Autodescrição (modos de usar)
Olá você do futuro.
A ideia deste texto que é, na verdade, um breve ensaio sobre o espelho e as metáforas que podem ser alocadas na imagem do espelho, veio depois de um bate-papo que fiz com a escritora espírito-santense Jeovanna Vieira e o escritor fluminense Ricardo Ramos Filho (que foi o mediador) no Festival Literário Internacional de Paracatu 2026, a Fliparacatu, no interior de Minas Gerais. É tradição do festival que, no início de cada mesa, ocorra uma autodescrição dos participantes para promover a inclusão de pessoas cegas ou com baixa visão.
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É curioso, para quem costuma assistir ao maior número de sessões em um festival, do modo que costumo fazer, comparando as maneiras diferentes como escritoras e escritores realizam as suas autodescrições, e como as escolhas que fazem para lidar com os parâmetros do que será descrito variam. Não me detendo ao que vi em Paracatu, onde assisti à maioria das mesas do festival, mas como inventário de tudo que já testemunhei nesses muitos anos de autor convidado para eventos literários, posso dizer que: já presenciei gente se recusando, tácita e elegantemente, a fazer a autodescrição, gente que disse “sou um ser humano e estou no planeta Terra, ponto”, gente que, equivocadamente, disse, nos bastidores do evento, que autodescrição é inquisição, gente que foi a um grau inimaginável de detalhamento da vestimenta que estava a usar, gente que detalhou o seu fenótipo de maneira completíssima e identificou sua raça, gente que incluiu, no processo, sua opção religiosa, política, o seu gênero, a sua orientação sexual, gente que deu detalhes de sua intimidade familiar, gente que explicitou o seu lugar no jogo de classes socioeconômicas brasileiro, gente que descreveu o seu lugar no palco e descreveu o palco nos seus pormenores, incluindo detalhes da poltrona (ou cadeira) onde estava, confortavelmente assentada, ou nem tão confortavelmente assim, gente que falou do seu estado emocional, gente que falou de seu passado, sua infância e seu poço infinito oscilando sempre entre a luz e a sombra, e dos seus sentimentos em relação ao futuro.
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A autodescrição é, sem dúvida, um momento de clínica, um momento em que nossas palavras, revelando-nos a quem não consegue nos enxergar (e também para quem nos enxerga, eventualmente, até melhor do que nós mesmos), assumem consequências políticas no fazer ecoar nossa afirmação, autoafirmação e reafirmação no mundo.
Se consultarmos, em pesquisa na internet, sobre as etiquetas, os roteiros de conteúdo e forma, que envolvem a autodescrição, encontraremos: descreva-se fisicamente, descreva o que usa, o que veste, informe o enquadramento de cima para baixo, descreva-se como e onde está e descreva o fundo do palco – encontrei este material no portal da Universidade Federal de São Paulo.
No documento da Unifesp ainda está: a auto audiodescrição é um recurso fundamental para que pessoas impedidas pela ausência de visão possam se ambientar com a aparência do palestrante, complementando a imagem ao discurso, o que enriquece a contextualização desta população; só se descreve o que pode ser visto pelo telespectador, não é preciso desenvolver uma descrição extensa pois o foco é o evento e não a pessoa em si e os detalhes a sua volta. O foco não é a pessoa em si.
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Em conversa presencial e gravada que tive, em 2016, com docentes e discentes no campus de Boston da Universidade de Massachusetts, Estados Unidos, houve autodescrição. Como vi que, na dinâmica, as pessoas estavam se autoidentificando racialmente (o que não é incomum nas universidades estadunidenses e inglesas), no quesito raça, me limitei a me apresentar como um homem negro brasileiro (fiz o mesmo quando me apresentei no Brooklyn Book Festival em 2014, evento que muitas pessoas referem como “feira do livro de Nova York”).
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Penso que a autoidentificação racial, que é padrão na nossa querida Fliparacatu, além da repercussão política que resulta do se afirmar racialmente em uma sociedade racializadora, constitui um elemento incontornável quando o assunto a ser tratado, obliquamente ou não, no bate-papo, envolva o questionamento da estrutura socioeconômica brasileira – que é extremamente racializada.
