Uma psicanálise do outro

Uma psicanálise do outro
(Foto: Giuseppe Gradella Photography)
  A psicanálise é o oposto da História como narrativa hegemônica, unívoca e linear. Sua lógica deveria desafiar o/a psicanalista a apontar os esgarçamentos e remendos do discurso predominante e incitar à enunciação de construções plurais, fragmentadas e não lineares. Assim como sua escuta, no dispositivo analítico, dá lugar a atos falhos e lapsos, recolocando em jogo a linguagem e a posição do sujeito, sua tarefa diante da questão do estado da psicanálise no Brasil, por exemplo, seria a de sublinhar fatos falhos, por assim dizer, fazendo surgir dissonâncias e quebras de sentido, suspendendo imagens e discursos encobridores para que ressoem suas latentes linhas de força.  Sobretudo ao tentar descrever e caracterizar no tempo e no espaço a cena da psicanálise no país, ele ou ela deve assumir – ou melhor, eu devo assumir – que em alguma medida monto e remonto ativamente tal cena, (re)construindo um passado e um presente em uma trama singular, na qual tomo alguma posição. Pensar psicanaliticamente a situação da psicanálise implicaria assim, no limite, o risco de implodir qualquer narrativa geral. Mas isso não nos exime de construir alguma compreensão do presente na qual lampejos do passado possam reverberar, nem de examinarmos criticamente afirmações que parecem angariar o apoio entusiasmado da maioria. Um desses enunciados sedutores diz que a psicanálise brasileira conheceria hoje grande vigor, em comparação com outros países. São em especial autores franceses, como Élisabeth Roudinesco, que apontam tal “fato”, sem

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