Ser amado ou temido: sobre a sedução, o poder e outros aspectos do sadomasoquismo político

Ser amado ou temido: sobre a sedução, o poder e outros aspectos do sadomasoquismo político

Obra de Mathew Barney (Reprodução)

 

Quem leu Maquiavel deve lembrar daquela ideia básica para a sobrevivência política do príncipe: quando não se consegue ser amado, o príncipe, ou em uma expressão muito próxima, o “dono do poder”, deve se fazer temido.

A equação maquiavélica coloca o medo como alternativa ao amor. Fica claro que, na impossibilidade do amor, o medo é o que garante o poder. Vampiros e outros seres predatórios – inclusive as reencarnações que encontramos na política brasileira – que o digam. Isso quer dizer, não apenas que aquele que manipula o amor ou o medo consegue o que quiser de uma pessoa, mas que a definição do medo em política está clara: o medo é a impotência do amor.

Sabemos, contudo, que a impotência, até por sua força de inércia, pode ser mais forte do que a potência.

Não impressiona que o amor esteja em baixa e o medo em alta. O amor dá uma sensação de riqueza por preenchimento, por alegria, já o medo, dá uma sensação de pobreza, de esvaziamento, de cancelamento. Nesse sentido, o capitalismo é uma espécie perigosa de pobreza do espírito que, ao gerar pobreza material para uns e riqueza material para poucos, gera também desigualdade social. Mas é também um mecanismo de aproveitamento da pobreza espiritual, de modo que o avanço do medo que ele promove, faz surgir novas mercadorias. O mercado da segurança depende do medo, e o cidadão assolado por sustos e rebaixado ao indivíduo temente ao deus capital, se protege como pode. O outro – o diferente – aparece como ameaça apenas porque pode abalar de algum modo o altar do capital (inclusive em sua configuração estética, o que se verifica no medo que burgueses tem da presença de pessoas que não participam de suas normas estéticas).

Antes de seguir falando do medo, vamos falar um pouco do amor, essa coisa tão complicada que nem todo mundo consegue ter para si. Vamos falar do amor, porque se na impotência do amor surge o medo, isso significa que, assim como o medo, o amor surge em determinadas condições e também desaparece dependendo das circunstâncias. Definir o amor como o contrário do medo é uma ideia interessante, mas apenas se percebermos que há dialética entre os contrários. Nesse sentido, se pudéssemos isolar o amor em estado puro, diríamos que ele seria uma pura potência. Não uma impotência. A impotência em estado puro seria a morte, em política seria a política do medo, como encontramos hoje. Podemos também pensar que o amor seria o poder em seu sentido positivo, algo de muito potente, já o medo seria o poder em seu estranho sentido “impotente”. Estou lembrando que Hannah Arendt, por exemplo, fala do poder como ação conjunta com um caráter positivo. A pensadora (lembremos que ela não gostava de ser chamada de filósofa) também diz que a violência não é o abuso do poder, mas o seu aniquilamento.

Penso nesse sentido, que o poder – essa palavra tão complicada quanto a palavra amor – ainda tem mais a nos dizer sobretudo se percebermos que há uma base do poder dada no jogo entre o amor e o medo. Onde está o amor, não está o medo e vice versa. Mesmo assim, os dois andam muito próximos. E quando se encontram em um lugar que deveria ser o de pura oposição, temos então efeitos bizarros na política: o povo amedrontado passa a amar aquilo de que tem medo, identifica-se com o horror e segue repetindo a sua lógica, a da proteção e do ataque em que esconder-se e agredir tornam-se comuns. O golpe no Brasil, a eleição de Trump nos EUA, são prova disso. Podemos nos perguntar se não há quem use o próprio voto para proteger-se ou para agredir, a lógica das campanhas também é essa.

Sigamos meditando sobre a oposição medo-amor na intenção de compreender o amor, o que não será possível sem que o desmistifiquemos. Toda desmistificação é política, assim como toda mistificação. A naturalização do amor correponde à sua mistificação, compreender seu caráter histórico e social, racial e de classe, estético e de gênero nos ajuda nesse processo de compreensão.

Sedução

Assim, podemos dizer que o amor é político como qualquer afeto, ou seja: se há interesses por trás de todo afeto, se há em tudo o que sentimos, há também atrás do amor. Talvez possamos dizer que a complexidade do amor faz dele não apenas um afeto, mas um campo, um conjunto de afetos. Podemos chamar a essa polissemia de “campo dos afetos amorosos”, justamente porque não encontraremos o amor em estado puro, nem na família, nem na igreja, muito menos na política onde o medo pode render muito mais.

Os afetos amorosos que compõem um campo são aqueles que incluem a noção de alteridade: respeito, reconhecimento, generosidade, compaixão e muitos outros. Digamos que aquele que ama o mais puramente possível, se entrega com prazer àquele ou àquilo que ama. Quando falamos em erotismo, amizade, empatia, estamos no campo dos afetos amorosos. Afetos, devemos saber, não são substâncias, são ações altamente subjetivas, são atos que causam efeitos subjetivos e objetivos em outras pessoas. Assim não basta dizer que se ama alguém, é preciso provar com atos. Temos que saber que afetos não são sentimentos abstratos (aliás, não existem sentimentos abstratos). O poder também não é abstrato. Do mesmo modo, o que chamamos de poder é algo que funciona por ações: o que chamamos de dominação, opressão, violência, são expressões do extenso campo do poder.