Na mesa, cujo nome era “Literatura e o jogo da aparência”, Ricardo Ramos Filho – que se autodescreveu como homem branco grisalho vestindo uma camisa estampada em azul com tipos floridos, uma calça de jeans stone washed azul, sapatos-tênis pretos e meias pretas, e com uma tatuagem de sol no braço, desenho de Aldemir Martins (celebrado artista plástico cearense falecido em São Paulo em 2006), enfatizando “o sol para mim é muito do que eu sou, eu gosto do calor, eu gosto de lugares quentes, e por isso tem um significado especial” – pediu que, na autodescrição, falássemos do nosso lugar no mundo. Ele disse “falem sobre o seu lugar no mundo”, pegando-nos de surpresa. Isso foi o que me trouxe a escrita deste texto. Ele conjugou aparência, leitura de aparência, e lugar (quem me acompanha aqui desde sempre sabe a obsessão que tenho pelo verso-poema da artista fluminense Aline Motta: “AS PESSOAS NÃO SABEM, MAS OS LUGARES SABEM” (sim, o poema é todo em caixa-alta); a esse poema, combino uma das poesias mais conhecidas do paranaense Paulo Leminski: “As aparências enganam mas enfim aparecem, o que já é alguma coisa comparado com outras que nem isso”. Poema que, por sinal, se relaciona bastante com o que já escrevi aqui nesta coluna sobre direito pressuposto e ética da violência invasora.
Jeovanna Vieira, que se autodescreveu como mulher negra de pele clara, cabelo cacheado solto, usando um vestido de um ombro só, peça única amarela, com uma estampa de antúrio, “que é uma planta de Exu”, e, de maneira sempre muito espirituosa, confessou “Se minha mãe estivesse aqui, ia falar ‘Tira esse vestido, menina, que eu vou passar, você está toda amarrotada’”, respondeu lindamente que seu lugar no mundo é o lugar para onde quer sempre voltar, um lugar de aconchego, “lugar onde estão meus filhos, onde está minha família, onde descanso as minhas dúvidas, as minhas angústias”, disse também que, neste período da sua vida, seu lugar no mundo é no ato (e no processo, eu diria) de fabular, “fabulando contra aquilo que eu sei ou acho que sei”.
Na minha vez, eu disse: “sou um homem negro de pele clara [parei, há algum tempo, de usar a palavra pardo – na composição, sou um negro pardo –, mas ainda a emprego], com passibilidade por branco, branco aqui do Brasil, homem de família negra, tenho 1,82 de altura, estou vestindo uma camisa social marrom, usando um bonito crachá do Fliparacatu, calça jeans, tênis de skate vermelho, óculos e tenho cabelos ralos”. Sobre o lugar – pensando que o meu lugar, seja ele qual for, saberá sempre mais do que eu –, disse que é o acúmulo de minhas percepções e meus assombros (importante: recupero essa memória recente porque o Paulo Scott da Fliparacatu 2026 já não é o que está escrevendo este texto), que meu lugar, a consciência dele, surgiu, durante uma conversa com minha avó Etelvina, em que, olhando para o céu, deitado no colo dela, questionei (e, logo em seguida, dela me apercebi) a finitude da vida, perguntei “vó, para onde a gente vai quando a gente termina?”.
Naquela conversa, penso, foi que se fundou em mim o alicerce determinante de uma inquietude, de uma urgência, que jamais se afastou do meu formular linguagem, jamais me abandonou, uma ansiedade de permanecer que talvez se resolva em parte na escrita de poesia e prosa ficcional e na minha escolha pelo Direito. Como nos lembra a escritora e teórica portuguesa Silvina Rodrigues Lopes, em seu fascinante Literatura, defesa do atrito (Edições Vendaval, 2003), “a arte abriga a infância e o conflito – sem medida absoluta que as anule em sistemas rígidos de equivalência, as coisas continuam a desencadear-se em múltiplas aparições [e suas aparências, eu acrescentaria], o mundo reordena-se sem fim”. A resposta que dei na mesa a Ricardo teve outras continuidades, mas fico por aqui; fico por aqui para ressaltar que a autodescrição nos possibilita um espelho que interessa ao escrutínio de nossa subjetividade e das relações políticas e éticas a partir dela estabelecida – nesse quadro, um evento literário tem a força que induz um calor inusual na percepção das coisas que nos cercam e do modo de como elas forjam linguagem (e cegueiras) em nós. Um evento literário é sempre um evento político.
