Vítimas: inversão e banalização

Vítimas: inversão e banalização

A questão das vítimas é das mais delicadas. Nunca será uma questão resolvida, porque a vítima é aquela pessoa para a qual a justiça é sempre tardia. Vítima é o termo que implica uma marca, uma condição cujos efeitos podem até vir a ser passageiros, mas são sempre marcantes em intensidades diversas no amplo espectro em que podemos falar da condição de vítima. A condição da vítima é complexa e sua existência, que sempre pode ser a nossa própria, precisa ser olhada com muito respeito.

Há, em que pese o respeito devido por todos a todas as pessoas que são vítimas, um uso abusivo da condição de vítima, na forma de discursos que são proferidos atualmente sem vergonha alguma. Por meio deles, somos testemunhas de um processo crescente de banalização da condição de vítima. Os exemplos que nos permitem pensar nisso são os seguintes.

O primeiro exemplo, refere-se ao posicionamento dos que se colocam na posição de vítimas de “heterofobia”. Tempos atrás um deputado conhecido por sua homofobia expressa de muitas formas, apareceu como quem “invertia o jogo” do preconceito que cada preconceituoso recria a cada instante, se colocando na posição de alguém que sofria de “heterofobia”. Em seu ponto de vista, ele seria a vítima de ódio por ser um representante da heterossexualidade em uma sociedade em que a “homofobia” é a regra. Mas mais grave, ele tentava esconder essa regra por meio de uma equiparação ao que não tem sequer termos de comparação. Em palavras bem simples, ele tentava produzir efeitos com o seu gesto: o primeiro seria a diminuição da gravidade do seu gesto habitual homofóbico, o segundo seria a banalização da homofobia já que, comparada ao seu contrário, ela seria também algo em nome da qual as pessoas também agem de modo natural. Por fim, as vítimas da homofobia seriam criminosas quando se tornassem heterofóbicas. Trocando o lugar da vítima, equiparando os crimes e as vítimas, já não teríamos vítimas nem criminosos, e ele, como criminoso, estaria ileso, tendo conseguido, além de tudo, fazer pesar sobre sua vítima a condição de culpada. A inversão é uma distorção – como já escrevi a tempos atrás. Ela é doentia e só convence quem precisa praticar o mesmo tipo de cinismo.

Passemos a outro exemplo. Pessoas e políticos conhecidos por gestos e atos de intolerância religiosa passaram a sustentar a ideia de uma “cristofobia”, da qual seriam vítimas. Manifestações artísticas como a da performance artístico-política de Viviany Beleboni na Avenida Paulista foram interpretadas na base de má-fé. Sua performance era uma reação ao clima autoritário das próprias igrejas ou fiéis que fomentam o ódio enquanto o projeto de Cristo, seu líder, afirmava justamente o contrário. Nada mais legítimo do que um artista, ou uma pessoa qualquer, praticar um ato estético. Ora, toda arte é política, mas há intensidades do político nas obras de arte e, talvez, algo que possa soar político demais – por dizer diretamente aquilo que ninguém, ou quase ninguém, quer ver – possa ofender quem não conhece ou não está acostumado com a lógica interna das operações artísticas. Arte é algo que causa efeitos na mentalidade e na sensibilidade de uma época para provocar reflexão e, quando a reflexão ocorre, processos de autonomização da consciência e dos afetos. Provavelmente muitas pessoas tenham se dado conta das contradições de certos agentes em nome da religião no que se refere ao respeito à sexualidade e ao gênero. Outros preferem apenas praticar a lógica da inversão em sua má fé.

Na mesma linha, podemos citar um deputado, famoso por afirmações que demonstram grave limitação reflexiva, que declarou em público ser “sobrevivente do aborto” equiparando-se a “sobreviventes” de campos de concentração, ou seja, sobreviventes de fato aos quais direitos são devidos, e rebaixando a experiência das catástrofes concretas vividas em situações de fato. Mas sobre esse exemplo da legalização do aborto, já escrevi tanto que prefiro remeter o leitor à pesquisa.

Do mesmo modo, como bem analisado por Djamila Ribeiro, as tentativas de configurar um “racismo reverso” faz parte desse cenário de reconfiguração das vítimas em um nível perverso. No caso do racismo reverso se oculta a questão mais profunda de um sistema de opressão e negação de direitos que rebaixa a própria questão racista a um problema de “xingamentos” e de idiossincrasia. Como se o racismo não existisse em condições históricas e sociais e não crescesse e funcionasse sustentando o sistema de privilégios (por sinal, branco). Os brancos não podem sofrer por “racismo reverso” porque o racismo é uma ideologia branca inventada para submeter populações negras. Com o racismo como ideologia foram garantidos assassinatos e roubos e justificada toda a história da violência física e simbólica que garante até hoje o estrutural privilégio branco.

O que acontece hoje com a questão gênero também participa dessa perversa lógica de inversão. No acordo atual entre Religião e Estado, em que os sacerdotes do autoritarismo se vendem como santos para populações de pessoas fragilizadas social, econômica ou intelectualmente, gênero passou a ser uma palavra monstruosa. Se gênero é uma questão que deveria fazer parte dos Planos Municipais de Educação, religiosos começaram a falar de “ideologia de gênero”. Armados com má fé disfarçada de proteção a altos valores familiares há quem esteja invertendo o sentido da necessária discussão sobre gênero (assim como é preciso discutir racialidade e classe social), tentando convencer populações de que gênero em si mesmo não é um assunto, mas uma prática de inversão de sentido sexual. Vemos a palavra banida do cenário como se ela, por si só, fosse algo demoníaco. Quando, na verdade, é o seu banimento que mantém a promoção do preconceito e da violência, eles sim demoníacos.

Viviany Beleboni em performance na Parada gay – SP, 2015.

“Ideologia de gênero” como está sendo afirmada é uma construção falaciosa. Mas no cenário atual em que a enganação está em alta, as falácias fazem muito sucesso.

Em todos esses discursos a vítima real é colocada em um lugar banal, suas marcas e o sofrimento pela violência sofrida são diminuídos. Em todos esses casos, os agentes vão além do mal-entendido ou de uma possível e ingênua questão de auto-interpretação. Em todos parece haver mais do que uma lacuna de compreensão. Podemos supor que esta lacuna seja, na verdade, má fé, mas podemos ser mais generosos e supor que se trata apenas de uma lacuna de bom senso ou de razoabilidade da parte de quem propõe o argumento falacioso por abandono de uma análise social e historicamente crítica. Na prática, pela falsidade em seu cerne, todas contribuem para a banalização da questão da vítima verdadeira. Todas servem para rebaixar o gravíssimo problema dos direitos implicados na condição de vítimas concretas.

Pensar sobre o que pode estar acontecendo quando vemos esse tipo de posicionamento pelo discurso pode nos ajudar a por em cena a questão do discernimento que, para além de julgamentos fáceis, se faz urgente entre nós.

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