Ora, estamos a falar do campo dos afetos amorosos e do campo do poder na intenção de compreender sua aproximação. É nesse ponto que podemos falar de um tipo de ação afetiva muito próxima do campo do poder e que, ao mesmo tempo, faz parte do campo amoroso. Trata-se da intersecção entre amor e poder. Se o puro amor seria a pura potência da entrega, há na sedução algo de impuro, portanto, algo de impotente. Daí que aquele que precisa seduzir, se vale de subterfúgios e sortilégios do campo do poder. Aquele que cai na sedução corre perigo.

Quando dizemos que o poder age por sedução, estamos na linha do que Foucault chamou de docilização. Quem é seduzido é também docilizado. Submete-se ao que lhe seduz. Para Foucault o poder de nossa época tem mais a ver com a sedução do que com a opressão. A sedução nos dá a impressão da entrega amorosa. Mas é por conta da sedução que as pessoas também se deixam submeter. Algumas até agradecem por terem sido submetidas. Submeter-se, no entanto, não parece algo muito agradável. Há algo de humilhante nisso, há algum tipo de sofrimento nesse deixar-se levar. Quem foi seduzido muitas vezes se arrepende quando descobre o que lhe aconteceu. É que o seduzido, de algum modo, foi sempre enganado.

Sadomasoquismo

À postura que envolve a submissão no sofrimento é denominada “sadomasoquismo”. Podemos falar dele em um sentido psicossocial e não apenas psicológico. Mulheres machistas, negros racistas, pobres capitalistas, seriam exemplos daqueles que contribuem para fomentar as visões de mundo que falam contra eles. O apoio ideológico ao que pode aniquilar alguém (há um jovem negro brasileiro recém eleito como vereador em São Paulo que defende o fim das cotas contra sua própria raça) não é apenas uma contradição individual, mas uma grave submissão masoquista. A função dessa submissão pode ser um estranho prazer com o sofrimento, mas pode ser também um mascaramento relativo à vergonha quanto ao fato de pertencer a um grupo que tem direito a uma correção histórica, independentemente do que se possa pensar das cotas, elas são rejeitadas como o mal quando, na verdade, elas vem para problematizar, questionar e tentar encontrar soluções para o mal do racismo. Se o orgulho racial é uma postura emancipatória, por outro lado, a negação da raça – negação que também se confunde com orgulho, mas às avessas – pode esconder a vergonha quanto à uma humilhação vivida de um modo insuportável. Nesse contexto, não é ruim a pergunta: a quem se submete aquele que nega a si mesmo?

Acontece que aquele que se entrega à submissão foi, de algum modo, seduzido. Seduzido pelo que, no poder, parece bom. Ele pega um pouquinho daquele poder, umas gotas, umas migalhas, um pedacinho. Na escala geral dos poderes ele não fica na pior. O seduzido diz: me engana que eu gosto, porque a verdade dói. O jovem negro que tomamos como exemplo, está sendo enganado quanto à sua própria condição, mas também está tentando não ficar na pior, não saber e não sentir sua própria dor. Sabemos que todo fascismo vem dessa impotência diante da própria dor que faz negar a dor do outro, que impede a empatia.

Atualmente, podemos dizer que vivemos um misto das duas estratégias aplicadas pelo poder. O poder como sedução é usado concomitantemente com o poder como repressão. Ou seja, o poder é todo um jogo sadomasoquista aplicado aos grupos e aos indivíduos: ele agrada e maltrata, ao mesmo tempo, conquista e espezinha dependendo do contexto e das necessidades. Quem dele participa, e somos todos, ficamos sem saída. A questão que resta não diz respeito ao “tipo” de poder que alguém tem ou do qual faz uso, a escala do poder é também uma escala da necessidade, do poder num sentido básico, do poder relativo à sobrevivência, do mero poder de ir e vir, ao poder em um estado complexo que determina os demais poderes básicos em uma verdadeira escala. Aquilo que Foucault chamou de dispositivo é como uma engrenagem. Quando chegamos à ideia, ao conceito da engrenagem, ao seu design, à sua forma de máquina, entendemos o que é o poder.

Não pensemos, portanto, que a sedução aparece quando não é preciso usar a força, ou que a repressão surge no momento em que a sedução não foi possível. A perversão do poder é ter conseguido diminuir a oposição entre amor e medo por meio da sedução elevada a estratégia. Ambos os métodos surgem conforme necessidades e objetivos do poder e todos visam, em última instância, ao capital. Em termos simples, o que se ganha está sempre de antemão calculado. Tanto a sedução, quanto a repressão vendem alguma coisa para quem estiver por aí. O cidadão endividado é um sofredor. Hoje em dia quem entra numa igreja já foi rebaixado a consumidor, não é preciso ir ao xópim, cada um já faz parte da religião capitalista. Consumidor e, portanto, endividado, é qualquer um. E ninguém que atue no mundo capitalista pode escapar. Seja de um modo ou outro, todos concernem ao poder, todos estão subjugados por opressão ou sedução, todos compram e vendem, todos são comprados e vendidos.

Na falta de amor, somos os impotentes gerados pelo medo e nos tornamos geradores de medo. Em frangalhos subjetivos, somos impotentes para pensar e para agir. Nos deixamos levar por pseudo-ações, por atos digitais e todo tipo de mistificação.

Sair disso implica quebrar com o medo, mas também quebrar com todas as ilusões, inclusive a do amor que, bem manipulada, nos leva diariamente a fazer o que não queremos.

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