Um desconfiado na contramão do capitalismo
Edição do mês
Roberto Schwarz durante a formatura em ciências sociais pela USP, 1960 (Acervo Roberto Schwarz)
“Cultura e política, 1964-1969” foi publicado em francês na revista Les Temps modernes, de Jean-Paul Sartre, em 1970, quando Roberto Schwarz estava exilado em Paris. O ensaio se tornou matriz inspiradora de interpretações sobre a relação entre cultura e política no Brasil nos anos 1960. E referência, pois qualquer estudo sério sobre o assunto deve dialogar com ele. Um clássico que persiste além do seu contexto. Mas nem por isso deixa de ser objeto de análise como documento histórico, expressão de época.
A historiografia tem tomado a obra nessas duas vertentes, não necessariamente alternativas: matriz analítica referencial e documento. A consciência do seu caráter incontornável não raro faz com que leituras apressadas propaguem mal-entendidos.
A hegemonia relativa de esquerda
Eis a frase mais citada: “Apesar da ditadura da direita, há relativa hegemonia cultural da esquerda no país”. Esses termos com frequência levam ao equívoco interpretativo – que o texto não comete – de supor que a cultura predominante fosse de esquerda. Ora, a hegemonia era “relativa” a certo meio artístico e intelectual, não ao conjunto da sociedade. Isto é, apesar de muitos serem de esquerda, “as matérias que preparam, de um lado, para as comissões do governo ou do grande capital, e, de outro, para as rádios, televisões e jornais do país, não são”.
Ademais, seria “de esquerda somente a matéria que o grupo – numeroso a ponto de formar um bom mercado – produz para consumo próprio”. Essa frase indica a consciência amarga que perpa
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