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Quando falo em linguagem e cegueira, impossível não pensar no símbolo da justiça no Ocidente, na imagem da deusa Têmis – que, na mitologia grega, era associada à sabedoria, à lei divina, representando o equilíbrio e a ordem, e, na mitologia romana, encarnou a noção de justiça – com os olhos vendados segurando, na mão esquerda, a balança e, na mão direita, a espada. Na leitura dessa simbologia, que refuta o caos (o diabólico, alguém diria), há uma condição temporária, ela se faz temporariamente cega, que não a impedirá de ter de responder, de servir, a alguém, a uma ambição: é uma justiça que, performaticamente se coloca em cegueira, passa-se por cega, emula cegueira, sem, de fato, e por óbvio, ser cega.
A ideia de igualdade passa por direcionarmos nossa cegueira, por equalizá-la, como já tratei aqui neste espaço quando falei de igualdade formal, e também de igualdade material e igualdade como reconhecimento. Os espelhos que encontramos na luz de nossos celulares deveriam ampliar essa sensibilidade, essa percepção, porém, nas bolhas de pensamento uniforme e intolerância que ajudam a recrudescer, parecem que proporcionam (ou forjam) justamente o contrário.
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No ensaio anterior, falei de uma lente que podemos avocar e empregar na leitura de nossa complexa realidade social brasileira, uma lente que, muitas vezes pela alteridade que viabiliza no próprio processo da leitura (sempre lembrando: a leitura é a dimensão onde a magia da alteridade acontece, por isso falarmos em leitura criativa, e sua prevalência, e não apenas em escrita criativa), ouse uma coragem delirante para que possamos apontar os absurdos e perversidades do modelo socioeconômico que nos envolve e nos sufoca – como sustentei no livro Direito constitucional antirracista (Revista dos Tribunais / Thomson Reuters, 2025) – e enfrentá-lo, sobretudo pela construção de linguagem, por uma renovação de linguagem que, sendo agonística, nos tire de nossos sonambulismos (é contra sua monotonia que precisamos delirar, imprecisar coletivamente) e nos faça existir e ser feliz. Também busquei defender que a literatura fosse essa lente, ou uma das lentes disponíveis (lentes que a mediação pela arte expõe) ao desejo de nomear justiça e injustiça, de escrutinar o fazer justiça, de atender à nossa necessidade de chegarmos à justiça ou a alguma justiça suficientemente distanciada do sentimento de que – por não nos encontrarmos imunes à responsabilização histórica, política, ética, sobretudo nós da dita intelectualidade brasileira – só estamos perpetuando escravismo e escravização. Pois bem, àquela reflexão, ouso, aqui, (conjurar e) conjugar um outro elemento, e deslocar nossa conversa para um caminho diverso, um elemento que, sendo experiência instigante, pode, muito facilmente, se transformar em atrito e até mesmo em altar de tortura: o espelho.
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Quem escreve sabe: para chegarmos às outras pessoas precisamos passar por nós mesmos, por nossos conjuntos de sentimentos, de emoções, de confusões, de medos, de ambições (e por vai) – o espelho metafórico que, pela janela da alma, nos encurrala e demanda, inevitavelmente, a formulação de uma resposta que terá consequências políticas.
Saber-se diante do próprio reflexo, sim, impõe consequências: podemos acabar sintetizados, absorvidos, diluídos, eliminados, mas também podemos assumir agência, resistência, revolta e forjar autonomia (já que a autonomia da dicção jurídica do liberalismo é mesmo pura ilusão e gasolina para a alucinação de que há efetividade em uma razão que, por exemplo, jura haver universalidade de direitos para todas as almas na arena do capitalismo) e seu etecétera. E isso passa pela classe social, passa pelo gênero, passa pela raça – o espelho do capitalismo (e, agora, do neoliberalismo) é sempre racializador.
