Sob a sombra e o peso de imensas ladeiras

Sob a sombra e o peso de imensas ladeiras
Arte Andreia Freire

Por Bruno Domingues Machado

Os poemas de quando não estou por perto, livro lançado em 2012 por Annita Costa Malufe, não se desapegam de uma pequena constelação de tópicos. Eles não se desapegam de uma estreita margem de tons, de uma quase invariável gama de ritmos. O interior dos poemas não se desapega de si mesmo. Não larga mão de alguns versos, que voltam no mesmo poema em refrãos; não larga de alguns sintagmas, que voltam depois de vários versos ou várias páginas; não larga mão do mesmo tom de voz que inicia e termina os poemas sem nos levar a um ponto definido. A mão que segura a sua voz está trêmula – e a poesia de Annita Costa Malufe não engrena.

Mas dizer que ela não engrena não predica um defeito, como se, apesar de bem feitos, seus poemas não empolgassem. Não engrenar quer dizer que, mesmo com o chão livre à frente, livre para andar, para correr, para ir a qualquer lugar, a sua poesia anda sob a sombra e o peso de imensas ladeiras, sob a sombra e o peso da dor e da separação. Daí a sensação do chão reto à frente ser um “chão fictício”. Daí a constante sensação de fraqueza nas pernas, de “não ter mais as pernas”, de ter “pernas infantis”, de ter um “corpo infantil”, de uma criança aprendendo a andar. Como andar sobre um chão plano se sobre o nosso corpo pesa o efeito de uma íngreme ladeira? E como reaprender a andar após uma queda? Não engrenar quer dizer que sua poesia se desenvolve inteira nos limites de um andamento hesitante. Ela deseja isso. Reafirma esse desejo a cada poema, a cada parte do livro.

Algumas ausências nos instigam nessa torrente engasgada de versos. A primeira ausência que nos instiga, da primeira palavra à última do livro, é a letra maiúscula. A segunda é a pontuação. A terceira ausência, os títulos dos poemas. Almas penadas. Almas penadas que sobem do limbo de que Annita não faz uso. Não é isso que os poetas também criam, um limbo do idioma, e uma zona baixa desse limbo, quase um inferno, um lugar onde grande parte da língua corrente – não apenas do ponto de vista de suas constantes (fonéticas, sintáticas, morfológicas e semânticas), mas sobretudo do ponto de vista de sua pragmática e seus tipos possíveis de enunciados –, grande parte dessa língua é posta de lado, traída, para que apenas uma parte da língua se ilumine, se torne matéria, e vida? Em quando não estou por perto, letras maiúsculas, pontuações e títulos, nada disso está presente na língua que Annita fala.

São essas ausências que gravam os poemas sobre as páginas e ao mesmo tempo começam a instaurar a (des)continuidade e a (in)comunicabilidade entre eles, entre um poema e o poema seguinte, entre o seguinte e o próximo, e o próximo, e o próximo: entre o livro inteiro (“onde termina o poema onde/ um ponto de suspensão apenas/ o poema não termina quando/ a linha roça a beira do papel/ (…) para além da página há/ o poema imaginado sempre/ uma imagem de poema/ desfazendo-se afundando um/ navio atracando-se no espaço/ um navio a cada vez refeito mas/ o corpo do poema não é/ imaginário tampouco a/ possibilidade de um limite não/ há limite apenas limitação a/ folha acaba a tinta acaba a/ língua é o ponto de desacordo/ roçar a página ancorar mas/ a cada vez apenas por um instante/ este inacabado este/ que nunca termina”).

131 [?] poemas [?], por 160 páginas, divididos em sete partes, sob a lógica de um “inacabado que nunca termina”. Todos os poemas, mais, ou menos, girando em torno do que se passa no íntimo e nos corpos de um (in)determinado casal em separação(“queria me despedir uma última vez/ como se me despedisse por outra pessoa”). Todos enunciados pelas vozes esburacadas de um casal recém-separado(“queria falar da minha dor mas o poema”). De que tipo de poema estamos falando quando nos deparamos com um livro de poesia assim? Como dizer um poema, quando são muitos os que reverberam na nossa nuca a cada vez que estacionamos em um? Como dizer muitos poemas, se parece ser sempre o mesmo, constantemente retomado, com o mesmo ruído de voz, o mesmo ritmo de respiração e os mesmos fantasmas? Um, muitos, milhares? Ou, no fundo, bem lá no fundo, nenhum? Poema-Nenhum, como um Ulisses diante da ameaça do Ciclope teve de responder: eu sou Ninguém. Eu sou Nenhum, dizem os poemas de Annita diante da falta de palavras.

