Você nunca viu uma CPI como essa

Você nunca viu uma CPI como essa
Os senadores Randolfe Rodrigues, Renan Calheiros e Omar Aziz na CPI da Covid (Foto: Edilson Rodrigues)

 

A CPI da Pandemia é o novo BBB, quer dizer, aquele tipo de programação a que todo mundo assiste mesmo sem jamais ter parado para acompanhar a sua exibição no momento em que está passando na TV. Como o BBB, o programa se multiplica em mil plataformas, para além da fonte original de emissão. Há vídeos, áudios e resumos em programas de jornalismo de televisão, rádio e impressos; há vídeos e memes espalhados por grupos e redes de contato no WhatsApp; e tem opinião, discussões e muitos, muitos textões sobre a CPI da Pandemia, os seus personagens e frases do dia em qualquer esquina digital que você frequente. 

A CPI é ubíqua e nos alcança, em fragmentos ou highlights, mesmo se a gente não estiver prestando atenção ou interessado. Desse ponto de vista, nunca houve uma CPI como esta. 

E isso acontece, em primeiro lugar pela particularidade de um inquérito para determinar se o governo tem culpa no cartório por uma pandemia que flagela de maneira singular o nosso país ao mesmo tempo em que a inação, a incompetência e as deliberações do governo vão matando e adoecendo os nossos cidadãos. Chega a ser desconcertante ver membros do governo defendendo políticas, decretos e falas públicas dessa administração que continuam fazendo vítimas no exato momento em que eles falam no auditório do Senado Federal. É como se, de algum modo, estivesse acontecendo um julgamento de Nuremberg não depois, mas durante a II Guerra Mundial, com as chaminés dos Campos de Extermínio ainda fumegantes. É algo decididamente singular.

Além disso, há uma segunda peculiaridade nessa CPI, conferida pelas  comunicações digitais. Também isso é um fato sem precedentes. Talvez você, meu caro leitor, não tenha parado para pensar em como a sua vida foi transformada digitalmente de uma maneira única desde março de 2020, quando se viu obrigado a precipitar a digitalização da existência em toda as dimensões possíveis: trabalho, comércio, transações bancárias, estudo, ginástica, lazer, consumo cultural, relações pessoais e amorosas e, naturalmente, política. Com todas as consequências que isso comporta.

Uma delas é a busca de espaços e temas comuns. Nos movemos do BBB para CPI com a mesma facilidade com que nos moveremos, quiçá, para acompanhar os Jogos Olímpicos. Não gostamos de ficar sozinhos, nem quando estamos online. Outra, é que a política agora nos chega simultaneamente por múltiplas fontes, todas elas digitais, e, sim, de forma redundante, pois a redundância é uma das características da vida em rede. Por fim, há as interações sociais por meio digital que se dão porque estar online não é mais simplesmente ter uma janela aberta em um computador ou um smartphone, mas estar em vários ambientes sociais digitais ao mesmo tempo, produzindo e consumindo informações, compartilhando afetos e vínculos identitários. 

Não é à toa que os próprios senadores da Comissão passem o tempo todo divididos entre a inquirição de depoentes e os ambientes digitais onde eles próprios se inserem. Assim, vimos Renan Calheiros levando ao auditório do Senado indagações sugeridas por seus seguidores no Twitter ou no Instagram, como também vimos seguidores e amigos digitais de senadores funcionando como checadores de declarações de depoentes, e, enfim, vídeos estocados no YouTube sendo usados para mostrar, ao vivo, eventuais contradições das testemunhas. É a CPI mais online e participativa da história das comissões parlamentares de inquérito do Brasil. 

Isso confere à CPI a particularidade de uma ágora grega, um anfiteatro sem paredes ou teto, sem portas ou guardas, em que, por princípio, qualquer um pode ver ou ouvir o que está sendo dito. 

Isso significa muitas coisas, mas gostaria de destacar duas delas. A primeira é que o jornalismo perde grande parte do seu poder de filtro e editor, diante da opinião pública, do que acontece na Comissão. Ninguém precisa esperar que os telejornais da noite ou os jornais da manhã selecionem, enquadrem e editem os fatos do dia anterior. Isso não quer dizer que ninguém mais faça o papel de nos dizer em que prestar atenção ou o que pensar do que está acontecendo, ou, até mesmo, de nos dar o contexto mais geral para a compreensão daquilo a que assistimos. Alguns de nós somos os nossos próprios editores e fazemos os nossos próprios filtros, mas outros vão acompanhar os fluxos de comentários, enquadramentos, análises e memes dirigidos por influenciadores digitais, centros dos hubs das redes sociais digitais, líderes de opinião nos ambientes digitais. O que retira o poder do jornalismo e o transfere às próprias redes sociais em que cada um se localiza. Para o bem e para o mal. Sendo que o mal, no caso, consiste em mais polarização, mais propaganda, mais leituras e interpretações tribais, mais viés de confirmação em conformidade com bolhas e com facções políticas. 

 

 

Por outro lado, a extrema
visibilidade da CPI traz
consigo consequências
importantes no que se
refere ao comportamento
dos senadores e dos depoentes.

 

 

Todo teórico da democracia liberal sempre reivindicou mais transparência pública, na certeza de que o teor republicano das pessoas aumenta exponencialmente quando à vista e ao alcance de todos os cidadãos. Da razão pública de Kant, ao panóptico de Bentham, sempre havia a crença de que quanto mais luz se lançasse sobre o comportamento de autoridades e funcionários públicos, mas se aumentava a virtude democrática do seu comportamento. Na prática, porém, dá-se outro fato, que é o considerável incremento e sofisticação da atuação teatral das pessoas no centro da cena bem como dos artifícios voltados à manipulação do público. Em vez de mais sinceridade, forçada pelo permanente olhar público e a constante possibilidade do flagrante, temos atores especializados em representar permanentemente os papéis que se propõem e em jogar para plateia. 

Se não sabíamos, aprendemos com a CPI, que uma política sob extrema visibilidade não é automaticamente uma política que deixa a autoridade pública mais vulnerável e atenta ao interesse geral. Se é verdade que o incessante escrutínio público, a vigilância perpétua, o acompanhamento em tempo real funciona para tirar senadores e depoentes do conforto do sigilo e da discrição que se instalam “quando ninguém está olhando”, por outro lado, sob holofotes que nunca desligam, todos se esforçam para criar os personagens que desejam, para agradar ao público que imaginam ou pretendem, e produzir os efeitos dramáticos e emocionais que lhes interessa produzir na sua audiência. 

E assim como não há um auditório um universal para a retórica, não existe um público universal para as artes cênicas em um mundo digital. Cada ator no palco, o que depõe ou o que o interroga, tem em mente um público preciso e as expectativas que essa plateia abriga. Cada um tem uma ideia de que papel recitar para conseguir o aplauso final, não de todos, mas daqueles a quem se dirige. Não naquele auditório, mas nas audiências digitais.

E, assim, a plateia de uns, não é a plateia de outros. E se a uma parte dos presentes, ao jornalismo ou a uma parte da audiência geral aquela fala e aquela performance não agradam, é provavelmente porque não foi recitada nem representada para estes, e sim para outro público, que espia, torce e vibra por meio de uma janela digital. Daí os diferentes roteiros, os tão distintos personagens e até a diversidade de gêneros dramáticos – da comédia ao drama, da épica à farsa – todos sendo executados ao mesmo tempo, em uma tela ou telinha perto de você. 

É ou não é uma CPI singular?

Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)


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