Penso, a propósito, no espelho da indústria cinematográfica estadunidense que fez plateias mundo afora abraçarem a violência racializadora do paradigma John Wayne (isso que, de maneira muito mais sutil, mais recentemente, nesta terceira década do século 21, encontramos no paradigma John Dutton, o patriarca e dono do rancho Yellowstone na badalada série televisiva Yellowstone criada pelos roteiristas Taylor Sheridan e John Linson) em que o identitarismo branco anglo-saxônico (o único economicamente relevante nos padrões do império e de qualquer análise sociológica e política que – negando o atalho covarde do emprego preguiçoso da palavra identitarismo para conectá-la à luta de pessoas cujo status social as fazem alvos permanentes da crueldade da elite, do Estado e das suas polícias – comporte algum pingo de lucidez), regente do imperialismo, com suporte indispensável do masculinismo tosco (especialmente tosco pelo irrefreável orgulho que, em febre mítica, sente de si), nunca deixa de se impor.
Imagino que muitos dos candidatos da extrema-direita brasileira, especialmente neste período eleitoral que estamos vivendo, quando se olham no espelho vejam John Wayne ou John Dutton, esquecendo-se de que propaganda ideológica hollywoodiana ou televisiva (essa escola dos colonizados), seja a mais explícita, seja a mais sutil, jamais terá sul-americanos como eles, mesmo os de fenótipo anglo-saxônico, lacaios como eles, no lugar de protagonista.
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Sobre janela da alma e, por consequência, a janela no olhar, recomendo o documentário, lançado em 2001, Janela da alma, dirigido pelo fluminense João Jardim e pelo paraibano Walter Carvalho. Nele, 19 pessoas com diferentes graus de deficiência visual falam como veem os outros e o mundo e também como veem a si mesmas e percebem a si mesmas, os outros e o mundo. Há, no documentário, depoimentos bem interessantes, como o do meu ex-vizinho e amigo, o poeta fluminense Antonio Cicero. Em uma elucubração bastante rica, que, infelizmente, não tenho espaço para analisar aqui, Cicero diz que a metáfora da janela da alma nos leva ao infinito e, ainda assim, nunca chega à verdade sobre a alma, à própria alma. O cineasta e dramaturgo alemão Wim Wenders diz que não vemos inteira e exclusivamente com os olhos porque, felizmente, também vemos com os ouvidos, com as narinas, com o estômago e com o cérebro. E há um registro importante sobre transfiguração feito pelo poeta mato-grossense Manoel de Barros, autor do poema de que mais gosto (“O palhaço”); ele observa: o olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê, a imaginação transfigura o mundo, faz outro mundo para o poeta e para o artista.
Por fim, no mesmo documentário, destaco o que relata o escritor português José Saramago. Ele diz: “Estava em um restaurante em Lisboa e pensei o que faríamos se fossemos todos cegos e, no segundo seguinte, estava a responder à minha própria pergunta, mas realmente nós estamos todos cegos, cegos da razão, cegos da sensibilidade, cegos de tudo aquilo que faz de nós um ser razoavelmente funcional no sentido da relação humana, e acontece que, pelo contrário, somos um ser agressivo, egoísta, um ser violento, isso é o que nós somos, e o espetáculo que o mundo nos oferece é precisamente esse, um mundo desigual, um mundo de sofrimento sem justificação, claro, com explicação, podemos explicar o que se passa, mas não tem justificação […]. O que eu acho é que nós nunca vivemos tanto na caverna de Platão como nós vivemos hoje, hoje é que nós estamos a viver, de fato, na caverna de Platão, porque as próprias imagens que nos mostram a realidade estão de maneira a substituir a realidade, nós estamos imersos em um mundo que chamamos do mundo do audiovisual e nós estamos a repetir a situação das pessoas aprisionadas na caverna de Platão olhando em frente vendo apenas sombras e acreditando que essas sombras são a realidade, foi preciso que se passassem séculos para que a caverna de Platão aparecesse finalmente em uma momento da história da humanidade, que é hoje, e vai ser assim cada vez mais.”
Relembro, a você do futuro, o documentário é de 2001.
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Voltando a se ver e se enxergar, e ao papel do espelho (e ao da autodescrição), transcrevo um trecho da obra literária que mais impactou minha juventude, e talvez a minha vida (eu estava em uma momento existencial bastante difícil, e me desculpem se abuso ao trazer o nome desse autor justo quando falo de existência), moldando até o meu modo de escrever. A obra é o romance A náusea, publicado pela primeira vez em 1938, do escritor francês Jean-Paul Sartre – a edição que tenho aqui em mãos, um exemplar todo anotado (e que não é o da minha primeira leitura), é a da Nova Fronteira, de 1986, com tradução de Rita Braga.
