Viagem ao redor de Brás Cubas

Viagem ao redor de Brás Cubas
Roberto Schwarz com seu mestre maior, Antonio Candido (Acervo Roberto Schwarz)
  Antonio Candido insistiu algumas vezes na ideia de que a “maneira livre” de narrar em Memórias póstumas de Brás Cubas se deve, em parte, à Viagem ao redor do meu quarto, de Xavier de Maistre. Ao lado de Sterne, De Maistre foi citado aqui e ali pela crítica, mas a atenção maior recaiu sobre o autor de Tristram Shandy: é natural que seja nele que o leitor pense ao olhar os pontilhados ou a página em preto. Contudo, a forma pela qual o narrador exerce sua voz em Viagem já revela assimilação do modelo shandiano, ampliando a experimentação de acordo com os impasses do mundo francês. Ao chegarem ao Brasil, as obras foram recuperadas por Machado por uma via de mão dupla, devendo, sem dúvida, um tanto mais à influência francesa. Pode-se dizer que a escrita digressiva e autorreflexiva do conde De Maistre aparece em primeiro plano nas Memórias: sem a ironia e o grande interesse por si mesmo – meio soberba, meio autocomplacência –, seria difícil imaginar os pontos altos de nosso tão estimado defunto. Por outro lado, é também provado que a experiência brasileira trouxe à narrativa machadiana uma malícia que não existia em De Maistre, tornando a prosa de Machado mais ousada que sua referência de partida. Como ele mesmo observa na “Nota ao leitor”: “Não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser”. Essas “rabugens” talvez façam parte daquilo que Roberto Schwarz chamou de “desfaçatez de classe”, em que a volubilidade do narrador se converte em princípio formal do romance. Dito de outro modo, Machado virou

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