Um domingo qualquer no Maracanã
Edição do mês
Torcida do Botafogo no Maracanã, em 1971 (Arquivo Nacional/Fundo Correio Da Manhã)
Sexto andar. Quando as portas do elevador do setor das cadeiras do Maracanã se abriam, o que antes era um rumor longínquo se transformava no zunido da multidão, como se estivéssemos dentro de um búzio pré-histórico, no qual o som contínuo do mar primevo se fazia onipresente. O coração batia mais forte, o sangue fluía mais intenso. Em dia de clássico, nada mais importava no interior dessa concha sonora monumental.
E havia as cores. Nas bandeiras, nas camisas, nas faixas penduradas pelas organizadas. À direita, a transcendência provocada pelo contraste do preto e do branco, o céu e o inferno; lá ficavam os povos de Vasco e Botafogo. À esquerda, o vermelho e o preto aberrante, ou o carnaval das listras verde, branco e grená; Flamengo e Fluminense ocupavam ali o território.
Som, cores, o bafo quente carioca e os odores – de suor, talco barato da torcida “pó de arroz” e cerveja – preparavam os espíritos para a Festa que estava por começar. A festa atávica capaz de nos transportar para um tempo no qual vida e morte travariam a batalha final. Sempre a primeira e sempre a última. Nosso destino trágico se decidiria ali. Ainda que soubéssemos que, mesmo tendo jurado nunca mais assistir àquela porcaria de time, ainda haveria o próximo jogo, até o fim dos tempos.
A Festa vitalizadora dos sentidos
As sensações que nos constituem a partir das experiências corporais promovidas pelos sentidos – audição, visão, olfato, tato e paladar – são o que vitalizam nossa experiência primordial de infante no período “monis
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