Na proliferação de versos e de poemas, que se reiteram, se recuperam e se retomam, mas raramente chegam a algum desenvolvimento ou culminância que os termine categoricamente, e lhes dê uma individuação muito distinta dos outros (uma identidade: poema), nessa proliferação que vai aumentando conforme avançamos pelo livro, nela, justamente nela, é que Annita reclui o poema, o retrai, o esconde, leva-o à condição de infrapoema (“o que falo nunca é o que falo/ e sim outra coisa ouve me ouve/ daí deste silêncio deste longe longe/ (…) uma voz secreta balbuciando ouve/ ouve daí você pode me ouvir era a/ pergunta como ficar por um instante aí/ no silêncio em torno da pergunta/ sem resposta é como estar sem/ resposta o que falo nunca é exatamente/ o que falo sereno limpo calmo esperar/ longe longe (…)”).

Os verdadeiros poemas do livro estão represados nos hiatos dos versos que puderam vir à tona. Nas falhas dos sentidos, nos raciocínios que não se completam, nas imagens que não dizem nada. Esses, os verdadeiros poemas, são inidentificáveis. Não coincidem com os poemas impressos sobre as páginas. Não usam nem maiúscula nem minúscula, não usam pontuação nem abrem mão dela. Não põem títulos nem abdicam deles. Formam-se no instante da leitura, como um duplo ou uma dobra, a sombra do gene de um antepassado distante, de um sumério aprendendo a ler. Formam-se assim na leitura, e provisoriamente, pela junção dos rastros de um poema com os rastros de outro poema, pela memória involuntária que, durante a leitura de um poema, nos remete imediatamente a outros.

Aí, nesses encontros imprevistos – entre os versos tais da página tal, com os versos tais das páginas tais; impossíveis de determinar de antemão, impossíveis de delinear quando começam e terminam – impossíveis de se contar em versos – assim se insurgem os verdadeiros poemas do livro, poemas-fantasmas, aqueles que não foram escritos, mas que só puderam ser produzidos a partir dos que foram escritos. É preciso submergir nos diversos pontos de represamento dos poemas escritos. Nos vãos, na falta de sentido. Desatar esses nós. Estender as linhas ao longo das cesuras e dos enjambements, não para costurá-los, mas para fazer como fazem aqueles que usam cordas para demarcar os caminhos possíveis pelas galerias de uma caverna. E então saber flagrar os poemas-fantasmas, os poemas-potências, que, sem início, meio e fim – e sem versos –, dão prova de suas existências apenas por intermédio da sensação e da experiência da leitura, as mesmas que deram o ensejo da escrita. Dor, separação, ausência e distância. Porque foi necessário à poeta ir até aí; começar daí; aí achar um alfabeto; daí esboçar seus versos. Para que, fazendo poemas, fizesse metade poema e metade separação. Metade verso, metade lonjura.

 

Dois poemas de quando não estou por perto, páginas 11 e 77

antes do sono chegar são seus cabelos
que se espalham sobre as pernas
as que não tenho mais antes mesmo
do sono antes as portas estão vigiadas a
solidez dos cadeados uma ressaca de mar
a viagem entre caminhos que a água cava
na areia o sal a vivência que adere
à pele antes do sono chegar estou acordado
perambulo novamente respondo a alguém que
me chama na rua em frente procuro
minhas pernas as que perdi entre águas o sal
a solidez que retorna calcário mar antes
são as imagens um mar de cabelos sobre
as pernas o sono interrompido
a resposta estou indo o poste queimado
na rua em frente a beirada de uma guia
seguir os caminhos fincados no cimento as pernas
onde estão onde você está quem
me chama na rua em frente no escuro da rua
em frente vigiada pelo poste queimado mesmo
antes do sono chegar desperto o corpo estaria morto
e como seria estar morto senão um gole o último
quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto penso
na solidez dos cadeados na necessidade de
perder as pernas embaixo dos lençóis

 

quando me penso morto
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto
Charles Bukowski

*

 

este seria o som constante quando
não estou por perto o som embaralhando
as letras este seria o contorno da
mobília a menina não teria mais do que
sete ou oito anos os cabelos enroscados
na escova quando não estou à altura de
dizer fugir este ou outro som ela não
teria mais do que sete ou oito anos
contornando a mobília de meias no chão
o som constante o embaralhamento das
letras a miopia grudada nas paredes não estou
à altura de dizer não alcanço a prateleira
em cima da pia os cabelos enroscados
na escova os rituais repetidos entre
os cômodos não estou à vista não estou
por perto quando não estou sinto
que posso tocar o chão fugir desviar das
mobílias me enroscar nas fibras da escova letras
embaralhadas a miopia espraiada na
paisagem quando não estou este seria o
som conhecido a imagem que se
acotovela não sei por que escurece tão cedo
antes mesmo do sono chegar antes mesmo
que as ruas se esvaziem por completo

 

Bruno Domingues Machado, 33, mora no Rio de Janeiro, e é mestre e doutorando em Teoria Literária pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Deixe o seu comentário

TV Cult