Vidas de crianças e adolescentes comprometidas pelos processos de patologização

Vidas de crianças e adolescentes comprometidas pelos processos de patologização
A personagem Emília, do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, em detalhe da ilustração de capa do livro Memórias da Emília, de 1945 (BELMONTE/REPRODUÇÃO)
  Há pouco mais de 30 anos, uma conceituada revista médica internacional, British Medical Journal, publicou os resultados de um levantamento sobre o que médicos ingleses enquadravam na definição de não doença: processo ou problema humano que alguém definiu como uma condição médica, em que as pessoas poderiam ter melhores resultados se não o encarassem dessa maneira. A hiperatividade em crianças foi apontada por 13% dos médicos como uma não doença. O editor da revista ressaltava que o objetivo da pesquisa não foi desqualificar sofrimentos reais e suas causas, mas alertar sobre o crescente processo de medicalização da vida. Hoje, nos Estados Unidos, crianças com menos de dois anos de idade recebem o diagnóstico de “tempo cognitivo lento” e tomam psicoestimulantes como pretenso tratamento. O que se passou nesse curto período de tempo? Como chegamos a isso? Como se naturalizou que o número de pessoas com diagnóstico de transtorno mental seja crescente, a ponto de logo se aproximar de 50% dos seres humanos? Em que ponto o direito a aprender foi transformado em direito a não ser reprovado? Menino Maluquinho não existe mais, está rotulado e recebendo psicoestimulantes para TDAH; Mafalda está “tratada”, e seu transtorno opositor desafiante (TOD) foi silenciado; Xaveco não vive mais nas nuvens, aterrissou desde que seu déficit de atenção foi identificado; Emília, tão verborrágica e impulsiva, está calada e quimicamente contida. Todos recebendo substâncias psicoativas, que não podem tratá-los de uma patologia que não t

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