Privado: V de Vaidade

Privado: V de Vaidade
Vanitas Vanitas no século 17: caveira entre livros, insetos, flores secas, frutas apodrecidas, animais abatidos, relógio de sol, alaúde com a corda arrebentada. Um quadro de Holbein ou Gysbrecht. Interior doméstico: sobre a mesa tudo fica bem para uma pintura. Vanitas no século 21: caveira entre sacos plásticos, pedaço de um assento sanitário, um rato morto, flores mofadas, frutas apodrecidas, carcaças de animais, relógio fabricado na China, tubo de televisão, corpo humano sem cabeça flutuando no chorume. Aterro sanitário: no chão tudo pode ser fotografado para a capa de jornal sensacionalista.   Diz-me o lixo que produzes e dir-te-ei quem és. As transformações de uma sociedade poderiam ser medidas pelas mudanças na produção do lixo. O lixo é o espelho da sociedade. Cada bairro, cada cidade produz o seu. E se o lixo hoje em dia é tão parecido é apenas por efeito da globalização. O lixo é objetivo, subjetivo, material e virtual. Nada e ninguém escapa ao lixo. Há pessoas que vivem do lixo das outras. Estamira, tal como a conhecemos no documentário que leva seu nome, é um exemplo. Para falar a língua dos filósofos da moda, podemos dizer que há um devir-lixo. Que o lixo é o destino. O lixo é, afinal, o que jogamos fora, mas não só. É o que lançamos fora por ser indesejado. Ainda que o ato de jogar seja consciente, tantas vezes algo que pensamos ter perdido, não foi lançado na lata do lixo inconscientemente? Ora, lixo é tudo o que herdaremos inconscientemente. Algo que não vimos ter sobrado. Não sabemos o que re

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