Três poemas, por Ana Martins Marques – a convite da Cult
Edição do mês
(acervo Fundação Maria Luisa E Oscar Americano obras de autoria desconhecida (século 19) – a partir de Albert Eckhout)
Trilha
Caminhando pela trilha branca
entre flores duras, pedras arredondadas
pela água do tempo
e o tentáculo das árvores,
espreguiçando-se,
sob um céu nublado que
como que descascado
deixa ver aqui e ali
seu fundo azul pintado
de repente um quero-quero para
me olhando fixamente
antes de voar
espantados eu e ele
de eu existir
Tartarugas
Nesta temporada apareceram muitas tartarugas
mortas na areia
tão grandes quanto um velotrol
quanto um carrinho de mão pequeno
poças de pano
e silêncio
cinzentas, parecendo muito antigas
ou sem cor e sem idade
ninguém soube explicar o motivo
de serem tantas
obviamente seria ruim para o turismo
se no paraíso também se morresse
nós mesmos topamos com uma delas na praia
paramos uns instantes observando sua constituição
tão dura e tão mole
tão rígida e tão frágil
pedra e nuvem
carne e couraça
enquanto ela voltava a se fundir a tudo
depois nos afastamos rapidamente
antes que começassem as metáforas
Iluminuras
Aquele quarto que parecia estar sempre aceso
como uma iluminura num livro
e que enchíamos de livros usados, vinho barato
e conversas noturnas
de manhã contávamos nossos sonhos um para o outro
e depois não sabíamos de quem era o sonho
em que eu aparecia descalça numa festa ou em que você
mastigava bolas de natal e dirigia um carro de olhos vendados
nos lençóis meio ásperos e não tão limpos
(o que não pagaríamos para dormir ali agora)
a cada noite líamos um para o outro ao meno
Assine a Revista Cult e
tenha acesso a conteúdos exclusivos
Assinar »





