Paula Macedo Weiss: “Vivemos hoje um aumento do ódio ao estrangeiro”

Paula Macedo Weiss: “Vivemos hoje um aumento do ódio ao estrangeiro”
Paula Macedo Weiss, autora do romance "O Solo", publicado pela Contracorrente (Imagem: Divulgação)

 

 

“Identidade não é um ponto no mapa, mas um território em construção.” Com essa frase, Edilene Lobo sintetiza o eixo central de Solo – obra para a qual assina o prefácio.

Escrito por Paula Macedo Weiss, o romance acompanha a trajetória de Hannah, nascida no interior do Paraná e descendente de alemães que migraram após a Segunda Guerra Mundial. Desde cedo, ela cresce cercada por relatos sobre o Holocausto, a culpa histórica alemã e as diferentes ondas migratórias que trouxeram ao Brasil tanto vítimas – seus avós, por exemplo – quanto perpetradores do regime nazista.

Movida por esse legado, Hannah decide estudar Direito na Alemanha como forma de confrontar a própria herança. Ao longo da narrativa, mergulha em um processo de resgate de suas origens e redescobre o valor das trocas culturais na construção de sua identidade. “Determinante para Hannah foi entender que não era solista nessa dança contemporânea, mas parte de uma rave global”, afirma a autora à Cult.

Primeiro romance de Weiss – advogada que também publicou os livros Entre nós (Folhas de Relva, 2020), Democracia em movimento (Folhas de Relva, 2022) e Aurea (Folhas de Relva, 2023) –, Solo chega às livrarias pela Editora Contracorrente. Na entrevista a seguir, a autora (radicada na Alemanha, mas atuante no circuito cultural brasileiro) fala sobre a gênese do livro e sobre a responsabilidade histórica alemã diante do colonialismo e do nazismo, além de abordar os dilemas da experiência migrante.

 

Como surgiu a ideia de escrever Solo?

Eu venho do Norte Pioneiro do Paraná, região que, por excelência, é fruto de um movimento migratório interno e externo intenso. Desde pequena, em diferentes momentos e contextos da minha vida, ouvi, presenciei e vivenciei inúmeras histórias de migração: a migração interna dos meus avós, de outros estados do Brasil para o norte do Paraná – o eldorado brasileiro nos anos 30 e 40 do século passado; a imigração europeia e japonesa para essa região, onde nasci e cresci rodeada por pessoas de várias etnias, cada qual com suas histórias na bagagem. Na minha infância e adolescência, várias culturas fizeram parte da minha formação. Até que, um dia, eu me tornei estrangeira em outra terra. Depois de mais de 30 anos na Alemanha, de muitas experiências e do convívio com diferentes pessoas, a ideia de Solo foi amadurecendo paulatinamente. Solo é um caldo de experiências compartilhadas e a quintessência da necessidade inerente a todos de inclusão e pertencimento.

O que a levou a migrar do direito para a literatura?

Eu estudei Direito no Brasil, fiz mestrado e doutorado na Alemanha e demorei muito para sair de um mundo e entrar no outro. Sentir-se no direito é um ato complexo, que não depende só de você, mas também da receptividade do entorno. E o segredo, para mim – se é que existe uma fórmula mágica –, foi acumular mundos. As migrações têm diferentes formas, cadências e tempos. Migrar implica ação, movimento; pode significar mudança de lugar, de realidade, de ponto de vista, de área de conhecimento e assim por diante. As migrações podem ser geográficas, temáticas, emocionais ou intelectuais, e sempre implicam ganhos e perdas. Jamais ouvi dizer que migrar foi sem atrito. O atrito gera perda de energia, mas também pode criar fogo – e isso me instigou a escrever o livro. A “vontade de potência”, de Friedrich Nietzsche, diz respeito à busca constante por superação de limites, expansão e crescimento – uma força afirmativa de ir além, que também se expressa na criatividade humana. Eu já migrei de e para muitas terras, mas também entre diferentes áreas do conhecimento. O direito me levou à arte, que me trouxe de volta ao tema da democracia, que, por sua vez, me levou à literatura. Essas áreas se fecundam reciprocamente, num processo criativo contínuo.

