O estranho caso do devorador de pétalas
Edição do mês
(Detalhe da da pintura Sombra do Amor (1867), de Frederick Sandys)
K. não se sentia bem naquela manhã; oprimia-o a má transição da atmosfera onírica. Pensamentos fugidios arrodeavam o teto: era difícil localizar-se. Algo insolitamente peculiar atrapalhava sua ordinária e repetitiva rotina. O peso na cabeça crepitava vertiginosamente, fazendo coro à angústia dos afazeres que já se esgueiravam ao redor da memória: levantar-se, escovar os dentes, mastigar e engolir, deixar escorrer água; e, por fim, sair.
Seria a nostalgia do vazio ou a violenta tristeza hodierna aquilo que atrapalhava seu dissabor matutino? Já se havia passado tanto tempo… desde que sentira algo. Não, por certo que não. Algo realmente estranho o assolava naquela manhã. Ergueu-se com mais animosidade do que lhe era habitual; arrastou-se em direção ao espelho. Foram suas extremidades que primeiro alardearam o caráter estapafúrdio de sua condição. A elas se seguiram o tremor das pálpebras, a secura da garganta, o suor do rosto – ou deveríamos dizer semblante, focinho, rostro? Pois eram de fato feições bestiais aquelas reflexas no espelho. Pupilas verticais, comissuras alongadas, língua pontiaguda e dentes caninos embasbacavam o resto de homem fulgurado no ato de contemplar a si mesmo.
Foi em uma rajada aguda que se apercebeu do inominável de sua fome, debatendo-se como caça fresca em direção à copa. Já lhe era costume alimentar-se de restos: foi, portanto, como verme faminto que deglutiu os laivos de alimento abandonados na geladeira. Mal havia tempo para mastigação; e cada novo naco fazia escorrer sumos de não se sabe o que pelos cantos da boca. Foi em meio a essa fazedura e júbilo que discerniu circunvoluções espasmódicas nas vísceras. Correu à latrina: era uma parte de si que morria e deslizava em meio aos dejetos daquela vida mal digerida. Era-lhe impossível respirar naquela aerosfera sulfúrica. Toda vida batalha por mais ar – oxigênio.
Rapidamente se lembrou do sendeiro em direção à montanha. Esgueirou-se até a porta e desceu silente para não ser reconhecido. As lufadas frescas instigaram sua vontade silvestre, e o corpo inteiro respondia agora ao chamado da selva. Denominam Schweiß o rastilho de sangue deixado por um animal ferido na caçada; o entorpecimento dos sentidos aguçados quando da proximidade da presa. Não seria demasiado afirmar que os sentidos de K. estavam agora à flor da pele, e que mesmo a menor transação dos sentidos se harmonizava à melodia de sua vida pulsante. O sangue fervia; a circulação tamborilava pelos tímpanos. O viço do ritmo se assemelhava a uma sonata – uma sonata a K. A longínqua clareira montanhosa foi atingida em um só instante. Foi ali que a viu: primeiro de relance, depois já com os dentes, com a boca.
A carne macia correspondia plenamente ao aroma apreendido pelo faro; e antes mesmo de a conceber pela razão, já a consumia com as categorias concebidas pelo estômago. Era difícil distinguir algo além da compenetração apascentada da racionalidade bulímica. Foi a estranha sensação de perigo a alertar que a fome, mais do que saciar, esfaimava ainda mais o seu ventre bestial. Mas já era tarde; e quando se percebeu furiosamente herbívoro, a desmantelar os últimos bocados de uma ensanguentada pétala chamada Vida, ingurgitou-a de uma só vez – e então morreu.
Claudio Cavargere, 29 anos, é filósofo e escritor
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