“Amor & Sexo” e os feminismos

“Amor & Sexo” e os feminismos

Cena do programa Amor & Sexo exibido na última quinta (26) (Foto: Ellen Soares/Gshow)

Estrategicamente, devemos continuar a falar só para nós mesmas e rechaçar essa abertura (ainda limitada) da mídia hegemônica?


Vanessa Berner e Luciana Boiteux

Nos propomos a fazer aqui algumas considerações sobre o programa Amor & Sexo da Rede Globo de Televisão, que foi ao ar na última quinta (26), sobretudo pela polêmica que provocou após sua exibição. Começamos pelo que ele teve de positivo e terminamos com uma proposta.

Em primeiro lugar, a pauta foi, efetivamente, feminista. O espaço dado às mulheres negras e a abertura para temas que dizem respeito ao feminismo foi até mesmo surpreendente, diante do quadro de invisibilidade que geralmente nos é reservado. Assuntos que praticamente inexistem (ou existem de forma estereotipada) na programação da emissora, tais como assédio, violência contra as mulheres, opressões de raça, prostituição, visibilidade trans e objetificação da mulher foram abordados por suas próprias protagonistas. Até do clitóris se falou, o que é muito relevante, considerando que apenas em 2016 este espetacular (e desconhecido) órgão do corpo feminino, cuja única função é o prazer, foi pela primeira vez estilizado em um modelo anatômico (a importância que a ciência dá às mulheres, não?). E ainda teve pílula do dia seguinte e prevenção a DSTs.

Em segundo lugar, tudo isto foi comentado e bem explicadinho por mulheres relevantes para o debate feminista contemporâneo, como Djamila Ribeiro, Monique Prada e Antonia Pellegrino.

Podemos não apreciar o roteiro ou o formato, um show de humor com piadas e falas péssimas feitas por homens bobos, mas não é demais lembrar que teve a homenagem à diva Elza Soares feita pela tombadora Karol Conka, além do destaque para a diversidade das dançarinas fora do padrão estético “perfeito” e para a maravilhosa cantora drag Pabllo Vittar.

As perguntas que se colocam diante das tretas que surgiram após o programa ir ao ar são as seguintes: estrategicamente, devemos continuar a falar só para nós mesmas e rechaçar essa abertura (ainda limitada) da mídia hegemônica? E mais: cabe criticar as mulheres que foram ao programa, alegando que isto seria um tipo de “feminismo global” ou “mainstream”?

Falar de gênero é falar de relações de poder. E isto não pode ser esquecido quando a questão é negociar as normas que regulam essas relações. Não encarnar o gênero, a performance que é esperada do gênero designado, pressupõe arriscar a possibilidade de ser real diante dos olhos dos outros. Em alguns casos, pode implicar em arriscar a própria vida, como se confirma pelos altos índices de assassinato e agressão por homofobia, transfobia ou misoginia. Então não devemos ouvir as mulheres trans, nos unir a elas? Devemos desconsiderar as prostitutas e suas pautas? Devemos ignorar as mulheres negras e suas justíssimas reivindicações? Devemos negar-lhes um espaço que nunca se abre para elas?

Ser mulher é uma questão política. E essa questão é o que estabelece nossos cativeiros, como defende a antropóloga feminista mexicana Marcela Lagarde. O que seremos, o que somos, depende de nossa condição sócio-histórica, da relação entre o ser e a existência, o abstrato e o concreto, depende dos fatos particulares que nos colocam em nossos  próprios cativeiros. Para nós, mulheres, há poucas opções quanto aos nossos modos de vida: podemos escolher entre ser mães-esposas, putas, freiras, presas, loucas. E só. E todas as opções se relacionam com nossa sexualidade.

Todas nós, mulheres, ocupamos um ou mais de um desses espaços: casa, bordel, convento, prisão, manicômio. Nossa sociedade, nossa cultura nos coloca dentro desses muros, construídos em torno dos aspectos definidores da feminilidade dominante, seja ela boa, aceita, positiva, saudável, ou, ao contrário, negada, doente, delitiva, oculta. Passamos a vida enredadas nas tramas tecidas ao nosso redor conforme se realize o círculo particular de nossa sexualidade e do poder: nossos corpos são procriadores ou eróticos, para os outros ou para o divino, mas sempre submetidos ao poder externo. Sempre incompletas, sempre politicamente inferiores aos homens. Somos territórios de disputa a serem ocupados e dominados no mundo patriarcal.

