Quando a beleza é a morte da beleza

Quando a beleza é a morte da beleza

 

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia.”
Evangelho segundo Mateus 23:27

 

Se a beleza pudesse ser adquirida como uma infecção sexualmente transmissível, você se exporia a ela sem se preocupar com as consequências éticas, morais e econômicas dessa decisão?

Se um vírus, transmitido por sangue e sêmen — as mesmas correntes da vida que na epidemia de HIV se tornaram correntes de morte — pudesse reescrever o seu DNA, levando-o a uma espécie de crisálida humana de onde emergisse jovem, simétrico, desejável segundo os padrões publicitários e hollywoodianos do Ocidente, você hesitaria?

É essa a hipótese de The Beauty, a nova criação audiovisual de Ryan Murphy para a Hulu (streaming sob a Disney+). Um vírus que promete aquilo que a humanidade persegue desde que tomou consciência de si e da própria finitude: escapar da morte tal como estamos geneticamente programados para ela.

A beleza é a mais antiga das moedas”, diz um personagem da série.

A frase remete a algo que antecede o comércio e talvez o próprio Estado. Muito antes da publicidade, havia sedução. Muito antes do capital monetário, havia capital simbólico. Charles Darwin descreveu a seleção sexual como força evolutiva: certos traços de espécies vivas persistem não por assegurarem sua sobrevivência, mas por favorecerem atração sexual entre parceiros.

Gilles Lipovetsky, em seu magnífico “Gostar e Seduzir” – ainda sem tradução que eu conheça – sustenta que a sedução não é fenômeno superficial da modernidade, mas estrutura constante das relações humanas como nas demais espécies de animais. O desejo de agradar, encantar, atrair – de ser visto e escolhido como parceiro ou parceira sexual – atravessa culturas e épocas. A modernidade não inventou esse impulso; ela o intensificou e o mercantilizou, segundo ele.

The Beauty aborda esse processo em seu paroxismo: a beleza e a sedução que dela resulta podem ser resultado de um produto biotecnológico.

A ficção sempre lidou com o desejo de ultrapassar os limites impostos pela natureza. Desde “Frankenstein”, de Mary Shelley, sabemos que reescrever a vida é um gesto carregado de consequências. Hoje, o fogo prometeico é o código genético. A técnica já permite intervenções específicas. O que permanece em aberto é a orientação ética dessas intervenções.

Umberto Eco demonstrou, em “História da Beleza” e “História da Feiúra”, que os padrões estéticos variam historicamente. O que não varia é a tentativa de fixá-los como universais, o que quase sempre resulta em instrumento de objetivação de alguns e exclusão de outros, sendo sempre um processo de sujeição, ou seja, produção de subjetividades e de sujeitos (sujeitados!).

A história fornece exemplos concretos. Francis Galton formulou a eugenia como projeto de “aperfeiçoamento” humano. O nazismo de Adolf Hitler transformou esse projeto em política de Estado. Josef Mengele conduziu experimentos cruéis com judeus e ciganos e homossexuais, gêmeos e com policromia de preferência, em nome da pureza racial. Seu ideal converteu-se em programa de morte. Este monstro antissemita e homofóbico morreu nadando no litoral de São Paulo, com identidade falsa, após fugir da Alemanha derrotada na Segunda Guerra.

A série de Murphy não reproduz literalmente esse passado, mas retoma sua lógica: o “aperfeiçoamento” humano segundo padrões definidos pelos dominantes como horizonte. Ele surge como escolha individual, mas inserido numa economia que recompensa a conformidade. A promessa é a inclusão pela padronização segundo os critérios dos que mandam e têm dinheiro. A exclusão passa ser exclusivamente a de classe, já que pretos, pessoas com deficiências resultadas de acidentes ou doenças genéticas e pessoas transgêneros podem adquirir o medicamento baseado num vírus desde que tenham muito dinheiro – nada diferente da lógica que norteia a indústria de cosméticos e de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas (mesmo quando essa lógica aparece disfarçada e bem-disfarçada de discurso de emancipação política e afirmação de si!)

