Precisamos falar sobre Neoliberalismo

Precisamos falar sobre Neoliberalismo
Mural em Porto Rico (Foto Stephanie Segarra / Reprodução)

 

Neoliberalismo é um termo antipático mais pronunciado por quem o critica enquanto economia política, do que por quem possa, conscientemente ou não, concordar com sua ideologia. Não falamos sobre neoliberalismo por se tratar de um assunto difícil do ponto de vista teórico, mas porque muitos preferem mesmo repetir a opinião que não compromete.

Sabemos no entanto que, se uma palavra nos perturba, é nela que temos que investir os esforços da nossa inteligência. Nesse sentido, é preciso enfrentar um problema semiológico-político: vivemos atualmente sob o signo impronunciado do neoliberalismo. De fato, um silêncio paira sobre nós para nos livrar da coisa a qual ela se refere.

E do que estamos falando? De uma experiência vivida pessoal e coletivamente que implica o nosso futuro como sociedade. Quem seremos nós depois do neoliberalismo é a pergunta que pode nos ajudar nesse momento.

Se o neoliberalismo é a luta de classes dos ricos contra os pobres, podemos ter certeza de que, com o advento do neoliberalismo, seremos mais pobres. O neoliberalismo precisa acabar com a luta pela igualdade social e de classes, já que não se beneficia com ela em sentido algum.

Pensando no que seremos no futuro, se hoje vivemos sem direitos fundamentais assegurados, saúde e moradia, educação e trabalho, a tendência projetada pelo neoliberalismo é que as hordas de alienados, que hoje aplaudem aquilo mesmo que os destrói, estarão de tal modo infelizes que aprofundaremos a barbárie entre nós em todos os níveis. Em uma sociedade para poucos, com o acirramento da desigualdade, a violência se intensificará até a barbárie. Como o neoliberalismo é a vida reduzida ao mercado, ele mesmo providenciará as armas e lucrará com isso.

O neoliberalismo é a economia política que faz retornar a luta de todos contra todos em nome do capital. Projeta-se uma sociedade de muitos perdedores sociais e econômicos e alguns poucos vencedores articulados com primores de ideologia disfarçadas de mérito e competência, promessa dos mais eminentes de seus teóricos.

Privatizar e desregulamentar economias para entregá-las ao setor privado, é parte do programa acionado pelo dispositivo ideológico que usa cada corporação, que usa cada indivíduo como parte do seu plano. Minimizar o Estado para a maioria da população e reservá-lo às elites econômicas, é a parte nuclear do seu método.

O próprio neoliberalismo inventou que falar dele soa antipático. Na varredura que o capital faz pelo mundo afora, até mesmo o Rio Grande do Sul, que parecia um lugar tão distante e protegido por seus aguerridos cidadãos cuja fama é de coragem política e senso de cidadania, está sendo levado pelo vento. Precisamos falar sobre neoliberalismo para soprar essa desgraça para longe de nós.

Artigo publicado no jornal Zero Hora em 11/06/2017

(6) Comentários

  1. Parabéns pela precisão e, principalmente, pela concisão! Se ficarmos apenas com “textões”, perderemos energia e pregaremos para o deserto. Ou encaramos os problemas na origem ou podemos desistir da ideia de um País melhor, em paz e mais justo. A verdadeira Paz só pode existir se for para todos e não para poucos privilegiados…

  2. Concordo em um aspecto: precisamos falar sobre “neo”liberalismo, seja ela neo, ou velho. A confusão causada em torno do termo liberalismo e dos liberais é bastante grande, talvez proposital.. O liberal costuma ser confundido com o conservador, este sim objeto do seu texto. Veremos que concordamos (eu liberal e você anti-“liberal”) em muitos aspectos, especialmente aqueles referentes às liberdades individuais. Entretanto, certamente divergimos sobre o aspecto econômico onde suas ideias, provavelmente, estão alinhadas às metodologias utilizadas pelos conservadores. Pode parecer estranho, mas não é: conservadores (elites e afins) e militantes da esquerda tem em comum a obsessão pelo controle, os primeiros em relação às manutenções de monopólios e reservas de mercado, da imposição de burocracias e barreiras para os protegerem. Já a esquerda visa o controle dos meios de produção pelos proletários, da planificação da economia e daquilo que deve ser produzido, que desaguam na tentativa de controlar vontades individuais. Ambas as visões são anti-liberais. A partir do momento em que se restringe a liberdade individual e, portanto, a liberdade econômica, seja para proteger a elite ou o proletariado, não mais se pode afirmar haver liberalismo. É importante falarmos sobre liberdade, é ela que nos permite divergir, de nos relacionarmos com quem quisermos, de beber ou fumar, de gastar nosso dinheiro como quisermos, de comprarmos um celular de empresa nacional (Positivo?) ou estrangeira. Ser anti-liberal é negar que o indivíduo é soberano sobre suas decisões, é exigir que haja pobreza para que a elite seja mantida ou para que emerjam líderes políticos que irão mentir deliberadamente, aproveitando-se dos pobres. Privatizar e desregulamentar economias sim, para que justamente as elites não se beneficiem de seu poder econômico para regulamentar em seu favor através da compra de políticos. O Estado deve ser limitado a atuar naquilo que justifica sua existência: saúde, garantia do cumprimento de contratos e direitos, manutenção da concorrência genuína, segurança e educação de base para que haja capacidade crítica e uma população instruída que saiba que sua liberdade frequentemente será ameaçada por aqueles que tem obsessão pelo controle e pela intervenção.

  3. “Precisamos falar sobre oque eu acho ruim e feio”.
    Para falar sobre liberalismo seria melhor entender sobre. Fique com seu estado gigante, achando que estado e povo são sinônimos. Depois não reclame da falta de liberdade.

  4. Tenho muito medo da impotência que o presente e o futuro se apresenta diante da lambida do monstro neoliberalismo. Mas paralisados jamais. Temos que cada vez mais utlizarmos da prática socialista do sábio Antônio Cândido, incentivarmos e fortalecemos os jovens na prática da economia colaborativa entre outras iniciativas que brotam em mentes sãs e generosas. A Era de Aquarius, que se aporta, é a Era da Solidariedade.

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