Além da memória da Segunda Guerra, Solo também sugere reflexões sobre colonialismo e responsabilidade histórica europeia. Como esse debate aparece hoje na Alemanha e de que forma ele atravessa a experiência migrante narrada no romance?

O debate sobre responsabilidade histórica no colonialismo é muito deficitário na Alemanha. Na verdade, o conhecimento sobre seu passado colonial é bastante reduzido. Não há uma consciência coletiva nesse sentido. Há grupos políticos na sociedade alemã que reivindicam que a história colonial seja lembrada, assim como descendentes de povos colonizados exigem o direito de terem suas vozes e perspectivas ouvidas. Ainda hoje, o passado colonial não faz parte do discurso público: não há monumentos no espaço público, não há datas dedicadas à memória desses crimes, há muito pouco conteúdo nos livros escolares e quase nenhum conhecimento sobre onde ficavam as colônias e o que ocorreu nesses territórios. Está mais do que na hora de a Alemanha reavaliar seu passado colonial, confrontá-lo e assumir sua parcela  de responsabilidade nesse crime contra a humanidade. A cultura da memória é forte em relação ao Holocausto, mas praticamente inexistente no que diz respeito aos crimes coloniais. Essa história precisa ser lembrada, processada e reescrita, como todas as outras. O tema do colonialismo atravessa a experiência migrante na sociedade alemã – e também a narrativa do livro –, pois o sistema colonialista persiste, de forma inconsciente, na mentalidade das pessoas, nas estruturas de poder e de conhecimento, na visão eurocêntrica de mundo, pautada por um universalismo excludente, no apagamento – ou na exotização – do corpo migrante e no epistemicídio. Hannah vivencia isso constantemente, seja por meio da xenofobia, da misoginia ou da sobreposição de ambas. O racismo, fruto desse sistema, sempre existiu, mas vivemos hoje um aumento do ódio ao estrangeiro, que, na minha opinião, reflete a disrupção dessa perspectiva europeia de mundo. Esse é um dos grandes perigos atuais: a homogeneização da sociedade é contrária aos valores democráticos. A democracia vive da heterogeneidade. Paradoxalmente, a Alemanha precisa de migrantes para continuar funcionando – assim como Hannah precisa da sua singularidade para existir.

A maternidade marca uma inflexão importante na trajetória de Hannah. De que modo ela reconfigura sua condição de migrante?

Há culturas em que o maternar é mais comunitário, em que a família estendida faz parte desse universo; em outras, como na Alemanha, o maternar é uma atividade extremamente individual e solitária. A maternidade mexeu profundamente com Hannah, tirou seu prumo. Em um momento em que ela ainda não estava enraizada na sociedade, o luto pela perda de autonomia foi perturbador. Até o nascimento da primogênita, ela gozava de plena liberdade. Depois, deixou de ser livre: passou a ser guiada pelas necessidades da filha. Respondendo ao comportamento de grupo, adequou-se ao padrão social vigente: a mãe exemplar que fica em casa cuidando da criança. Hannah se deixou influenciar pelo que achava que deveria ser, pelo que esperavam dela – ou pelo que imaginava que esperavam – e parou de trabalhar. Essa decisão reforçou sua sensação de exclusão; nunca se sentiu tão estrangeira. Levou um tempo até se recompor e voltar a lutar por seus ideais. Primeiro, ela precisou entender que suas próprias necessidades eram tão vitais quanto as da filha; que seu amor por ela não estava em disputa com seus desejos; e que, para se firmar nesse novo mundo, precisava voltar a ser inteira.

No final do livro, a migração é descrita como “uma dança dos corpos no mundo global e contemporâneo”. Como essa imagem ajuda a pensar a experiência migrante narrada em Solo?

Em uma realidade em que estar em trânsito é a regra, em que o fluxo de pessoas cresce continuamente e a migração se torna a norma, a dança dos corpos à qual me refiro é o exercício diário de Hannah para se afirmar entre mundos. Foi fundamental para ela entender que podia pertencer a uma comunidade sem abrir mão de sua própria história. Precisava ser percebida não apenas como parte de uma minoria, mas também como integrante da sociedade como um todo. Determinante foi compreender que não era solista nessa dança contemporânea, mas parte de uma rave global – onde muitos estão na mesma balada.

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