Thomas Mann e seu tempo: a ironia do monumento

Thomas Mann e seu tempo: a ironia do monumento
Thomas Mann na praia com a esposa Katia e os filhos Elisabeth e Michael (Eth-Bibliothek Zürich, Thomas-Mann-Archiv)
  Thomas Mann (1875-1955) é um monumento literário autoerigido. Ergueu-se da condição de péssimo aluno, sem formação profissional, e de herdeiro decadente dos frutos da atividade comercial exercida pelas gerações anteriores de sua família hanseática, em Lübeck. Os negócios se encerraram porque ele e o irmão mais velho, Heinrich Mann (1871-1951), foram considerados inaptos pelo próprio pai a sucedê-lo. Antes de morrer, o pai, Thomas Johann Heinrich Mann (1840-1891), condenado pelo câncer, liquidou a própria empresa e deixou a fortuna sob tutela de um administrador financeiro. Foi justamente ao figurar a decadência de uma família burguesa bem situada (em itálico, o subtítulo da obra) que Thomas Mann lançou o pedestal em que depois fixaria a estátua de si mesmo: o romance Os Buddenbrook, de 1901. As personagens da obra encenam em seu dia a dia a intuição pré-moderna de uma ruptura com o mundo de posições estáveis e duradouras na organização social da Europa ainda dominada pelas grandes dinastias imperiais. No texto, que décadas mais tarde viria justificar a concessão do Nobel de Literatura a Thomas Mann, uma das cenas mais conhecidas é a do pequeno Hanno ao se debruçar sozinho sobre os papéis da família, sem a devida permissão: diante da árvore genealógica desenhada havia gerações com a grafia de cada um de seus patriarcas, o menino resolve traçar com régua e caneta-tinteiro duas linhas logo abaixo do próprio nome. Constatado o feito, ele se justifica sem jeito diante do pai furioso: “Eu achei… eu achei… que nã

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