Para que, afinal, serve o shrink?
Andando por entre as estantes das livrarias, um detalhe se tornou comum nos últimos anos: uma fina película transparente separa o leitor do livro. Essa camada de plástico, de baixo custo de produção e uso único, é chamada de shrink no meio editorial, em referência à propriedade física do material, que encolhe quando submetido ao calor.
Sua função principal é proteger o livro de eventuais marcas e desgastes decorrentes do manuseio, desde a saída da gráfica até o consumidor final. No entanto, o shrink não deixa de ser uma das inúmeras fontes de resíduo plástico que termina, quase sempre, em aterros sanitários ou na natureza; e, invariavelmente, no mar.
É isso que argumenta o “Manifesto pelo livro sem plástico”, lançado pelo jornalista e gestor cultural Afonso Borges no último dia 9 de novembro, junto a um abaixo-assinado, que ganhou o apoio público de figuras como Fernanda Montenegro, Chico Buarque e Conceição Evaristo.
No texto do manifesto, com base em dados do número de exemplares impressos no país em 2024 – disponibilizados pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e pelo Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) –, Borges estima que a adoção do shrink no mercado editorial produz algo entre 360 e 700 toneladas de lixo plástico por ano.
“Independentemente da questão econômica ou da proteção dos exemplares, o mercado editorial não pode produzir tamanha destruição à natureza”, diz Borges em entrevista à Cult – lembrando ainda que plataformas de e-commerce exigem que as editoras forneçam seus livros já embalados no shrink.
Uma resposta institucional ao “Manifesto pelo livro sem plástico” chegou na semana seguinte à publicação do texto, no dia 17 de novembro, com a apresentação do Projeto de Lei n° 5876/2025 – pelo senador Randolfe Rodrigues (PT/AP). O PL visa à proibição da “produção, importação, distribuição, fornecimento e comercialização de publicações editoriais impressas embaladas em películas ou invólucros plásticos” através da alteração da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A iniciativa não foi bem recebida pela maioria dos editores de livros.
Eduardo Lacerda, editor da Patuá, optou pelo uso do shrink há alguns anos. Ele argumenta que sua editora teve menos perdas de exemplares desde então, reduzindo a necessidade de reimpressões – que também causam impacto ao meio ambiente. “Um livro impresso é feito de papel que molha, amassa, pega pó, pode embolorar ou amarelar com o tempo.”
Lacerda sintetiza sua posição: “essa premissa joga as pessoas umas contra as outras, porque ninguém defende o plástico. Não é uma questão de editores que defendem o uso do plástico e editores que são contra – todos sabemos que o plástico não é bom para o meio ambiente. A atitude correta seria exigir, junto ao poder público, que as empresas que o produzem tenham soluções biodegradáveis.”
Marcelo Nocelli, da Editora Reformatório relata que, com as fortes chuvas que atingiram a capital paulista no último dia 13 de janeiro, sua editora foi parcialmente tomada pela água. “Com isso, perdemos praticamente todos os livros que estavam nas primeiras prateleiras da estante e em caixas de papelão no chão”, diz.
Grande parte do material perdido eram edições antigas sem shrink, mas parte do catálogo recente da editora foi salva pelo plástico – impedindo que a água penetrasse no papel.
O uso do plástico de proteção não se limita apenas ao armazenamento ou situações drásticas, como a vivida por Nocelli, mas também envolve questões logísticas entre as editoras e as livrarias, como explica Eliete Cotrim, diretora comercial da Editora 34.
Segundo ela, “todo o mercado optou pelo uso do plástico para preservar o livro, que chega à maior parte das livrarias no sistema de consignação”. A consignação permite que as livrarias fiquem com os livros por determinado período, geralmente de três meses; após o tempo acordado, a livraria pode devolver à editora os livros não vendidos. O shrink entra nessa operação para garantir que os livros estejam em condições de venda após a devolução.