Como e em que grau ocorrem essas dominações depende da situação de cada mulher, dos espaços sociais e culturais em que estão inseridas, dos bens materiais e simbólicos que cada uma possui, de sua capacidade criativa para viver e sobreviver no cativeiro. Somos, cada uma de nós, únicas em nossa complexidade, podendo ser muitas ao mesmo tempo, simultaneamente subalternas ou transgressoras. Apesar de tudo, muitas de nós, mulheres, abandonamos os rígidos marcos que estabelecem para nossa feminilidade, seja compulsoriamente, seja por vontade própria, a fim de encontrar uma nova forma de vida. As que não se enquadram no estereótipo, porém, são consideradas um equívoco, doentes, incapazes, alopradas… e, de uma forma ou de outra, sempre cumprem, ainda que parcialmente, com o papel contra o qual se rebelaram.

Então, diante deste quadro, o puta feminismo, o feminismo negro, o feminismo indígena, o transfeminismo, o feminismo chicano não são assuntos nossos?! E quando são apresentados lindamente em cadeia nacional devemos calar essas mulheres, acusá-las do que nunca foram (mainstream – é isto mesmo?!), retirar delas o protagonismo das próprias histórias e perder a oportunidade de ouvi-las?

Respeitamos (e até entendemos) certas críticas ao programa, faltou muita coisa naquele espaço de tempo e de exibição, mas, manas, sempre que mulheres (especialmente as que não são brancas, acadêmicas, de classe média, normativas) tiverem espaço para falar sobre as opressões, sobre a violência, a raça, os direitos, o salário, a pílula do dia seguinte, a sexualidade, o machismo, o antipatriarcalismo, seja na Globo, na praça ou na rádio comunitária popular, terão nosso apoio incondicional.

A teoria feminista aliada à prática, essa práxis feminista de resistência capaz de nos apontar o caminho da liberdade, da democratização da sociedade e da cultura em que estamos inseridos é que tem que ser nossa bandeira. Porque cada uma de nós, como mulher particular e única, carrega em si a síntese do mundo patriarcal, suas regras e proibições, suas obrigações, seus mecanismos de aprendizado, sejam eles ideológicos, afetivos, intelectuais, políticos… E somos também o que não pode ser, insistindo em nos manifestarmos em espaços em que a divisão de classe, gênero e raça estão colocados cuidadosa e intencionalmente para nos manter nos respectivos compartimentos, cativas das categorias sociais de onde viemos. Ainda que o espaço que se nos apresente seja o programa Amor e Sexo da super-hiper-mega-mainstream-onipotente-onipresente Rede Globo.

É que, não obstante a vida que vivemos, dentro de cada uma de nós se encontra o outro, habitam as instituições, estão as concepções do mundo e do poder. Cabe-nos escolher, portanto, nossas práxis, redefinirmos as regras do mundo, traçarmos novas formas de exercício do poder. De preferência coletivamente, com as outras mulheres (todas, sem exceção!), unidas no mundo visível e no mundo que está oculto, a partir de nossos corpos, de nossa sexualidade, de nossas histórias, de nossas lutas, tão diversas mas com tanto em comum. Para romper o véu pesado do silêncio e viver a vida que pensamos para nós, precisamos, urgentemente, fazer nossas próprias alianças entre os feminismos, mas acima de tudo precisamos tensionar o status quo com nossas pautas, rompendo barreiras e ocupando espaços que se abrem.

Vanessa Berner é professora Associada de Direito Constitucional da UFRJ
Luciana Boiteux é professora Associada de Direito Penal da UFRJ

(1) Comentário

  1. Como as mudanças ocorrem paulatinamente sobre o feminismo e outras causas que necessitam de urgente atenção e mínima aplicação para que haja decência humana, ao menos, é claro que até o programa “Amor & Sexo”, venha a ser tido como alguma potência (até mesmo pela famigerada emissora). Porém, é inevitável recordar que o espaço de discussão é em termos de qualidade por profundidade e camadas: mínimo, justo mas vergonhoso. Ao mesmo tempo que é dada a chance de uma mulher fora do padrão branco de classe média falar, isso também não acontece. A imagem da moça negra que veio debaixo está lá, a gravação foi feita, é contada em segundos sua história, é tocante…É tudo muito bem organizado para não ser algo potencialmente crítico! É tudo meio abrupto, não reflexivo, não massante, e com isso menos real e menos valorizado. A carga pesada do entretenimento enuvia demasiadamente os assuntos, todavia, antes algo que nada.

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