A necropolítica e o bolsonarismo na pandemia

A necropolítica e o bolsonarismo na pandemia
Coletiva de imprensa de Jair Bolsonaro e Luiz Henrique Mandetta em 20/03 (Foto: Isac Nóbrega/Agência Brasil)

 

A este ponto do drama político nacional, há uma pergunta que se impõe. Por que razão, afinal, contra tudo e contra todos, inclusive em sentido oposto ao mais elementar bom senso, o presidente conduziu o bolsonarismo, grande parte do seu ministério e as políticas públicas sob o seu comando direto para uma posição adversária do autoisolamento e do distanciamento social, que são as mais eficientes medidas tomadas mundialmente para a mitigação do alastramento da Covid-19 durante esta epidemia global? 

O autoisolamento é ruim para a economia? Sim, não há economista, gestor ou cidadão consciente no mundo que não tenha plena lucidez acerca deste fato. A despeito disso, todos e em toda parte estão cientes de que este é um preço a pagar pela sobrevivência do maior número possível de pessoas diante da pandemia. Mas quando a crise ainda não havia atingido tão duramente os Estados Unidos, há duas semanas, o jornal dos financistas americanos, The Wall Street Journal, publicou um editorial descrevendo a “tsunami de destruição econômica que fará dezenas de milhões de pessoas perderem o emprego”, se a quarentena fosse a política sanitária adotada pelo governo para proteger os cidadãos durante peste. E concluíram que “os EUA precisam urgentemente de uma estratégia para lidar com a pandemia que seja mais sustentável econômica e socialmente do que o isolamento nacional”. 

Donald Trump, que o nosso presidente em geral copia algumas horas depois, endossou a tese e trabalhou em sua propaganda a ideia de que salvar vidas não podia levar a economia americana ao colapso. Mas diante do avanço rápido, brutal e inexorável do vírus na Itália, na Espanha, na França e, agora, nos Estados Unidos, onde enquanto escrevo esse texto o número de mortes superou cinco mil pessoas, mesmo o presidente americano saltou do barco da minimização da pandemia e do negacionismo da letalidade do vírus, e mudou completamente o discurso. 

Sem a escada de Trump, viram-se pendurados na broxa apenas o primeiro-ministro de extrema direita da Hungria, Viktor Orban, que já é praticamente um ditador, o milico líder do Belarus, Alexander Lukashenko, que declarou que “vodca e sauna” vão curar os seus concidadãos da Covid-19, o ditador do Turcomenistão, de nome impronunciável (Gurbanguly Berdymukhamedov) que proibiu o uso da palavra coronavírus no país como forma de erradicação da doença, e o nosso cada vez mais amado presidente Jair Bolsonaro, que se refere ao vírus, que já matou 45.000 pessoas no mundo, como “gripezinha” ou “resfriadinho”. Bolsonaro, enfim, lidera uma parte do mundo, como queriam os chanceleres Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro, a parte composta por líderes de caráter e regime político duvidosos que negam a pandemia ou a sua letalidade. E, o que é pior, que a negam enquanto ela vai infectando e matando à nossa volta.

Pois, então, quando Bolsonaro assumiu a posição negacionista da pandemia e a contraposição retórica entre economia e medidas sanitárias de mitigação das infecções, ele ainda era o anão de sempre, mas assentado nos ombros do gigante Trump e do discurso ultraliberal americano, que é onde ele costuma se abrigar para as suas bravatas e contrassensos. Mas nem Trump está mais lá, nem lá estão os economistas ortodoxos, vez que até o The Economist, o periódico que é a bíblia dos liberais mundo afora, fez uma matéria ridicularizando o nosso Bolsonero e a sua necropolítica. Por que, então, o nosso capitão Corona, como foi chamado esta semana, e o bolsonarismo mais sectário e fechado com o seu líder continuam nessa posição em que já não se encontra qualquer autoridade respeitável no mundo? 

No caso dos bolsonaristas a compreensão é mais simples. O bolsonarismo é conservador, sim, mas o que tem de conservadorismo ou de liberalismo, de esquerda ou de direita, em não querer que as pessoas se contaminem e morram? Nada. A única contraposição no caso tem a ver exclusivamente com a diferença entre pulsão de vida e pulsão de morte, entre humanismo e necropolítica, entre racionalidade e estupidez. Tanto é verdade que pouco a pouco foi se firmando um consenso natural e supraideológico contra a política pública de morte adotado por Bolsonaro. Faz tempo que a gente não vê do mesmo lado, o lado contrário à necropolítica, como vimos esta semana, Caiado e Flávio Dino, Doria e Lula, Witzel e Rui Costa, ACM Neto, Camilo Santana e Janaína Paschoal? Então, se ideologia não conta neste caso, por que diabos o bolsonarismo continua lutando contra as políticas de isolamento social, negando a letalidade do coronavirus e defendendo em passeatas que o Brasil não pode parar? 

É simples. Porque os bolsonaristas não têm uma autodefinição baseada em princípios para saber que posição adotar ou de que lado estão. Eles simplesmente observam. Primeiro, observam o Mito, o seu líder supremo, o guru dele, Olavo de Carvalho, e os “garotos” 01, 02, e 03, que compartilham o governo com papai. Em geral esperam para ver a posição que eles tomam em mídias sociais para as disseminar em grupos do WhatsApp. Depois observam os seus “inimigos imaginários” tomarem posição, para, então, assumirem a própria trincheira oposta do campo magnético. Quem são os inimigos prediletos que eles usam para calibrar a própria posição, por repulsa: intelectuais e jornalistas de que não gostam, a ciência em geral, pessoas de esquerda, a imprensa de referência, e a Suprema Corte. 

É um jogo de tabuleiro, não de convicções. Se estas pessoas estão de um lado, não importa sequer materialmente a razão de terem assumido determinado posição. Por repulsa, o bolsonarista precisa estar do lado oposto, não importa qual lado seja. E se, por acaso, numa dessas disputas intermináveis da política polarizada, um intelectual, jornalista ou político bolsonarista resolve divergir, hesitar ou tomar, eventualmente, uma posição diferente daquela do líder e dos fiéis da seita, pronto, acabou o amor, o traidor é destituído de todo o afeto e honrarias a eles anteriormente atribuídas, é proscrito e agora está marcado para sempre como inimigo e alvo de assédio, insultos e linchamentos, como aconteceu no passado com Joyce Hasselmann e Alexandre Frota, e com Janaína Paschoal e Ronaldo Caiado na semana passada. Doravante, marcados como adversário, os neoinimigos servirão para orientar no futuro o posicionamento do grupo: onde eles estiverem, nós estaremos na frente oposta. 

Então, o bolsonarista se orienta pelas preferências dos líderes da seita e pela repulsa à posição dos inimigos imaginários, mas por que Bolsonaro e o seu círculo mais chegado continuam a segurar um rojão que está levando a perdas políticas visíveis para o bolsonarismo? E os danos são claros, como o impressionante aumento dos panelaços, o afastamento de aliados que são importantes para as pretensões políticas da extrema-direita, uma cobertura francamente desfavorável da imprensa mais influente, nacional e internacional, e, enfim, o surgimento e a consolidação de uma frente de governadores e prefeitos que, na vacância de líder no Executivo nacional, resolveram assumir este papel ante suas populações locais desprotegidas e até ameaçadas pelas políticas e pelo discurso do presidente da República? Nada no panorama político nacional voltará a ser como antes da pandemia para Bolsonaro e sua turma. A crise da necropolítica ameaça o seu futuro político porque mostra e aumenta as rachaduras no bolsonarismo. Por que então, racionalmente, manter-se nesta posição? Ninguém entende.

Tentarei levantar algumas hipóteses sobre isso no comentário da próxima semana. 

Até lá. E, enquanto isso, fiquem em casa se puderem e protejam as pessoas que vocês amam.

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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