Excertos de romance, por Mia Couto – a convite da Cult

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Excertos de romance, por Mia Couto – a convite da Cult
‘São Cristóvao Carregando o Menino Jesus’ (1500), de Hieronymus Bosch
    Excertos do capítulo um 1. A primeira vez que o meu filho teve casa foi num caixão. Digo “caixão” e logo me arrependo. Onde deitei a minha criança foi numa caixa de sapatos. O menino enroscou-se como se fosse o seu primeiro berço. Caminhei às cegas à procura de um chão para o semear. Em vão. Sob os meus pés tudo era pedra. Trouxe a caixa para dentro de casa, acendi uma vela e prendi-a entre os dedos do menino. Só então vi como as mãos dele eram pequenas. Nunca tinha visto nada tão pequeno. Aqueles dedos, cinco pequenas luas, iam carregar-me a vida inteira. A vela apagou-se. A noite enrolou-se na curva daquela mão. 2. Tudo começou no dia anterior, na Igreja da Luz Eterna. Eu não queria que a criança fosse batizada. Temos as nossas maneiras, seguimos as leis dos antigos. Ezequiel insistiu. Vai ter de ser na igreja, disse ele. É uma questão política, argumentou. Já temos um templo em Mundandeia, já temos um pastor brasileiro, já temos um grupo coral que canta em inglês evangélico. O que vai dizer o meu patrão quando souber que continuamos a seguir as tradições? Por amor de Deus, Benjamina, nós somos quem? Uns indígenas? – Só quero respeitar as nossas leis, marido... Ezequiel não ouviu. Com o bebé ao colo arrastou-me até à igreja. Cumpriram as cerimónias deles. Fiquei sentada nas pedras da margem enquanto Ezequiel e o pastor se meteram no rio, a água pela cintura e a lama pelos tornozelos. De repente, o menino soltou-se das mãos do pastor. Tentámos apanhá-lo, mas a criança não

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