Eis o trecho: “O Sr. de Rollebon me enfada. Levanto-me. Mexo-me sob essa luz pálida; vejo-a mudar em minhas mãos e nas mangas de meu casaco: é indizível a que ponto ela me desagrada. Bocejo. Acendo a lâmpada sobre a mesa: talvez sua claridade posa combater a do dia. Mas não: a lâmpada faz apenas uma poça lamentável em torno de sua base. Apago-a; levanto-me. Na parede há um buraco branco, o espelho. É uma armadilha. Sei que vou cair nela. Aí está. A coisa acaba de aparecer no espelho. Aproximo-me e olho para ela: já não posso ir-me./ É o reflexo do meu rosto. Muitas vezes, nesses dias perdidos, fico a contemplá-lo. Não entendo nada desse rosto. Os dos outros têm um sentido. O meu não. Sequer posso decidir se é bonito ou feio. Acho que é feio, porque me disseram. Mas isso não me impressiona. No fundo, até me choca que se possam atribuir a ele qualidades desse gênero, como se chamassem de bonito ou feio um pedaço de terra ou um bloco de rocha. […] Meu olhar desce lentamente com tédio, para essa testa, para essas faces: não encontra nada de firme, encalha. Evidentemente há um nariz, olhos, uma boca, mas nada disso tem sentido, nem mesmo expressão humana. […] Quando era pequeno, minha tia Begeois me dizia: ‘Se você se olhar demais no espelho, vai ver nele um macaco’. Devo ter me olhado ainda mais tempo: o que vejo está muito abaixo do macaco, na fronteira do mundo vegetal, no nível dos pólipos. Não digo que não tenha vida; mas não era a esse tipo de vida que Anny se referia: vejo uns leves estremecimentos, vejo uma carne insípida, que se expande e palpita com abandono. Sobretudo os olhos, assim de muito perto, são horríveis. São algo vítreo, mole, cego, margeado de vermelho; pareciam escamas de peixe./ Apoio-me com todo meu peso no rebordo de cerâmica, aproximo meu rosto do espelho até encostar nele. Os olhos, o nariz e a boca desapareceram: não resta mais nada de humano. […] Talvez seja impossível compreender o próprio rosto. Ou talvez seja porque sou um homem sozinho. As pessoas que vivem em sociedade aprenderam a se ver nos espelhos tal como seus amigos as veem. Não tenho amigos: será por isso que minha carne é tão nua? Dir-se-ia – sim, a natureza sem os homens./ Não sinto vontade de trabalhar; não posso fazer nada a não ser esperar a noite.”
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Sei que, para mim e para outras pessoas, na luz brasileira “que muda em minhas mãos”, os espelhos podem revelar mais dúvidas do que certezas; no entanto, penso saber quem sou e do que o buscar coerência à minha esforçada linguagem produz; alteram-se as palavras e ênfases em minhas autodescrições, mas o posicionamento político e cultural é sempre o mesmo – o mesmo desde aquela conversa com a minha avó Etelvina.
Sobre posicionamento, lembro de ter se tornado expressão política e ganhar volume lá pelos últimos anos de quando cursei o ensino fundamental, lá por 1979, quando eu tinha 13 anos, quando, muito em função dos ótimos professores que tive, aprendi que o mundo se define a partir de como nós nos posicionamos nele (e que certos convites, certos confortos, certas alianças e conciliações, certas armadilhas até muito mais cruéis do que o espelho no romance do Sartre, existem para serem recusados).
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Para fechar este ensaio que se prolongou mais do que eu esperava e (para além das conexões políticas e jurídicas que habitualmente faço aqui) que, insisto, em flagrante ambiência de clínica, se revela espelho e autodescrição, retorno ao que importa: a poesia. Reproduzo o poema de Manoel de Barros que, por razões afetivas, é mesmo o poema mais relevante da minha vida de leitor brasileiro: Gostava só de lixeiros crianças e árvores./ Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja./ Vinha pingando oceano!/ Todo estragado de azul.
Continua.




