Sequestraram minha mulher

Sequestraram minha mulher

Detalhe da ação performática “twister”. Theresa Anderson, Kelly Brewer e Mango (Lauren) Katz

Convidei Débora Thomé pra escrever aqui. Ela tem um jeito ótimo de explicar coisas complicadas sobre estereótipos de gênero.

Débora Thomé , cientista política e criadora do Bloco Mulheres Rodadas

“Menina, isso são modos?” Feche as pernas quando sentar, abra as pernas para a depilação. “Mulher tem que aprender cedo a sofrer para ficar bonita”. Seja mais suave, não sue, seja simpática. Penteie os cabelos. “Viajar sozinha? Isso não é coisa que mulher faça”. Não dê na primeira vez; não seja vista saindo desacompanhada; cerveja no bar nem pensar.

Mulher não fala primeiro que os homens, mulher não emite opinião que contradiga o homem, mulher não quer fazer sexo apenas por prazer, mulher quer ter as contas pagas e portas abertas.

Elas se apaixonam mais que eles, choram por tudo e se realizam quando engravidam e têm seus filhos. Gostam de rosa, revistas com fofocas, batom e preferem a casa ao trabalho.

Foi assim, desse jeitinho, que eu descobri, apesar do peito, da vagina, do útero, dos filhos, do desejo por homens e, sobretudo, de me sentir uma mulher, que eu não era uma mulher. Ao ouvir a conversa de algumas pessoas, costumava emendar: acho que eu sou meio homem, então. Afinal não tenho muita paciência para brincadeiras com filhos e cuticuti. Quando adolescente, gostava de ficar no meio dos meninos arremessando as bolas na cesta e falando palavrões; trocava qualquer compra de maquiagem ou roupa por horas de papo em volta de uma mesa ou visitando uma livraria. Fazia isso mesmo que sozinha (ao que chamavam “solitária”).

Por alguma razão que só as deusas devem saber (ou serem vítimas), nosso mundo, este de agora, decidiu que mulher é um algo cheio de post it em cima os quais a definem. E ai de você se resolver sair do algo: vira logo homem.

Mulher que é mulher sabe esperar a hora de falar, sabe ser ardilosa, mas nunca enfática. Sabe sorrir na mesa, falar de comida, cozinhar. Gosta de gastar dinheiro com roupas e cremes, tem sempre um amor pelo qual é capaz de abdicar de tudo. Não toma nenhuma decisão seguindo seu lado racional: tudo é passional. Tem xiliques, não expressões de sua raiva. Não gosta de UFC. Prefere sempre a patinação artística ao futebol.

E nessa, vamos passando anos deixando que sequestrem o feminino e nos apontem dedos, pirus e facões quando revertemos as expectativas. Viramos esquisitas, arrogantes, mandonas. Somos isso tudo cada vez que falamos primeiro numa reunião (“ela se comporta como homem”), nos defendemos de agressões (“ela é macha”), que expressamos de forma intensa nossas vontades (“ela acha que é o homem da relação”).

Mulher com vontade vira homem e perde para sempre a categoria que tanto deveria lhe orgulhar. Por que fechar numa caixa o feminino? Isso não faz com que se encerrem também os homens no seu próprio vasilhame? Não me incomodo em como me chamam pela rua ou pelo mundo, mas não aceito mais que ser mulher signifique um conjunto de características que estão muito longe de me definir e que, muitas vezes, me ofendem.

Quando quero ser ativa e me pedem passividade; quando quero ser força e me pedem doçura; quando quero ser cérebro e me pedem bunda. Em todas essas horas, não estou sendo mais ou menos feminina. Estou apenas sendo mulher, aquela que não mais permitirei sequestrarem. De jeito nenhum.

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Setembro

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