Profissional da cadeia do livro desde 1997, Cotrim lembra que o uso do shrink começou há cerca de vinte anos, em paralelo ao crescimento das grandes redes de livrarias, mas ganhou mais adesão no mercado com a expansão do sistema de consignação, na última década.
De baixo custo, o plástico termoencolhível, aplicado aos livros pelas próprias gráficas ou empresas terceirizadas – antes de serem entregues à editora – também é uma exigência imposta pela Amazon: plataforma líder no comércio de livros no mundo.
Ivana Jinkings, editora da Boitempo, conta que passou a utilizar o shrink pela obrigatoriedade do uso no atendimento à Amazon. Ela diz acreditar que “uma questão como essa não se resolve com um abaixo-assinado. É um uso ínfimo se comparado à infinidade de plásticos que rodeiam nossa vida. Faria mais sentido um abaixo-assinado por mais verbas para os pesquisadores das universidades públicas desenvolverem materiais biodegradáveis, por exemplo”.
Rejane Dias, da Autêntica, conta que, em sua editora, que imprime para o varejo cerca de 1,2 a 1,5 milhões de exemplares por ano, o shrink passou a ser uma realidade há cerca de treze anos, quando começou a utilizar a Amazon como plataforma de vendas. Com a pandemia e, consequentemente, com o crescimento da compra de livros na internet, o uso do shrink também aumentou.
Dias foi uma das poucas editoras a assinar o “Manifesto pelo livro sem plástico”. Reconhecendo a necessidade de proteção dos livros, ela conta que o que a levou a demonstrar o seu apoio pela campanha não foi a ideia do livro sem plástico, “mas sem esse plástico, que polui”.
Surpresa com a reação contrária à iniciativa, expressa por colegas editores, ela sintetiza sua posição: “O plástico é importante. A ideia de assinar esse manifesto é de encontrar uma alternativa para o plástico poluente. Quando um tema como esse entra em pauta, também há busca por soluções técnicas.”
Ela nota que o plástico, obrigatório para a venda nas plataformas de e-commerce, também representa uma barreira entre o leitor e o livro nas livrarias: “de modo geral, as livrarias físicas preferem que o livro fique sem plástico, para que as pessoas possam folheá-lo. Muita gente tem um certo pudor em tirar o plástico. Isso pode ser um impedimento para a própria venda de um livro.”
Lizandra Magon, escritora, editora e presidente da LIBRE (Liga Brasileira de Editoras), explica que a exigência da Amazon se dá porque “a empresa sabe que seus estoques também estão sujeitos à intempéries; enviar, portanto, um reparte de livros em caixas de papel é arriscado”.
Ela afirma que o “Manifesto pelo livro sem plástico” foi recebido pela LIBRE com surpresa, pois “partiu de uma pessoa que não está diretamente ligada à produção, à distribuição ou à venda de livros”. Ela também diz ter sentido falta do envolvimento de entidades ligadas ao livro na discussão, como a CBL (Câmara Brasileira do Livro) – que conta com uma diretoria dedicada à sustentabilidade.
Já Cotrim, incomodada com a necessidade do uso do plástico na editora em que trabalha, pesquisa há algum tempo alternativas ao material. Ela se diz otimista em relação ao “plástico termoencolhível e hidrossolúvel” – uma espécie de shrink que se dissolve em água quente –, algo que ainda não é uma realidade no mercado, mas que ela acredita estar perto de se tornar tecnicamente viável.
Uma das principais empresas que desenvolvem soluções desse tipo é a Hidrossolúvel Embalagens, fundada em 2013 para atuar na fabricação de películas plásticas à base de PVA (álcool polivinílico). A empresa explica em nota que, diferentemente do PET, utilizado para a fabricação do shrink, o PVA se dissolve em água quente sem deixar microplásticos.
Uma das demandas ainda não atendidas do mercado editorial para a adoção do plástico hidrossolúvel, no entanto, é que o material seja termoencolhível como o shrink comum. A Hidrossolúvel Embalagens afirma que “a adaptação de propriedades como rigidez, transparência e comportamento térmico faz parte dos estudos técnicos conduzidos pela empresa”.