A transmissão sexual do vírus The Beauty é um elemento que não pode ser lido ingenuamente. Na epidemia de HIV/AIDS, o contágio era o problema; o medo transformou fluidos vitais em caminhos de decadência física e morte dolorosa. Décadas depois, ainda sem uma cura para AIDS, assistimos durante a pandemia de COVID-19 assistimos de novo à circulação massiva de desinformação que agravou a crise sanitária. No curso que ministrei na revista Cult, “Formas de saber, formas de adoecer”, examinei os paralelos entre esses dois momentos históricos, em que ignorância e preconceito funcionaram como vetores adicionais de sofrimento e aumento da virulência.

No meu livro Falsolatria (2024), tratei a desinformação como um vírus de consciência. Assim como certos vírus inserem material genético na célula hospedeira, a mentira organizada infiltra-se na percepção e reorganiza a maneira como interpretamos e percebemos a realidade. Ela encontra receptores nos preconceitos inconscientes e ali se replica.

Em The Beauty, o contágio produz aparência ideal em vez de decadência física. A ironia é evidente: a infecção passa a ser desejada. Mas os virus sofrem mutação e aí que mora todo o perigo que a série aponta. O desejo de perfeição epidêmico pode nos arruinar como espécie.

O que poderia nos salvar então?

A tradição cristã oferece um contraponto decisivo. O ensinamento de Jesus, registrado nos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), desloca o eixo da beleza do exterior para o interior da pessoa justa e solidária. O “sepulcro caiado” denuncia a dissociação entre forma e caráter. Nenhuma simetria compensa a ausência de compaixão. Nenhum corpo belo compensa uma alma apodrecida por infligir sofrimento aos outos conscientemente.

A literatura moderna reforça essa filosofia. Em “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, em que a juventude preservada do protagonista convive com a degradação moral de seu retrato pintado. A superfície corpórea permanece intacta, mas a essência de sua alma apodrece no retrato. A homossexualidade de Wilde e sua classe social foram fundamentais na concepção deste maravilhoso argumento.

No filme “A Hora da Estrela”, dirigido por Suzana Amaral a partir do romance homônimo de Clarice Lispector, uma personagem pergunta a Macabéa: “Ser feia dói?”. A pergunta permanece porque vivemos numa sociedade que converte aparência em valor de troca.

Mas talvez a dor maior seja outra: a de submeter-se a padrões definidos por uma ciência desvinculada de responsabilidade ética e capturada por interesses econômicos.

A questão central não é se podemos alterar o DNA para ficarmos lindos e lindas, como sugere uma bem-humorada personagem do ator Paulo Gustavo, a feia com orgulho de si e que ri de si mesmo. A questão é sob que horizonte moral o fazemos. A história demonstra que projetos de aperfeiçoamento humano frequentemente desembocam em exclusão e violência.

Nenhum vírus produz empatia. Nenhum laboratório fabrica solidariedade. A harmonia que intuímos como beleza pode ser, em sua dimensão mais profunda, aspiração à justiça, como sugere a mística filósofa Simone Weill.

Quando a beleza se transforma em norma coercitiva e produto biotecnológico, ela deixa de ser experiência humana livre, libertadora e diversa (podendo inclusive ser lida como feiúra por outros). Torna-se instrumento. E, nesse momento, começa a sua morte.

Talvez valha mais uma consciência iluminada pelo conhecimento – e, por isso mesmo, aberta à empatia e ao acolhimento da diferença – do que qualquer adequação a padrões estéticos definidos por uma ciência que perdeu seu norte ético e o mercado decorrente desta.

Quando a beleza se converte em obsessão de controle, ela deixa de ser beleza. E é então que morre.

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor de “Falsolatria” (Editora Nós e Edições Sesc) e “O anonimato dos afetos escondidos” (Tusquest Editores), entre outros livros.

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