estudam filosofia para melhorarem a si mesmas como seres humanos, elas estão falando algo que faz sentido e que tem uma relação direta com o desejo de mudança do mundo. Nós não mudaremos o mundo sem mudar a nossa mentalidade e a nossa sensibilidade. Não mudaremos o mundo sem pensar nas pessoas, no papel de cada um, na capacidade que cada um tem de compreender o todo no qual está inserido. Como ele é vítima de discursos, de estratégias perpetradas pelos que manipulam o poder.

Antigamente se chamava isso de consciência. As igrejas e os meios de comunicação, bem como hoje as redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram) também atuam na base mental das pessoas. A filosofia faz o mesmo. Ela também atua na base mental e na sensibilidade de cada um. Mas a grande diferença é que a filosofia não se coloca na direção da manipulação das massas como fazem as igrejas, meios de comunicação e redes sociais.

Ela liberta indivíduos que se negam a ser massa, a simplesmente aderir. Eles pensam criticamente apesar dos seus limites humanos. Por isso, não há filosofia para as massas, nem igrejas de filosofia. A filosofia também não fica muito confortável nas redes sociais que se apresentam como simples espaços públicos e são, na verdade, corporações que ocultam a mercadoria que vendem para poderem fazer dos usuários a mão de obra barata que os torna ricos. E o que as redes realmente vendem? O próprio usuário, ao mesmo tempo, mercadoria e trabalhador. A filosofia devolve as pessoas a elas mesmas. É certamente algo indesejável para os controladores do capital e da sociedade rebaixada a mercado.

Devemos continuar estudando filosofia e ensinando como pudermos. Os tiranos, sobretudo os autoritários e os oligofrênicos, agirão sempre do mesmo modo até que o mundo seja transformado por uma outra forma de pensar e ver a vida.

 

(4) Comentários

  1. Precisamos pensar, questionar,agir… e entender que sem a filosofia nos tornaremos totatotalmente alienados.

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