Uma desvantagem do insumo em comparação com o já utilizado é o maior preço do material sustentável em relação ao PET, já que “envolve uma matéria-prima técnica, desenvolvimento específico e certificações ambientais”.
Insumos alternativos também são buscados por empresas como a HEDR Soluções Ecológicas – firma fundada no começo do ano passado por Davi Portes, 20, Érico Leão Castro, 20, e Henrique Caffé, 21.
Em entrevista à Cult, os sócios contam que a HEDR surgiu para atuar no ramo de plásticos sustentáveis: “nós compramos plásticos recicláveis de cooperativas de lixo e fazemos a desintoxicação desse material, gerando os polímeros PP [Polipropileno] e o PLA [Poliácido láctico], os mais sustentáveis no mercado hoje”, explica Portes. Localizada no interior de São Paulo, a fábrica da HEDR manufatura produtos – como copos e embalagens – combinando polímeros e fibras naturais de coco, cana-de-açúcar e cânhamo.
A alternativa promovida pela empresa é o wrap de celulose: uma película transparente, semelhante à já utilizada, mas elaborada a partir da polpa de celulose – substância extraída do eucalipto.
“Costumamos falar que a troca do plástico pela celulose não é uma troca de operação, mas sim de insumo, com adaptações mínimas no maquinário já utilizado”, destaca Portes. Otimista, ele afirma: “ainda não temos um preço certo, pois o material está em fase de testes, mas será muito competitivo.”
A incursão da empresa no mercado editorial é recente, como conta Leão Castro: “inicialmente, não tínhamos nenhuma pretensão de entrar no ramo editorial, mas ficamos sabendo da história do shrink, e também do senador [Randolfe Rodrigues] que está com um Projeto de Lei sobre os plásticos que envolvem livros. Entrei em contato com Afonso para nos indicar um norte – como deveríamos prosseguir e também para entendermos como funcionava todo esse processo de gráfica, editoras, distribuidoras.”
Enquanto empresas se preparam para a possível mudança no mercado, João Scortecci, atual presidente regional no Estado de São Paulo da Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica), defende que o problema do shrink é muito menor do que parece, principalmente diante da vasta gama de produtos e embalagens produzidos pela indústria gráfica, que utiliza o plástico também como material de impressão.
Ele assinala a diferença do preço entre o plástico e alternativas sustentáveis e argumenta que um aumento do custo na cadeia seria inevitavelmente repassado ao leitor, tornando o livro ainda mais caro.
Luciano Monteiro, coordenador da Comissão de ESG e vice-presidente da CBL, afirma que a instituição “recebe muito bem todas as iniciativas que estimulam o debate sobre sustentabilidade e impacto ambiental do mercado”. No entanto, ele destaca que a CBL – que representa editores, livreiros, distribuidores e demais profissionais do setor do livro – não foi consultada formalmente sobre o Projeto de Lei apresentado por Randolfe Rodrigues.
“A entidade considera fundamental que o setor editorial seja ouvido em discussões dessa natureza, justamente para contribuir com dados, experiências práticas e avaliações técnicas sobre impactos logísticos, econômicos e ambientais”, diz Monteiro.
Ele considera que a proposta traz um debate relevante, mas que ainda é necessário aprofundar o diálogo com o setor editorial, levando em conta fatores como o sistema de consignação e a necessidade de proteção dos exemplares. “Esses aspectos precisam ser considerados para que a legislação alcance seus objetivos sem gerar efeitos colaterais indesejados.”
Monteiro defende que, caso a regra seja implementada, o setor do livro e de fornecimento de embalagens precisarão de um período de adaptação, testes e investimentos em novas soluções de embalagem e logística – o que exige planejamento e ponderação dos impactos ambientais e econômicos.
Contatado, o senador Randolfe Rodrigues não respondeu à reportagem até a data de publicação desta matéria.





