A ousadia transgressora de uma individuação feminista
Sem título (1960), de Adelina Gomes Acervo Museu de Imagens do Inconsciente)
Em 1944, oito anos após ter sido presa sob a acusação de ser comunista, Nise da Silveira é readmitida no serviço público. Passa a trabalhar no antigo Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro (RJ), um dos maiores hospícios do Brasil na época. É ela que nos conta que “durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usava. Aquele miserável daquele português tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de cardiazol. Fui trabalhar numa enfermaria com um médico inteligente, mas que estava adaptado àquelas inovações. Então ele me disse: ‘A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque’. Paramos diante da cama de um doente que estava ali para tomar eletrochoque. O psiquiatra apertou o botão e o homem entrou em convulsão. Ele então mandou levar aquele paciente para a enfermaria e pediu que trouxessem outro. Quando o novo paciente ficou pronto para a aplicação do choque, o médico me disse: ‘Aperte o botão’. E eu respondi: ‘Não aperto’ ”.
O que fez com que Nise não apertasse o botão? A que desígnios sua alma obedecia ao transgredir a normatividade da medicina de sua época e a que conjunto de atitudes essa normatividade dizia respeito?
O século 19 na Europa trouxe consigo o nascimento de uma série de ciências que passou a regulamentar ou a prescrever as formas de como se viver. É nesse contexto em que a figura do médico se transf
Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »





