Ruth Escobar simbolizou a resistência da cultura brasileira, diz Sérgio Mamberti

Ruth Escobar simbolizou a resistência da cultura brasileira, diz Sérgio Mamberti Ruth Escobar no Tom Brasil, São Paulo, em 2006 (João Sal/Folhapress/Arquivo)

 

Morreu na tarde desta quinta (5), aos 82 anos, a atriz e produtora cultural Ruth Escobar. A atriz, que vivia com Alzheimer há 17 anos, estava internada no hospital 9 de Julho, em São Paulo, que ainda não divulgou a causa da morte.

Em sua trajetória, Escobar produziu e atuou em mais de 30 peças, trouxe grandes montagens internacionais para o país e, durante a ditadura militar, foi ativa na luta contra a censura e pela redemocratização do Brasil. “Ruth tem uma importância extraordinária. Além de atriz, foi empresária e uma grande agitadora cultural, que promoveu debates e questionamentos no país”, diz Sérgio Mamberti.

O ator a conheceu no início de 1960, quando atuaram em Antígone América (1962), uma das primeiras montagens da companhia Novo Teatro, fundado pela atriz e pelo diretor italiano Alberto D’Averda no fim da década de 1950. Antes, já haviam feito Mãe coragem e seus filhos (1960), de Brecht, e Males da juventude (1961), de Ferdinand Bruckner.

“Ela tinha esse espírito de rebeldia de Antígona, sempre foi muito inconformista”, afirma Mamberti. “Com essas censuras e privatizações, vemos a falta que faz uma personalidade de liderança como a dela para enfrentar esses problemas da área cultural”.

Nascida em Portugal em 1935, Escobar chegou ao Brasil aos quinze anos. Em 1958, casou-se com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique Escobar e foi morar na França, onde estudou interpretação e de onde voltaria apenas em finais dos anos 1950. Projetou-se nacional e internacionalmente a partir de 1964, com as peças que montou em seu recém-inaugurado Teatro Ruth Escobar, na Bela Vista, em São Paulo.

Inaugurado com A ópera dos três vinténs (1964), de Brecht, esse palco recebeu montagens históricas, como Roda viva (1968), dirigido por Zé Celso, Romeu e Julieta (1969), de Shakespeare, e O balcão (1969), de Jean Genet. Com esta última, denominada por Mamberti como “a obra prima do teatro mundial”, recebeu diversas premiações, como o troféu Roquette Pinto de personalidade do ano.

O ator Sérgio Mambertini na peça ‘Visitando o Sr. Green’ (Foto Ale Catan / Divulgação)

A peça foi dirigida pelo argentino Victor García, que Ruth convidara para trabalhar no Brasil em 1967. O próprio Genet reconheceu que foi a melhor montagem que seu texto recebeu. Com García, no ano anterior, a atriz também montou outra peça de sucesso internacional, Cemitério de automóveis, adaptação do próprio argentino para texto de Fernando Arrabal, que estreou em 1968 em uma garagem antiga da rua Treze de Maio.

“Ruth é importante pela espantosa visão que tinha das vanguardas do mundo, e que trazia para o Brasil”, afirma Jefferson Del Rios, crítico teatral e jornalista. “Foi uma pessoa que se arriscou em produções difíceis, trazendo para o Brasil o que havia de melhor no mundo do teatro na sua época, e devemos a ela a vinda ao Brasil do genial Victor García.”

O balcão também representou, na opinião de Del Rios, seu ponto alto como atriz. O crítico também destaca sua atuação em Torre de Babel (1977) que, igualmente, nasceu da sua iniciativa de trazer a São Paulo o espanhol Fernando Arrabal, autor da peça.

Na política

Com uma personalidade “de liderança, inquieta, agitada”, como define Mamberti, Ruth Escobar também teve significativa expressão na política. Mesmo antes de fundar seu teatro, em 1964, criou a iniciativa Teatro Popular Nacional, que por um ano adaptou peças teatrais em um ônibus para levar às periferias de São Paulo.

Também combateu a Ditadura Militar. Recebeu exilados políticos em seu teatro, defendeu autores censurados e chegou a ir ao DOI-CODI para saber onde estava um ator preso. “Ela recebia em casa todos os articuladores das Diretas Já para que eles conversassem com os intelectuais de São Paulo. Na casa dela conheci gente como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves”, relembra Del Rios.

Na década de 1980, seu envolvimento político levou-a a se afastar do teatro, quando foi eleita deputada estadual. Durante dois mandatos, dedicou-se a trabalhos comunitários. Em 1987 narrou sua trajetória em Maria Ruth – Uma autobiografia. Três anos depois retornou ao teatro, em uma encenação de Relações perigosas, de Heiner Müller.

Para Sérgio Mamberti, não havia uma diferença tão grande da Ruth do teatro para a da política. “Sua atuação política fazia sempre parte da sua performance como personalidade teatral. Sempre com opiniões controversas, muito polêmicas, apaixonadas”, afirma Mamberti. “Justamente por isso ela tinha esse papel importante, sempre havia debate onde ela estava, certa efervescência cultural.”

Ruth subiu ao palco pela última vez em 2001, Os lusíadas, de Camões. “É um pedaço da história da cultura brasileira que se encerra hoje, mas seu legado permanece”, constata Mamberti.

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